Edição 346 | 04 Outubro 2010

''Distribuir renda é uma política inteligente''

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Graziela Wolfart

Para Ladislau Dowbor, a “grande sacada” do capitalismo brasileiro foi descobrir o mercado interno e a importância de responder às necessidades internas do país

Na visão do economista Ladislau Dowbor, constatou-se que “distribuir a renda, no caso de uma economia desigual como a brasileira, gera um mercado interno, que estimula o consumo popular, o que vai levar ao desenvolvimento de um conjunto de pequenas atividades comerciais pelo Brasil afora e, na realidade, não vai melhorar apenas a situação dos pobres, como a situação da economia em geral, porque alguém tem que abastecer e responder a esta demanda”. Esta lógica de distribuir a renda é inteligente, segundo Dowbor, no sentido de que “favorecer os pobres não é uma opção em detrimento do favorecimento dos ricos, e sim que essa imensa fronteira econômica de gente subabastecida que temos no país representa, na realidade, um eixo de expansão para todas as atividades econômicas internas. Essa é uma mudança profunda de enfoque e que está determinando, com formas e ritmos diferentes, toda a América Latina”, conclui. Na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line na última semana, Dowbor defende que é preciso “generalizar o bem-estar para toda a sociedade e não só para alguns. E isso tem que ser feito de maneira sustentável”.

No próximo dia 5 de outubro, Ladislau Dowbor estará na Unisinos falando sobre as transformações do capitalismo brasileiro, dentro da programação do Ciclo de Palestras Perspectivas socioambientais e econômicas do Brasil 2010-2015. Limites e Possibilidades, promovido pelo IHU. O evento acontece no Auditório Central da Unisinos, das 20h às 22h.

Ladislau Dowbor é graduado em Economia Política pela Université de Lausanne (Suíça), com especialização em Planificação Nacional pela Escola Superior de Estatística e Planejamento, onde fez o mestrado em Economia Social e doutorado em Ciências Econômicas. Atualmente, é professor na PUC-SP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais as principais modificações que o capitalismo brasileiro vem sofrendo nos últimos dez anos?

Ladislau Dowbor – A dinâmica principal do Brasil e de toda a América Latina é a desigualdade. Esse é de longe o problema principal. Temos aqui no país uma população chegando aos 200 milhões de habitantes e temos, por baixo, 100 milhões de pessoas que não estão inseridas adequadamente na sociedade. Nessas, temos cerca de 60 milhões que constituem nosso “quarto mundo”: são pessoas sem carteira de identidade, sem carteira profissional, sem CPF, sem conta bancária, sem endereço postal. Elas simplesmente não existem. Essa situação gerou, nos últimos dez anos, governos centrados na redução da desigualdade, como Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, os Kirchner na Argentina, a Bachelet no Chile e, evidentemente, Lula no Brasil. São governos com novas tendências centradas na inclusão social do que se chama a base da pirâmide, que são os pobres. Isso levou ao desenvolvimento de um conjunto de políticas, que é a ampliação da base escolar, um conjunto de processos distributivos de renda, como o Bolsa Família e um conjunto de iniciativas ligadas ao apoio à agricultura familiar, através do Pronaf. Temos os programas como o Território da Cidadania, que atinge mais de dois mil municípios hoje, com infraestruturas ligadas diretamente à qualidade de vida da base da sociedade. Tivemos um aumento do salário mínimo, em seis anos, da ordem de 57%. Isso é imenso, porque, quando se tem muito pouco dinheiro, qualquer mudança leva a uma melhoria drástica da qualidade de vida das pessoas. Tivemos em poucos anos 13 milhões de novos empregos gerados. E isso está ligado ao próprio processo distributivo, porque se constatou que distribuir a renda, no caso de uma economia desigual como a brasileira, gera um mercado interno, que estimula o consumo popular, o que vai levar ao desenvolvimento de um conjunto de pequenas atividades comerciais pelo Brasil afora e, na realidade, não vai melhorar apenas a situação dos pobres, como a situação da economia em geral, porque alguém tem que abastecer e responder a esta demanda. Esta lógica de distribuir a renda é inteligente, no sentido de que favorecer os pobres não é uma opção em detrimento do favorecimento dos ricos, e sim que essa imensa fronteira econômica de gente subabastecida que temos no país representa, na realidade, um eixo de expansão para todas as atividades econômicas internas. Essa é uma mudança profunda de enfoque e que está determinando, com formas e ritmos diferentes, toda a América Latina.

Independência dos EUA

No caso brasileiro, isso se apoiou numa segunda vertente que é a redução da dependência externa relativamente aos Estados Unidos. Isso envolveu um grande esforço de diversificação de mercados. No início, o governo Lula (que se chamava “aerolula”) permitiu reduzir a dependência relativamente aos Estados Unidos e abrir relações comerciais com o Oriente Médio, os países árabes, com a China, com a Índia, com a África do Sul e, em particular, com os vizinhos latino-americanos. Isso permitiu aumentar muito as exportações, o que, por sua vez, permitiu aumentar as reservas em divisas que o país tinha, que em 2002 eram de 30 bilhões de reais e hoje são de 260 bilhões de reais. Esse equilíbrio das contas externas reduziu a chamada vulnerabilidade aos movimentos especulativos internacionais. Quando surge a crise financeira mundial de 2008 o Brasil não só está mais protegido como, por exemplo, pôde ter linhas de crédito em dólares para exportadores brasileiros num momento em que nenhuma instituição financeira estava financiando crédito para exportações. Ao mesmo tempo, esses setores que exportavam e que viram suas exportações prejudicadas com a crise mundial, frente à expansão do mercado interno, puderam se reconverter para este mercado, o que fez com que o Brasil atravessasse a crise de maneira excepcionalmente competente. Foi o último país a entrar na crise e o primeiro a sair dela, porque tinha investido amplamente no mercado interno.

Resgate social da base da pirâmide

Temos um eixo político, que é o resgate da base social da pirâmide, que estava excluída da economia, o que abre uma nova fronteira econômica para todos os atores econômicos do Brasil. Ao mesmo tempo, tivemos uma diversificação das relações internacionais que reduziu a vulnerabilidade e criou uma respeitabilidade internacional para o Brasil absolutamente excepcional. O respeito mundial que o Brasil angariou nesses últimos anos está ligado não só ao fato de que temos um presidente simpático e carismático, mas ao fato de que foram aplicadas políticas de bom senso, que estão reduzindo as tensões internas, dando ao Brasil um papel de liderança mundial. Hoje, com certo recuo, olhamos as duas gestões do governo Lula e constatamos que, realmente, houve uma mudança extremamente profunda.

IHU On-Line - O que caracteriza o capitalismo brasileiro atual, que explica os rumos que ele vem tomando desde a crise financeira internacional em 2008?

Ladislau Dowbor – O capitalismo brasileiro descobriu o mercado interno e a importância de responder às necessidades internas do país. O segundo eixo é que ele descobriu que nós não podemos explorar indefinidamente os recursos naturais sem prejudicar a sustentabilidade a médio e longo prazo. Isso implica na redução do desmatamento da Amazônia, que caiu de 28 mil quilômetros quadrados para sete mil quilômetros quadrados. Continua sendo um desastre, mas é um avanço extremamente importante. Essa redução da destruição da Amazônia foi obtida, em grande parte, em acordos negociados pelo governo com os grandes compradores, que são grandes grupos, como Wal-Mart, Carrefour e outros, que compram produtos de certas regiões, no sentido de gerar um comportamento ambientalmente sustentável por parte deles. Essa tomada de consciência na área do grande capital, de que há necessidades da população insatisfeitas - e isso pode ser um problema, mas pode ser uma oportunidade em termos de expansão de fronteiras -, e a tomada de consciência da problemática ambiental são os dois principais eixos de mudança. Isso entra com certa dificuldade na cabeça de um empresário, porque ele pensa que, se tiver um aumento de salário mínimo e de políticas sociais, isso tornará a mão-de-obra mais cara para ele, portanto poderá abrir menos empregos. É lógico do ponto de vista do capitalista individual. Ele raciocina assim. Só que, ao multiplicar em todas as empresas essa atitude, não temos desenvolvimento do mercado interno e todo mundo entra em crise. Foi assim nos anos 1980 e 1990, quando houve praticamente uma paralisia da produção. Quando se pensa fora de uma unidade empresarial, entendemos que esse aumento do salário mínimo e dos direitos sociais gera capacidade de compra por parte dos trabalhadores. E essa capacidade de compra dinamiza o mercado. Todo mundo vai poder produzir mais. É justamente esse o “casamento estranho” que as pessoas não imaginavam, de que ajudar a parte de baixo da sociedade também ajuda na parte da cima. Em 1964, quando se quis fazer um aumento do salário mínimo e uma pequena reforma agrária, foi o suficiente para se derrubar o governo. Hoje os tempos mudaram. Entendemos que temos que generalizar o bem-estar para toda a sociedade e não só para alguns. E isso tem que ser feito de maneira sustentável.

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