Edição 346 | 04 Outubro 2010

Brasil, abundante e também ignorante em biodiversidade

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Graziela Wolfart e Moisés Sbardelotto

 

IHU On-Line – Que importância a “agenda ambiental” deveria ter para os próximos governos?

Washington Novaes – Eu entendo que isso deveria estar no centro de uma estratégia brasileira e no centro de uma discussão de uma eleição presidencial. Mas essa discussão não existe, você não vê essa discussão, a não ser menções da Marina Silva  ao que ela chama de “processo de qualidade”, a necessidade dessa política em quase todas as áreas de governo. Mas não é um tema central das eleições, e essa estratégia também não está em cogitação. O que eu penso é que um país como o Brasil deveria estar muito atento a isso. Os relatórios mundiais têm dito o seguinte: os grandes problemas de hoje no mundo são as mudanças climáticas e os padrões de consumo já bastante além da capacidade de reposição do planeta. O Kofi Annan , o ex-secretário-geral da ONU, diz até que essas duas questões ameaçam a sobrevivência da espécie humana. Se é assim, o Brasil deveria pensar o seguinte: nós temos tudo o que o mundo sonha. Tudo o que é fator escasso no mundo tem aqui em relativa abundância: nós temos território continental, possibilidades de plantar e colher, porque temos sol o ano todo, temos quase 13% de toda a água que corre no planeta, temos de 15% a 20% da biodiversidade, que é a grande riqueza do mundo, nós temos a possibilidade de uma matriz energética limpa e renovável com energia solar, energia eólica, energia hidrelétrica, energia de marés, geotérmica, energia de biomassa... Então, de certa forma, o Brasil é uma espécie de sonho do mundo. Isso deveria ser o centro de uma estratégia que valorizasse e tentasse trabalhar isso tudo. Infelizmente, ainda não é.

IHU On-Line – Muito se fala do Brasil enquanto um país com grande potencial econômico e rico em recursos naturais. Como conciliar a necessidade de desenvolvimento e de energia com as questões ecológicas?

Washington Novaes – Não há desenvolvimento sem respeito a essas questões. Não há nada que o ser humano possa fazer que não esteja dependente do meio físico. Tudo o que o ser humano faz tem repercussões no meio físico, no ar, no solo, na água, nos outros seres vivos, na biodiversidade. Então é preciso que tudo seja feito de uma forma compatível com a conservação desses recursos naturais, desses meios naturais.
A questão da energia também não é diferente. E a primeira coisa que o Brasil precisaria ter é uma discussão aprofundada sobre a questão da sua matriz energética. Porque fica se falando que o Brasil precisa de mais tantos mil megawatts, de construção de hidrelétricas gigantescas, a um preço ambiental e financeiro altíssimo, quando existem estudos da matriz energética brasileira que dizem que o Brasil pode viver tranquilamente com 50% menos de energia do que consome hoje. Existe um estudo da Unicamp de 2006 que diz isso. Mas isso não está em discussão.

IHU On-Line – Em outubro deste ano, organizações ambientais internacionais estão organizando a campanha 10:10:10, o dia da maior mobilização local contra as mudanças climáticas em todo o mundo, em que organizações e pessoas darão pequenos passos para reduzir o seu consumo de carbono. Como o senhor avalia a importância de iniciativas em microescala e locais como essa?

Washington Novaes – Eu acho isso muito importante, porque tem muita repercussão na sociedade e vai disseminando, nela mesma, certos conceitos, certas necessidades que só a sociedade pode nos fazer lançar. Só ela, com as suas reivindicações, com as suas pressões, é que pode mudar as políticas, exigir novas políticas. Então, são muito importantes.

IHU On-Line – A partir da proposta do “Tempo para a Criação”, como podemos entender o valor da Criação a partir de uma perspectiva mais ampla, envolvendo também aspectos éticos e espirituais?

Washington Novaes – A reflexão sobre o planeta é fundamental. Não há nada que o ser humano faça que não tenha relação com o meio físico. Dependemos do meio físico para tudo. Todos os nossos atos estão relacionados. Então, isso tem um impacto. Precisamos entender isso. O que o ser humano fizer com a água acontecerá com o seu próprio corpo. O nosso corpo é feito de 70% de água. O que o ser humano fizer com o solo irá repercutir no nosso próprio corpo, através dos alimentos que nós ingerimos. Repercutirá com o que ele fizer na atmosfera, porque nós respiramos esse ar. Nós dependemos da biodiversidade para tudo. Tudo o que está na nossa vida depende da biodiversidade. Então, essa reflexão sobre a Criação é muito importante para levar a sociedade a entender que ela precisa se comportar de outras formas.

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