Edição 308 | 14 Setembro 2009

Os novos nomes de Deus e o empoderamento feminino

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Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander

O Concílio Vaticano II foi deixado para trás e a “era de poder hierárquico passou a vigorar”, dispara Mary Hunt. Mais importante do que os novos nomes de Deus é o poder conferido às suas nomeadoras

De acordo com a teóloga feminista Mary Hunt, “a teologia feminista muda tanto a linguagem a respeito do divino quanto a dinâmica de poder da nomeação”. Contudo, “mais importante do que quaisquer nomes novos é o empoderamento de muitas novas nomeadoras”, pondera. Sobre as proibições de que mulheres lecionem em seminários católicos e sejam ordenadas sacerdotes, entre outras, Hunt alfineta que essas são demonstrações de que o Concílio Vaticano II “foi deixado de lado e uma nova era de poder hierárquico passou a vigorar. A atual investigação das religiosas católicas americanas é o mais recente exemplo dessa tendência”.

Mary Hunt é teóloga feminista, co-fundadora e co-diretora de  Women's Alliance for Theology, Ethics and Ritual (WATER) em Silver Spring, Maryland, USA. Católica ativa no movimento feminino da Igreja, ela faz palestras e escreve sobre teologia e ética com atenção especial para questões da libertação. Graduada em Filosofia pela Universidade de Maquette, fez  mestrado na Jesuit School of Theology at Berkeley. Recebeu o título de Doutora em Teologia pela União Teológica em Berkeley, Califórnia. E, em 16 de setembro, profere a conferência Narrar Deus hoje: uma reflexão a partir da teologia feminista, parte integrante do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as contribuições da teologia feminista para narrar Deus hoje?

Mary Hunt - A teologia feminista muda tanto a linguagem a respeito do divino quanto a dinâmica de poder da nomeação. Tendo recebido a linguagem que fala de “Pai, Senhor, Rei, Soberano” de uma tradição patriarcal, as teólogas feministas têm trabalhado com Sofia ou Sabedoria, Amigo/a, Fonte e Companheiro/a, entre muitas outras formulações, para designar o divino. Em cada caso, temos tido o cuidado de dizer que nossas concepções são parciais, limitadas e contextuais, e não a única palavra verdadeira, como têm reivindicado as abordagens patriarcais. Mais importante do que quaisquer nomes novos é o empoderamento de muitas novas nomeadoras. As feministas constataram que as dimensões teopolíticas do trabalho são tão claras – a maneira como as ideias teológicas moldam o fórum público – que precisamos incluir muitas e variadas vozes na reflexão teológica. Esta é um deslocamento na autoridade e no poder teológicos que, em última análise, é mais eficaz do que qualquer nome novo.

IHU On-Line - Como a teologia feminista ajuda a escrever uma outra compreensão de Deus?

Mary Hunt - Através de novas interpretações da escritura e um novo pensamento sistemático sobre o divino, o trabalho feminista se caracteriza por uma opção preferencial pelo bem-estar das mulheres e crianças dependentes como parte de uma abordagem multivalente da criação de um mundo justo. Assim, nossa nomeação do divino reflete esse objetivo ao atentarmos para o racismo, colonialismo, discriminação de pessoas portadoras de deficiência, heterossexismo e sexismo. Fazemos isso em conjunto com pessoas provenientes de várias tradições de fé, aprendendo a escutar, talvez, mais do que simplesmente falar sobre Deus. Somos realistas em relação à forma como esses métodos funcionam: eles são inter-religiosos; expressam-se em muitas mídias, como dança, arte, pregação e discurso teológico; e necessitam ser constantemente repensados à luz das mudanças que trazem.

IHU On-Line - Nesse contexto, qual é a importância do Concílio Vaticano II como fonte de novos nichos para a inserção da mulher na Igreja?

Mary Hunt - O Vaticano II, como dizem muitos/as observadores/as, abriu as portas e janelas da Igreja Católica Romana. As mulheres e os leigos faziam parte do chamado povo de Deus ao qual o Concílio dirigiu grande parte de sua atenção. As religiosas, particularmente, levaram a sério os mandatos para mudanças e modificaram grande parte de sua vida. As teólogas começaram a falar e escrever com mais autoridade. Entretanto, durante o pontificado de João Paulo II, as portas e janelas se fecharam gradativa, mas, sistematicamente, e as mulheres foram marginalizadas mais uma vez. As proibições de que mulheres lecionem em seminários católicos, o clamor contra teólogas feministas como Ivone Gebara,  NÃOs enfáticos para a ordenação de mulheres, para o uso do controle da natalidade e do aborto, e o ensinamento negativo sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo mostram que o Vaticano II foi deixado de lado, e uma nova era de poder hierárquico passou a vigorar. A atual investigação das religiosas católicas americanas é o mais recente exemplo dessa tendência.

IHU On-Line - Podemos falar em uma redescoberta de vocações religiosas para as mulheres após o Concílio Vaticano II? Em que sentido esse evento arejou a forma como Deus era compreendido e sentido pelas mulheres?

Mary Hunt - Nos Estados Unidos, e penso que num grau diferente na América Latina, o Vaticano II representou o apogeu do número de mulheres em comunidades religiosas. Mas os documentos do Concílio sobre as pessoas leigas e a família, bem como os movimentos de mulheres em ascensão e as mudanças deles resultantes deram às mulheres muito mais opções em termos de crença e estilo de vida. Assim, os números de irmãs diminuíram, mas surgiram movimentos como Women-Church [Igreja de Mulheres] e outros esforços para ser Igreja liderados por pessoas leigas. Na medida em que a versão de Deus do tipo “Pai, Senhor, Rei, Soberano” começou a desaparecer em face do trabalho feminista, algumas mulheres se sentiram empoderadas para ser e fazer tudo que pudessem imaginar. Isto incluiu as mulheres com boa educação e relativamente ricas, mas de modo algum a maioria das mulheres do mundo. É por isto que é imperativo que a teologia feminista leve a sério sua tarefa de moldar tanto as estruturas quanto as pessoas. Do contrário, ela corre o risco de ser uma força que aumente a distância entre pessoas ricas e pobres, mulheres brancas e mulheres de cor etc., na medida em que algumas mulheres são empoderadas, mas a maioria é deixada de lado.

IHU On-Line - Como podemos compreender as narrativas de Deus que ainda não contemplam o papel fundamental da mulher?

Mary Hunt - As biblistas feministas sugeriram que deixemos de lado muitos desses textos bíblicos. Considero isso uma estratégia útil. Mas ela não enfrenta o fato de que esses textos são usados constantemente pela direita religiosa para manter as mulheres subordinadas. Assim, é necessário fazer frente a alguns desses textos em seus contextos históricos e teológicos e propor interpretações alternativas que evitem o pensamento opressor.

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