Edição 346 | 04 Outubro 2010

“Gaia sagrada”: as relações entre ecologia, feminismo e cristianismo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Moisés Sbardelotto | Tradução Luís Marcos Sander

Os homens estão sujeitos a Deus; as mulheres, aos homens; os animais, a ambos. Os efeitos disso são as “mudanças climáticas”. “Eles também exigem uma mudança no clima religioso”, defende a teóloga inglesa Anne Primavesi

A hipótese Gaia, ou a Teoria de Gaia, propõe que a biosfera e as demais esferas físicas da Terra estão intimamente integradas de modo a formar um complexo sistema interagente estável. Na visão da teóloga inglesa Anne Primavesi, a partir de seus estudos conjuntos com o autor da Teoria de Gaia, James Lovelock, Gaia (ou Mãe Terra, Pachamama etc.) é sagrada, assim como suas inter-relações, que moldam aquilo que somos.
“Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade”, afirma Primavesi. Por isso, na teologia coevolutiva, cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo. Porém, a partir de uma perspectiva ecofeminista, a teóloga reconhece que “as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo”. A partir dessa concepção, “todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim”, afirma ela, em entrevista gentilmente concedida por e-mail à IHU On-Line, em um delicado período de recuperação pós-operatório. “Nós agora temos de lidar com os efeitos do patriarcado e da desvalorização religiosa dos ‘corpos’ não só sobre as mulheres, crianças e povos indígenas, mas também sobre o corpo da Terra”. Isso exige uma “mudança no clima religioso”, defende. Nesse sentido, como resposta a uma das perguntas desta entrevista, Primavesi enviou à IHU On-Line, com exclusividade, seu “Manifesto pelo Ecofeminismo”, que aqui publicamos pela primeira vez em português.

Anne Primavesi é teóloga inglesa, doutora em teologia sistemática, especializada em questões ecológicas. Membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Religião, do Birkbeck College, University of London, já lecionou na Bristol University. É autora de vários livros, incluindo Sacred Gaia (2000), Gaia's Gift: Earth, Ourselves and God after Copernicus (2003) e Gaia and Climate Change: a Theology of Gift Events (2009). Em português, publicou Do Apocalipse ao Gênesis: Ecologia, Feminismo e Cristianismo (Paulinas, 1996). Após conhecer o cientista James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, Primavesi colaborou com ele no primeiro curso do Schumacher College sobre a Teoria de Gaia, em 1991.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em seu livro Sacred Gaia (sem tradução para o português), a senhora discute a teologia a partir de uma perspectiva coevolutiva. A que se refere?

Anne Primavesi – A teologia tradicional classifica tudo numa hierarquia de importância, sendo que a parte superior dela está mais próxima de Deus, e a inferior, mais distante. Uma perspectiva coevolutiva surge de uma compreensão mais profunda e de uma valorização da forma como todos os seres vivos vêm a existir e mantêm sua existência através de uma interligação e interdependência ineludível.
 Na teologia coevolutiva:
• cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo;
• o valor de cada organismo “importa” em relação ao todo;
• cada entidade é um ser singular e, por conseguinte, essencialmente inclassificável em graus;
• o valor intrínseco de cada uma se baseia na gratuidade do amor de Deus por ela;
• cada uma está presente e vívida na memória de Deus;
• o valor das criaturas não humanas não reside na forma como contribuem para a qualidade da vida humana; cada uma tem direito à sua própria qualidade de vida;
Como diz o poema, “eu pedi que a árvore me falasse sobre Deus, e ela floresceu”.

IHU On-Line – Ao analisar a relação entre as mulheres e a ecologia, a senhora apresenta as ideias de uma ordem hierárquica e de uma ordem “Gaiana”. Qual é a contribuição do feminino para o cuidado da Criação?

Anne Primavesi – Ao longo das últimas décadas, as ecofeministas expressaram claramente como as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente associadas ao serem rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo. Nessa concepção, os homens estão sujeitos a Deus, as mulheres sujeitas aos homens, os animais sujeitos a ambos, e a própria terra é, simplesmente, o lugar onde nós, seres humanos, realizamos nossa salvação e esperamos o céu. Numa concepção hierárquica, todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim. Esse ordenamento hierárquico valida, conscientemente ou não, relações violentas. Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade. Rotineiramente, talvez não estejamos conscientes do presentear essencial por parte dos muitos seres que possibilitam que nós tenhamos vida. Mas uma consciência mais profunda desse presentear nos refreará para não cometermos excessos de egoísmo e violência que prejudicam a terra, que é o lar de todos os seres vivos.

IHU On-Line – Qual é o impacto das mudanças climáticas sobre a fé e a prática das nossas igrejas hoje? Qual é o papel dos cristãos nesse contexto específico?

Anne Primavesi – A ciência que forma nossa compreensão da mudança climática mostra quão profundamente a humanidade afetou o equilíbrio da vida na terra. Além da perda da biodiversidade, ela adverte que a sobrevivência da própria humanidade corre risco. Isso desafia o pensamento e a prática das igrejas.
Em termos de pensamento, temos de aprender a:
• nos ver e expressar como parte de toda a comunidade da vida na terra;
• ver e tratar a terra como um lar;
• aprender e demonstrar compaixão e respeito por todas as criaturas;
• em encontros litúrgicos, responder com um agradecimento formal, gratidão e respeito pelas dádivas que nos são dadas por todos os seres vivos e tornam possível nossa vida.
Em termos de prática, temos de aprender a:
• descobrir e responder ao valor intrínseco de toda a Criação;
• resistir ao imperialismo, consumismo, colonialismo e violência em nosso pensamento;
• aprender a humildade ecológica, um reconhecimento de nossa dependência do trabalho das muitas criaturas não humanas que mantêm limpo o ar, potável a água e nos fornecem os alimentos que comemos.

IHU On-Line – Em sua opinião, por trás da crise climática, há também uma crise ética e espiritual? Perdemos a nossa capacidade de conviver com os demais seres vivos da Criação?

Anne Primavesi – Não podemos separar o espiritual do ético, ou o social do ecológico. Só podemos fazer essas separações na linguagem, não na realidade. Como pessoa, eu ajo a partir da totalidade de meu ser. As tarefas são as seguintes:
• falar sobre nós mesmas de maneiras que não pressuponham que essa espécie de separação linguística descreva as coisas assim como elas são;
• mediar entre as ideias e a ação, o abstrato e o real.
Por exemplo, quando comemos, não deveríamos simplesmente abençoar a comida. Deveríamos reconhecer que a comida abençoa a nós e responder dando graças por isso. Antes de agradecer a Deus pela comida, deveríamos identificar e estar conscientes daqueles e daquelas cujo trabalho e cuja vida tornam possível que comamos agora e agradecer a eles e elas. E isso não apenas em palavras, mas na forma como vivemos, esperando que eles e elas tenham espaço para vicejar e não os/as considerando simplesmente meios para nossos próprios fins humanos.

IHU On-Line – O “Tempo para a Criação” de 2010 está relacionado com a campanha 10:10:10, que será o dia com o maior número de ações positivas contra as ações climáticas. A partir de que motivações teológicas ou bíblicas essa relação entre fé e ecologia pode crescer ainda mais?

Anne Primavesi – Essas coisas devem ser descobertas e expressas por cada pessoa e cada comunidade. Espero ter notícias das formas de fazer isso que vocês venham a criar durante esse período! O que vocês nos disserem sobre o que encontraram será o presente que darão a todas e todos nós.
Penso que o Manifesto pelo Ecofeminismo  poderá ajudar nesse sentido.

Últimas edições

  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição
  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição