Edição 346 | 04 Outubro 2010

Brasil, abundante e também ignorante em biodiversidade

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Graziela Wolfart e Moisés Sbardelotto

Embora o Brasil tenha, com abundância, “tudo o que é fator escasso no mundo”, somos um dos maiores emissores de carbono do mundo, com dois bilhões de toneladas anuais, pelo mau uso do solo, explica o jornalista ambiental Washington Novaes

Depois de dez meses da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de Copenhague (COP-15) e a dez semanas da Conferência de Cancún (COP-16), a IHU On-Line conversou por telefone com o jornalista especialista em questões ambientais e povos indígenas Washington Novaes sobre a situação das mudanças climáticas hoje. Segundo ele, há um reconhecimento cada vez maior da gravidade da situação ambiental em todo o mundo, e os chamados céticos das mudanças climáticas têm perdido muito terreno. Porém, o maior problema, especialmente a partir dos debates nas Conferências do Clima, é “conseguir um acordo sobre o que fazer diante disso tudo”, afirma Novaes. Segundo ele, já está praticamente definido que, na próxima reunião de Cancún, no México, em novembro deste ano, não haverá acordo. O papel do Brasil nesse cenário é ambíguo. Novaes explica que o país já atinge uma marca de dois bilhões de toneladas anuais de emissões de gás carbônico, o que torna o Brasil um dos maiores emissores do mundo. Mas com uma característica especial: as emissões brasileiras não se devem às suas matrizes industrial ou de transporte, mas sim a mudanças no uso do solo, aos desmatamentos e queimadas, que respondem por 75% das emissões. Por outro lado, “nós temos tudo o que o mundo sonha. Tudo o que é fator escasso no mundo tem aqui em relativa abundância. O Brasil é uma espécie de sonho do mundo”, diz. Para manter essa abundância, Novaes defende que o Brasil deveria discutir sua matriz energética. “Fica se falando que o Brasil precisa de mais tantos mil megawatts, de construção de hidrelétricas gigantescas, a um preço ambiental e financeiro altíssimo, quando existem estudos da matriz energética brasileira que dizem que o Brasil pode viver tranquilamente com 50% menos de energia do que consome hoje”, afirma.

Washington Luíz Rodrigues Novaes é jornalista há mais de 50 anos, tratando com destaque os temas de meio ambiente e povos indígenas. Atualmente, é colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Popular. Na TV Cultura de São Paulo é supervisor de Biodiversidade e comentarista do programa Repórter Eco. Na televisão, foi editor-chefe do Globo Repórter e do Jornal Nacional, da Rede Globo. Como produtor independente de televisão, dirigiu as séries Xingu, A Terra Mágica, Kuarup, Pantanal e Xingu, A Terra Ameaçada. Ganhou vários prêmios internacionais e nacionais, como o Prêmio de Jornalismo Rei de Espanha, o Prêmio Esso Especial de Meio Ambiente e o Prêmio Unesco de Meio Ambiente 2004. Tem vários livros publicados, dentre eles Xingu (Brasiliense) e A Terra Pede Água (Sematec/BSB). Em 2009 recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Goiás.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Neste período pós-Copenhague e pré-Cancún, como o senhor avalia a reflexão em torno das mudanças climáticas, especialmente por parte dos órgãos governamentais? Reconhece-se a gravidade da situação ou ainda há muito ceticismo?

Washington Novaes – O reconhecimento da gravidade da situação é cada vez mais amplo. Mesmo os chamados céticos das mudanças climáticas têm perdido muito terreno. Há poucos dias, saiu um estudo de várias instituições científicas convidadas pela ONU que reafirmaram que as previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas  estão corretas. Tem algumas incorreções, que eles pedem que sejam acertadas, e sugerem algumas mudanças de métodos. Mas diz-se que os diagnósticos do Painel do Clima estão certos. Os acontecimentos no mundo inteiro estão cada vez mais graves. Temos, neste momento, essas inundações gigantescas no Paquistão, na Índia, na China, os incêndios na Europa, desastres no Brasil e em outras partes. Então, isso está cada vez mais forte. O que está difícil é conseguir um acordo sobre o que fazer diante disso tudo. As lógicas financeiras continuam prevalecendo, seja no plano dos países, seja no plano das empresas e até no das próprias pessoas, cada um pensando o que acontecerá, se vai ganhar ou perder nesse quadro. E com isso não se consegue um acordo, a ponto de já estar praticamente definido que, na próxima reunião da Convenção do Clima, que será em novembro, em Cancún , no México, não haverá acordo. O próprio secretário-geral da ONU já disse isso, que não acontecerá esse acordo.

IHU On-Line – Qual a situação do Brasil com relação às mudanças climáticas? Quais são os nossos ecossistemas e biomas mais fracos diante da crise ambiental?

Washington Novaes – O Brasil, desde o início, não aceitou a questão dos compromissos obrigatórios de redução de emissões. Isso foi estabelecido, e o Brasil se recusou, sob a afirmação de que essa é uma obrigação dos países industrializados, que poluem mais e há mais tempo, e que aceitar metas obrigatórias de redução poderia comprometer o desenvolvimento econômico. No ano passado, porém, um pouco antes da reunião do clima em Copenhague , o Brasil estabeleceu metas voluntárias que não podem ser controladas por ninguém, mas que ele se propôs a reduzir as emissões em 40% sobre o que seriam essas emissões em 2020.
Hoje, os relatórios internacionais dizem que as emissões brasileiras estão na casa de dez a 11 toneladas por habitante a cada ano. Multiplicando-se isso por 200 milhões, isso vai dar mais de dois bilhões de toneladas anuais. Nesse quadro, o Brasil já é um dos maiores emissores do mundo, mas com uma característica: nas nossas emissões, a maior parte se deve, não à matriz industrial nem à matriz de transporte, e sim a mudanças no uso do solo, desmatamentos e queimadas. Elas respondem por 75% das emissões brasileiras. Nesse quadro, a Amazônia , segundo o último levantamento do Ministério do Meio Ambiente, responde por 59%, e o Cerrado, por quase todo o restante, embora esse panorama esteja mudando um pouco, porque as emissões na Amazônia têm se reduzido, e as emissões do Cerrado continuam muito altas.

IHU On-Line – Os órgãos públicos estão fazendo o que lhes cabe para evitar que essas mudanças se aprofundem? Como o senhor avalia os projetos governamentais e as políticas públicas em torno da ecologia?

Washington Novaes – Uma das poucas coisas que tem funcionado um pouco é a questão do combate ao desmatamento na Amazônia, embora a redução do desmatamento tenha sido muito influenciada por pressões internacionais, por movimentos internacionais, como esses que exigem certificação da carne exportada, certificação da soja exportada, certificação da madeira. Isso levou a uma redução razoável do desmatamento, que também se beneficiou, em 2009, da crise econômica, a qual reduziu as atividades.
Mas as nossas políticas são muito frágeis. Os instrumentos de controle na Amazônia e nos outros biomas são muito frágeis. Neste momento, por exemplo, o que nós temos de queimadas  no Centro-Oeste e no Cerrado é uma loucura. E não há instrumentos de controle. A única coisa que se está fazendo é aumentar o número de brigadas para combater os incêndios. Mas não há políticas preventivas em relação a isso. De modo geral, as nossas políticas de adaptação às mudanças climáticas, como elas são chamadas, são muito frágeis, em todos os lugares.

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