Edição 346 | 04 Outubro 2010

Água, sagrada e saudável para toda a Criação

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Moisés Sbardelotto | Tradução Walter O. Schlupp

A crise da água é uma grande ameaça para a integridade da Criação divina, sendo a causa de inúmeros conflitos. Porém, a dimensão litúrgica celebra a santidade já inerente à água como dom de Deus, defendem o reverendo anglicano John Gibaut, e a coordenadora da Ecumenical Water Network, Maike Gorsboth

Muita ou pouca, extremamente muita ou extremamente pouca, a água faz parte das manifestações mais assustadoras das mudanças climáticas, seja em sua total falta, que leva a secas e incêndios arrasadores, seja em seu excesso insuportável, como nas grandes enchentes e desabamentos. Por outro lado, sem água, não há vida. Ela constituiu de 70% a 75% do nosso corpo, e não sobrevivemos a mais do que três dias sem ela.
Nesse sentido, “as numerosas referências bíblicas à água são símbolo e manifestação do poder de Deus. Na Bíblia, a água nos fala das bênçãos de Deus, físicas e espirituais”, afirmam o reverendo anglicano John Gibaut, diretor da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, e Maike Gorsboth, coordenadora da Ecumenical Water Network [Rede Ecumênica da Água] do CMI, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Por isso, se falamos de um “Tempo para a Criação”, estamos falando também dos “numerosos significados da água nas narrativas bíblicas”, que nos levam a refletir sobre a “nossa relação com Deus, e sobre a relação de Deus conosco e com toda a Criação”. Por isso, analisam a relevância da água nos cultos e celebrações das igrejas cristãs. Segundo Gibaut e Gorsboth, assim a “refeição” eucarística foi perdendo importância, até chegarmos ao pão minimizado a uma hóstia, a água também foi perdendo seu significado na liturgia. “A forma pela qual usamos a água na oração e no culto, assim como a forma pela qual refletimos sobre ela teologicamente, influencia efetivamente sobre a forma como percebemos – e usamos – a água de um modo geral”, afirmam. “Um uso empobrecido da água na vida litúrgica da Igreja gera uma compreensão frágil ou até instrumental da água”, criticam.

John Gibaut é diretor da Comissão de Fé e Ordem do CMI desde janeiro de 2008. Sacerdote da diocese de Ottawa da Igreja Anglicana do Canadá, foi professor da Faculdade de Teologia da Saint Paul University, Ottawa, durante 14 anos, onde lecionou, dentre outros, teologia litúrgica.

Maike Gorsboth é coordenadora da Ecumenical Water Network [Rede Ecumênica da Água] do Conselho Mundial de Igrejas – CMI desde janeiro de 2007. Antes disso, esteve envolvida em educação, defesa e campanhas em prol da água como direito humano junto a organizações como a FoodFirst Information and Action Network International – FIAN e Brot für die Welt [Pão para o Mundo] da Alemanha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A água é um elemento central para a vida, além de ser uma constante nas narrativas bíblicas. Nessa perspectiva, qual a importância da água como símbolo, bíblica e teologicamente? Como podemos “encontrar Deus” por meio da água?

Maike Gorsboth – O uso literal e figurado da água na Bíblia reflete sua importância para toda a vida, seja como um elemento que dá vida, seja como uma força que pode ameaçar e destruí-la. Vemos isso quando o Espírito de Deus pairou sobre as águas bem no início da Criação, na história de Noé, no encontro de Jesus com a mulher samaritana e em muitas outras histórias, e finalmente no “rio de água viva” em Apocalipse 22, 1.
Entretanto as numerosas referências bíblicas à água também são símbolo e manifestação do poder de Deus. Na Bíblia, a água nos fala das bênçãos de Deus, físicas e espirituais: ao derramar “água sobre a terra sedenta”, assim como ao derramar “o Espírito” sobre os descendentes de Jacó (Isaías 44, 3). Muitos Salmos exaltam as bênçãos concedidas a toda a Criação, não somente a nós humanos, por meio de fontes, rios e chuva, que alimentam e sustentam todos os seres vivos. Quando Jesus se volta para a mulher samaritana junto à fonte, a água mais uma vez é símbolo, instrumento e expressão da graça e do amor de Deus por nós. Ela nos admoesta a compartilhar generosamente a água real e viva. As narrativas em torno do rio Jordão estão conectadas com a promessa de cura espiritual, renascimento e libertação.
E há muitas outras histórias nesse sentido na Bíblia. A água é um elemento recorrente, mas também multifacetado na Bíblia. Para mim, refletir sobre os numerosos significados da água nas narrativas bíblicas é uma forma de refletir sobre nossa relação com Deus, sobre a relação de Deus conosco e com toda a Criação.

John Gibaut – Não tenho certeza de que podemos “encontrar Deus na água”, mas penso que podemos encontrar Deus – como indica a pergunta – “por meio” da água. Em primeiro lugar, a água é um dom da Criação. Nós a recebemos e não a criamos. A água remete para nossas origens na água, seja literalmente no processo do nascimento e na narrativa bíblica, seja como aquilo que nos sustenta ao longo da vida. Como tal, a água nos remete para nossas origens em Deus e para toda a nossa dependência da presença mantenedora de Deus desde o nascimento até a morte.
Como Maike mencionou, a água como símbolo é polivalente: além de dar a vida, ela também tem a ver com a morte, como se pode ver em tempestades no mar, em enchentes e na possibilidade de morrer afogado. Como símbolo daquilo que dá a vida e que tem a ver com a morte, a água aponta para o mistério pascal, que igualmente tem a ver com a morte e que dá a vida. É nessa direção que Paulo usa a água em Romanos 6, 4: no batismo fomos sepultados com Cristo e com ele fomos ressuscitados para uma vida nova.
Sem dúvida, essa interpretação para os cristãos modernos exige uma compreensão clara de baptizmos no sentido grego de “mergulhar” na água, no sentido do batismo por imersão. A infusão ou aspersão de água nos candidatos ao batismo hoje dificulta a compreensão do significado da água batismal para Paulo e, de fato, para o próprio cristianismo primitivo.

IHU On-Line – Podemos ver hoje os impactos do desperdício e da poluição da água, que ameaçam particularmente os mais vulneráveis. Como podemos entender nossa missão cristã nos desafios sociais em torno da água?

Maike Gorsboth – Como igrejas e como cristãos, visualizamos um mundo onde a justiça, a paz e a integridade da Criação são garantidas. Somos chamados a participar da missão de Deus a dar lugar a uma nova criação, onde a vida em abundância seja garantida a todos. A crise climática e a crise da água da água que estamos enfrentando hoje são grandes ameaças não só para a integridade da Criação divina. Ela é a causa dos conflitos entre comunidades, povos e nações. É um reflexo e um resultado da injustiça social e econômica prevalente, ao mesmo tempo em que é uma de suas causas, reforçando a pobreza e a desigualdade.
A razão pela qual bilhões de pessoas hoje não têm acesso básico a água potável não é só a escassez física de água ou a falta de recursos financeiros. Em todo o mundo, vemos que a corrupção, a indiferença e a ganância privam as populações mais vulneráveis da água de que precisam para viver. Por exemplo, comunidades que são obrigadas a usar águas poluídas e perdem seu sustento por causa das operações de mineração; pessoas que são desalojadas por grandes projetos de infraestrutura destinados a prover água e eletricidade para o “desenvolvimento”; ou os milhões que vivem em assentamentos urbanos informais, que não são incluídos nas estatísticas nacionais nem em quaisquer mapas oficiais, porque são considerados “ilegais”.

Tempos atrás, visítioi Kibera, uma enorme favela do Quênia, na África, que abriga cerca de um milhão de pessoas. Ali existem muitos lixões com “banheiros voadores” [flying toilets], pequenos sacos plásticos que as pessoas usam por falta de banheiros. Adultos e crianças carregavam pesadas latas d’água para suas casas. Chegamos a uma estrada de ferro elevada que, de um lado, dava vista para uma enorme área de casebres cobertos com telha de zinco, com riachos de água poluída entre eles. E exatamente do lado oposto dos trilhos, um lindo gramado atravessado por um pequeno arroio: era um campo de golfe, protegido por trás de um muro de concreto, coberto por cacos de vidro.

Esse campo de golfe de luxo, exatamente ao lado de famílias que vivem sem água limpa nem banheiros, é um símbolo contundente da injustiça que caracteriza a crise da água de hoje. Acredito que, como cristãos, precisamos defender um uso da água que seja mais respeitoso e sustentável. Ao mesmo tempo, precisamos prestar atenção ao fato de que, no âmago dessa crise, estão a injustiça e a desigualdade, vendo também a estreita inter-relação entre justiça, paz e integridade da Criação. Isso também é o que relaciona a “crise da água” a outros desafios globais, como a crise climática e a crise financeira global.

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