Edição 346 | 04 Outubro 2010

''Opção ecológica'': reconhecer o grito de toda a Criação junto ao grito dos pobres

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Moisés Sbardelotto | Tradução: Moisés Sbardelotto

A Criação, defende o diretor do programa de Mudanças Climáticas do Conselho Mundial de Igrejas, Guillermo Kerber, não é algo que só aconteceu no princípio (creatio prima), mas também algo que está ocorrendo agora (creatio continua). Por isso, ser cristão hoje implica em reconhecer a injustiça ecológica como parte da injustiça estrutural

Se Deus é “transparente”, como afirmava Pierre Teilhard de Chardin, e permeia toda a Criação – o que alguns definem como panenteísmo, Deus em todas as coisas – a criação é algo contínuo. De uma visão de algo que aconteceu no princípio (creatio prima), como relatam os textos do Gênesis, a criação é algo que está ocorrendo agora (creatio continua). Nesse sentido, Guillermo Kerber, diretor dos programas de Mudanças Climáticas e de Assuntos Internacionais, Paz e Segurança Humana do Conselho Mundial das Igrejas, comunidade mundial ecumênica de 349 Igrejas, a “opção ecológica” implica em reconhecer, junto ao grito dos pobres, o grito de toda a Criação. “Uma criação que geme até o dia de hoje”, afirma, parafraseando a Carta aos Romanos. “Ser cristão hoje na América Latina implica em reconhecer a injustiça ecológica como parte da injustiça estrutural em que a maioria dos nossos povos vive imerso. Por sua vez, uma clara ação pela justiça ecológica em níveis individual, comunitário e social se converte em um imperativo espiritual, ético e político”, defende Kerber. E as mudanças climáticas, explica, são um exemplo dessa injustiça, “porque os que sofrem e sofrerão mais seus efeitos negativos são os mais pobres e vulneráveis”. Assim, campanhas como o “Tempo para a Criação” e a 10:10:10 são oportunidades para que cada pessoa assuma um compromisso pessoal e faça essa “opção ecológica”. “A ‘mudança dos hábitos cotidianos’ – afirma Kerber – pode ser expressão de uma mais profunda ‘conversão’”, que pode trazer consigo até a morte, como em Francisco de Assis, Chico Mendes ou a irmã Dorothy Stang.

Filósofo e teólogo uruguaio, Guillermo Kerber é também doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo - Umesp. Atualmente, reside com sua família em Genebra, onde trabalha como diretor dos programas de Mudanças Climáticas e de Assuntos Internacionais, Paz e Segurança Humana do Conselho Mundial das Igrejas. No Uruguai, Kerber foi professor de Ética na Universidade da República e na Universidade Católica, além de ter trabalhado em ONGs vinculadas ao desenvolvimento, à ecologia, ao ecumenismo e aos direitos humanos. É autor de O Ecológico e a Teologia Latino-Americana (Ed. Sulina, 2006) e coeditou a edição da revista do Conselho Mundial de Igrejas, The Ecumenical Review, de julho de 2010, sobre mudanças climáticas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De 1º de setembro a 10 de outubro, estamos celebrando o chamado “Tempo para a Criação”, proposto pelo Conselho Mundial de Igrejas como um período de oração e celebração do meio ambiente. Em termos teológicos, qual é o significado do conceito “criação”?

Guillermo Kerber – A Criação é a convicção de fé de que tudo o que existe foi feito por Deus, que Ele é o Criador, mas, ao mesmo tempo, a partir de uma perspectiva cristã trinitária, junto ao Pai que cria, ao Filho que redime a criação e ao Espírito Santo que a sustenta e vivifica. A Criação, portanto, não é só algo que aconteceu no princípio (creatio prima), como relatam os textos do Gênesis, mas também algo que está ocorrendo agora (creatio continua). É caminho para entrar no mistério da Trindade. E é, por sua vez, o fim da história, a escatologia quando Deus será tudo em todas as coisas (1Cor 15, 28).

IHU On-Line – O tema proposto para este ano é “Criação florescente: Um momento para a celebração e o cuidado”. Como podemos compreender esses dois aspectos – celebração e cuidado da Criação – a partir da tradição cristã?

Guillermo Kerber – Neste ano, comemora-se o Ano Internacional da Biodiversidade . A riqueza da criação se expressa nas milhares de espécies que povoam o nosso planeta azul. É importante, em chave cristã, reconhecer e celebrar isso, dando graças a Deus por toda a Criação. Os Salmos da Criação são expressão dessa gratidão e louvor (por exemplo, Salmos 8, 19, 139).
Mas, ao mesmo tempo, a criação que floresce se vê ameaçada constantemente pelo desaparecimento de espécies. Essa perda da biodiversidade é, em grande medida, provocada pela ação dos seres humanos. Daí a necessidade de cuidar da Criação. Nós, seres humanos, somos parte dela e, como tais, temos uma responsabilidade para com ela.

IHU On-Line – Como as igrejas em geral, em diálogo ecumênico, podem se inserir nesse debate, especialmente na América Latina? Que perspectivas teológicas podem fundamentar essa “opção ecológica”?

Guillermo Kerber – Uma renovada teologia da criação reconhece, por um lado, um “Deus na Criação” (Jürgen Moltmann ), um Deus que não só está além de tudo o que podemos imaginar (transcendência) e é mais profundo do que o mais íntimo do nosso ser (imanência), o que Santo Agostinho  expressou poeticamente ao dizer “Deus superior summo meo, intimior intimo meo”. Deus também é “transparente”, como expressava Pierre Teilhard de Chardin : “O grande mistério do Cristianismo não é exatamente a Aparição, mas sim a Transparência de Deus no Universo”. Os teólogos processuais e as teólogas ecofeministas chamam essa presença de “panenteísmo” (Deus-em-tudo, que não deve ser confundido com o panteísmo: tudo é Deus), conceito que é recolhido na América Latina por Leonardo Boff  e Ivone Gebara , por exemplo. E Sallie McFague  vai falar do mundo como o corpo de Deus.

Por outro lado, nas igrejas latino-americanas, a preocupação pelos pobres, a “opção pelos pobres” e a busca da justiça foram elementos centrais na teologia e na ação pastoral. A “opção ecológica” implica em reconhecer, junto ao grito dos pobres, o grito de toda a Criação (Leonardo Boff). Uma criação que geme (Romanos 8, 22) até o dia de hoje. Pobreza e destruição ecológica vão de mãos dadas. O relatório do Grupo Internacional de Especialistas em Mudanças Climáticas destaca que as comunidades vulneráveis (os pobres, os índios, os habitantes de zonas costeiras, as mulheres etc.) são as que sofrem e sofrerão mais as consequências decorridas das mudanças climáticas.

Ser cristão hoje na América Latina implica em reconhecer a injustiça ecológica como parte da injustiça estrutural em que a maioria dos nossos povos vive imerso. Por sua vez, uma clara ação pela justiça ecológica em níveis individual, comunitário e social se converte em um imperativo espiritual, ético e político.

IHU On-Line – É possível equilibrar o cuidado pela criação e o compromisso pela justiça, pelos mais pobres? Que exemplos de figuras históricas viveram esse equilíbrio?

Guillermo Kerber – Não só é possível: é necessário. O cuidado da criação e o trabalho pela justiça não podem se separar. Os conceitos de justiça ecológica, justiça climática, apontam para a união dessa preocupação e dessa luta. As mudanças climáticas são um exemplo da injustiça, porque, como disse antes, os que sofrem e sofrerão mais seus efeitos negativos são os mais pobres e vulneráveis.
São Francisco de Assis  é uma referência inevitável quanto ao seu testemunho de harmonia com a criação, com o irmão Sol, a irmã Lua, a irmã Água e seu radical seguimento de Jesus no serviço aos mais pobres, como reflete o seu encontro com o leproso. No Brasil, acho que Chico Mendes  ou a irmã Dorothy Stang  são exemplos de que o compromisso pela Criação e pelos pobres não é banal e pode trazer consigo a morte. Em muitos países latino-americanos, as comunidades indígenas já não são figuras históricas individuais, mas sim sujeitos comunitários desse compromisso. Na Índia, Vandana Shiva  mostrou como a preocupação pelo ambiente e pelas mulheres vai de mãos dadas. Esses são só alguns casos. Em todos os lugares, encontramos exemplos de pessoas e de comunidades, talvez não tão conhecidas, que em sua vida são testemunhas desse amor e desse compromisso com a terra e com os pobres.

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