Edição 308 | 14 Setembro 2009

As ciências naturais não podem dizer o que Deus é ou não é

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Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander

Não existe um conceito que consiga explicar Deus, o que não quer dizer que Ele não exista, provoca o cientista jesuíta William Stoeger - o fato é que não podemos compreendê-lo. Métodos da cosmologia ou das outras ciências não são competentes para lidar com essa questão

O fato de que não existe um conceito adequado para explicar Deus, não pressupõe que Ele não exista, mas apenas que não podemos compreendê-lo. O raciocínio é desenvolvido na entrevista a seguir, exclusiva, concedida pelo cientista jesuíta William Stoeger à IHU On-Line. “Nossa experiência manifesta Deus, mas não nos permite descrever Deus. Entretanto, podemos – com grande humildade e trabalho – separar gradativamente as afirmações menos inadequadas sobre Deus dos conceitos mais inadequados ou completamente inadequados de Deus”, complementa. Não existem provas cosmológicas da existência divina, “isto simplesmente porque as ciências naturais não têm condições de argumentar a favor ou contra a existência de Deus ou mesmo de dizer o que ‘Deus’ é ou não é. Os métodos da cosmologia ou das outras ciências não são competentes para lidar com essa questão. Entretanto, de um ponto de vista filosófico, o próprio fato de que existe algo, e não nada, e de que há ordem no que existe, aponta para a existência de um Criador – isto é, de algo que proporciona ser, atividade e ordem”. Stoeger aponta a transdisciplinaridade como fundamental na busca pela verdade, o que não deve ser feito apenas pela teologia, religião ou filosofia. Outro aspecto discutido é a compatibilidade entre criação divina e teoria do Big Bang.

Stoeger é cientista do Grupo de Pesquisas do Observatório do Vaticano (VORG) e especialista em Cosmologia Teórica, Astrofísica de altas energias e estudos interdisciplinares relacionados com a ciência, a filosofia e a teologia. É doutor em Astrofísica pela Universidade de Cambridge desde 1979. Entre 1976 e 1979, foi pesquisador associado ao grupo de física gravitacional teórica da Universidade de Maryland, em College Park, Maryland. É membro da Sociedade Americana de Física, de Astronomia e da Sociedade Internacional de Relatividade Geral e Gravitação. Atualmente, leciona na Universidade do Arizona e na Universidade de São Francisco. É também membro do Conselho do Centro de Teologia e Ciências Naturais (CTNS). Entre outros, publicou As Leis da Natureza - Conhecimento humano e ação divina (São Paulo: Paulinas, 2002). Em 15 de setembro, Stoeger proferirá a conferência Deus, algo a ver ainda hoje? Reflexões teológicas de um cosmólogo, dentro da programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Em 11 de setembro, o cientista falou sobre Da evolução cósmica à evolução biológica. Emergência, relacionalidade e finalidade, no IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin. Para acessar o post sobre sua conferência, acesse http://unisinos.br/blog/ihu/.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as evidências cosmológicas que apontam para a existência de Deus?

William Stoeger - De um ponto de vista estritamente científico, não há evidências cosmológicas da existência de Deus – isto simplesmente porque as ciências naturais não têm condições de argumentar a favor ou contra a existência de Deus ou mesmo de dizer o que “Deus” é ou não é. Os métodos da cosmologia ou das outras ciências não são competentes para lidar com essa questão. Entretanto, de um ponto de vista filosófico, o próprio fato de que existe algo, e não nada, e de que há ordem no que existe, aponta para a existência de um Criador – isto é, de algo que proporciona ser, atividade e ordem. Nada do que a física ou a cosmologia investiga proporciona a fonte última da existência, criatividade e ordem.

IHU On-Line - De que forma a transdisciplinaridade de suas pesquisas em física, astronomia e cosmologia se aliam à sua fé como sacerdote jesuíta?

William Stoeger - A multidisciplinaridade de meus interesses e de minha pesquisa combina muito estreitamente com minha fé católica e minha vocação como jesuíta. Em primeiro lugar, é fundamental para o ponto de vista católico – embora isto não seja reconhecido com frequência – que a verdade deve ser encontrada e determinada através de todas as disciplinas, e não apenas através da teologia, religião ou da filosofia. As descobertas das ciências, da psicologia e sociologia, das artes e ciências humanas complementam o que aprendemos da teologia e filosofia – se são entendidas adequadamente. Este é o problema principal! Muitas vezes, os achados das ciências e as verdades da filosofia e teologia são interpretados erroneamente ou transformados em afirmações que vão além de suas competências. Além disso, uma ideia-chave da espiritualidade jesuíta é “encontrar Deus em todas as coisas”.

IHU On-Line - Quais são os principais avanços desse diálogo entre fé e ciência ultimamente?

William Stoeger - Os principais avanços no diálogo entre a teologia e a ciência no passado recente são os seguintes: 1) uma compreensão muito melhor de como a ação de Deus na natureza como Criador e na história como Redentor está em consonância com a formação e a autonomia funcional da natureza no nível das ciências; e 2) a percepção de que as operações primárias da racionalidade humana (imaginação bem informada, formação e teste de hipóteses, julgamento do sucesso e da fecundidade dessas hipóteses no longo prazo) que se evidenciam nas ciências naturais também funcionam como base da racionalidade humana ao se transcender as questões científicas para refletir sobre assuntos filosóficos e teológicos.

IHU On-Line - Em outra entrevista à nossa publicação, o senhor menciona que não existe incompatibilidade entre o Big Bang e a criação divina “ex nihilo”. Como compreender corretamente essas explicações e harmonizá-las?

William Stoeger - Não há incompatibilidade entre a criação divina e a teoria do Big Bang simplesmente porque a criação divina (ex nihilo) de modo algum substitui o que o Big Bang é ou o que o causou. A criação divina não tem a ver com um acontecimento ou com uma origem temporal, e sim simplesmente com a relação básica entre o Criador e tudo que existe, com o que dá existência, ordem, dinamismo e criatividade a tudo que existe, inclusive o que levou ao Big Bang, seja lá o que for. O Criador simplesmente possibilita ou capacita tudo que existe a ser o que é. Ele não o substitui, controla ou microgerencia. Além disso, o Big Bang descrito pela física e cosmologia não nos diz como se chega de absolutamente nada a algo. Do ponto de vista da cosmologia e da física, o Big Bang é resultado de um processo físico – a partir de algum potencial de vácuo, que tem energia e obedece a certas leis da natureza. Esse potencial de vácuo, essa energia e essas leis exigem – filosoficamente – algo que lhes dê existência última.

IHU On-Line - Concorda que vivemos em uma sociedade pós-metafísica? Qual é a possibilidade de se narrar Deus nessa realidade?

William Stoeger - Depende do significado que você atribui ao termo “era pós-metafísica”! Certamente há falta de atenção a questões metafísicas – e uma dependência mais explícita do que conhecemos a partir das ciências naturais e humanas. E muitas pessoas dizem que a metafísica está morta ou não é possível. Certamente, formas antigas e estáticas de metafísica não são mais aplicáveis ou dignas de crédito. Entretanto, tudo o que as pessoas fazem – inclusive o que os cientistas fazem – baseia-se em certas pressuposições, muitas das quais são metafísicas. Assim, há sempre uma metafísica subjacente à ciência, à psicologia, à sociologia, à religião e a qualquer conjunto humano de políticas ou padrões de comportamento. Com efeito, nas próprias ciências – especialmente nas ciências físicas, mas também nas biológicas – há uma sensibilidade renovada para com questões metafísicas – e até um novo apreço por percepções metafísicas tradicionais e mais modernas e dinâmicas (como, p. ex., as da filosofia do processo). Assim, há um tremendo conjunto novo de possibilidades para falar de Deus nesse contexto – mas agora usando conceitos que estejam muito mais em sintonia com o que sabemos a partir das ciências, por exemplo, Deus como criatividade. Jamais haverá um conceito adequado de Deus, mas isso não significa que Deus não exista – e sim que nós não podemos compreender Deus. Nossa experiência manifesta Deus, mas não nos permite descrever Deus. Entretanto, podemos – com grande humildade e trabalho – separar gradativamente as afirmações menos inadequadas sobre Deus dos conceitos mais inadequados ou completamente inadequados de Deus.

Leia mais...

William Stoeger já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível na nossa página eletrônica do IHU.

Entrevistas:

- Astrofísica, cosmologia e a busca de Deus no universo. Publicada nas Notícias do Dia 26-06-2006.

- “Sem a evolução cósmica não haveria evolução biológica”. Publicada na Revista IHU On-Line, edição 306, de 31-08-2009.

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