Edição 308 | 14 Setembro 2009

Fluidez e abertura nas narrativas de Deus na sociedade pós-metafísica

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Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander

Desconstrução de concepções rígidas de Deus e diálogo inter-religoso são pontos positivos da nova configuração social, aponta teólogo indiano Felix Wilfred. Religiões unidas chegarão mais perto do mistério divino do que cada uma delas sozinha.

A narrativa de Deus a partir do diálogo inter-religioso é o tema da conferência de Felix Wilfred, no encerramento do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Na opinião do teólogo indiano, professor na Universidade de Madras, Índia, é através do diálogo inter-religioso que as pessoas podem “se dar conta das inumeráveis formas pelas quais é possível aproximar-se do mistério de Deus”. De acordo com ele, a partir desse diálogo “surgiu a percepção do caráter fragmentário presente na abordagem e narração de Deus hoje”. Contudo, Wilfred adverte que não é o objetivo chegar a uma ideia e narração abrangente de Deus. O que o diálogo inter-religioso verdadeiramente promove é uma provocação, uma busca constante com outras pessoas, por “caminhos novos e diferentes”. Chegaremos mais perto do mistério de Deus se o buscarmos junto de outras pessoas. “Em outras palavras, todas as religiões juntas conseguem dizer um pouco mais a respeito do mistério de Deus do que qualquer uma delas sozinha”, completa. Se por um lado a característica fragmentária da sociedade pós-metafísica pode colocar a fé em terreno arenoso, por outro, apresenta “fluidez e abertura” para a busca e narrativas de Deus: “A sociedade pós-metafísica contribuiu para desconstruir concepções e imagens rígidas de Deus e possibilitou uma abordagem mais dinâmica para sua narração”.

Felix Wilfred é professor no Departamento de Cristianismo da Universidade de Madras, em Chenai, na Índia. Escreve frequentemente artigos para prestigiosos jornais de âmbito nacional e internacional, entre os quais citamos Pro Mundi Vita (da Bélgica), Pro Dialogo (da Itália), Selecciones de Teología (da Espanha), Communio e Concilium (da Holanda). Também contribui com seus artigos para a New Catholic Encyclopedia, para Lexikon fuer Theologie und Kirche e para o Cambridge Dictionary of Theology.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o diálogo inter-religioso tem contribuído para narrar Deus hoje?

Felix Wilfred - O diálogo inter-religioso ampliou os horizontes da compreensão da busca por Deus. Em primeiro lugar, ele levou a um questionamento crítico, por parte das pessoas que creem, a respeito da concepção e compreensão convencional de Deus em suas próprias tradições religiosas. Evocou um desejo de vivenciar o mistério divino para além da própria tradição. A tentativa de participar da experiência de Deus de outra tradição religiosa também fez aflorar uma percepção da pluralidade. O diálogo inter-religioso levou seus participantes a se dar conta das inumeráveis formas pelas quais é possível aproximar-se do mistério de Deus. Surgiu a percepção do caráter fragmentário presente na abordagem e narração de Deus hoje. Não se pretende que o diálogo inter-religioso nos dê qualquer ideia e narração abrangente de Deus. Este não é o objetivo do diálogo inter-religioso. O que ele faz é nos provocar a buscar, junto com outras pessoas, caminhos novos e diferentes. Além disso, o diálogo inter-religioso ajudou a darmo-nos conta de que chegamos mais perto do mistério de Deus quando o buscamos junto com outras pessoas, do que quando o fazemos dentro de nossa própria tradição. Em outras palavras, todas as religiões juntas conseguem dizer um pouco mais a respeito do mistério de Deus do que qualquer uma delas sozinha. Para as pessoas que não estão familiarizadas com o diálogo inter-religioso, a narração de Deus poderia criar uma sensação de insegurança, pois cada religião projeta sua narração de Deus como um ponto de referência definitivo. Sair do lar religioso com o qual a pessoa está familiarizada poderia causar desorientação.

IHU On-Line - De que forma o advento da globalização influencia nas narrativas de Deus e no aprofundamento do diálogo inter-religioso? Quais são os limites e as possibilidades de se narrar Deus dentro desse contexto?

Felix Wilfred - A globalização ajudou a comunicação de crenças, símbolos e práticas religiosas entre tradições religiosas, e fez com que o encontro das religiões seja mais fácil. Ela também tornou disponíveis não só narrações de Deus em tradições religiosas clássicas, mas também em tradições religiosas marginais e populares. Além disso, a globalização, com sua ampla rede de comunicação, tornou possível que indivíduos de várias tradições religiosas compartilhem suas experiências e encontros pessoais com Deus. Ela ampliou o quadro de pessoas que buscam a Deus, tornando disponíveis as experiências de pessoas em diferentes estágios da vida e em diferentes partes do mundo.

IHU On-Line - Como o fato de vivermos em uma sociedade pós-metafísica influencia na crença em Deus?

Felix Wilfred - Nossa crença em Deus, na sociedade pós-metafísica, está se tornando rica por causa da fluidez e abertura que a sociedade pós-metafísica oferece para uma busca e narração nova de Deus. A sociedade pós-metafísica contribuiu para desconstruir concepções e imagens rígidas de Deus e possibilitou uma abordagem mais dinâmica para sua narração. Com efeito, diferentemente da tradição ocidental e semítica, a tradição indiana, especialmente a do budismo, sempre enfatizou a fluidez ou transitoriedade da realidade, em contraposição à sua solidificação num molde metafísico. Neste sentido, grande parte da tradição indiana é pós-metafísica há mais de 3 mil anos!

IHU On-Line - O antropocentrismo e o eurocentrismo seriam os principais entraves para que se estabeleça verdadeiramente um diálogo inter-religioso? Por quê?

Felix Wilfred - O antropocentrismo não precisa ser um obstáculo para Deus se os seres humanos podem se aproximar do mistério divino a partir de suas próprias experiências. É natural que os seres humanos usem imagens e símbolos que os refletem quando falam a respeito de Deus. Neste sentido, um dos filósofos gregos disse:

“Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões
E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens,
Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam
Tais quais eles próprios têm”.

(Xenófanes de Cólofon, Fragmentos)

Há espaço para o antropocentrismo, mas o importante é que se esteja consciente dessa limitação humana básica em qualquer linguagem humana que fale de Deus. É por isso que deveria haver um esforço consciente hoje em dia para narrar Deus a partir do relacionamento dos seres humanos com a natureza. De certa maneira, a natureza espelha a realidade última não menos do que os seres humanos o fazem. Por conseguinte, a linguagem humana precisa incorporar também a linguagem da natureza ao narrar Deus e a realidade última.

O eurocentrismo, infelizmente, restringe a abordagem de Deus à narração de Deus dentro da experiência ocidental limitada. Por exemplo, pessoa tem sido uma categoria central na conceitualização ocidental do Divino. Por outro lado, a tradição indiana e outras tradições orientais têm concepções de Deus que não estão centradas unicamente na pessoa. Elas terão de superar os limites dessa abordagem, adotando uma abordagem transpessoal na narração de Deus.

Quebra-cabeça de Deus

Os colecionadores de selos conseguem conversar uns com os outros de maneira extremamente entusiástica quando cada um compartilha o que tem com os outros e tenta se informar melhor sobre os selos colecionados pelos outros colegas. Esta é uma forma interessante de intercâmbio e é melhor compreendida pela tribo dos colecionadores de selos, e talvez não empolgue outras pessoas. Quando falamos de Deus em termos inter-religiosos, isso não deveria acabar sendo como o intercâmbio dos colecionadores de selos. As religiões não são colecionadoras de deuses. Isto me lembra Tales de Mileto, que disse: “O mundo está repleto de deuses!” Precisamos ir além e perguntar por que é necessário buscar a face de Deus em conjunto de forma inter-religiosa.
Não pode ser simplesmente para satisfazer nossa curiosidade intelectual, juntando as peças do quebra-cabeça de Deus com a ajuda de outras pessoas. Deus sempre maior – Deus sempre continua sendo mais e acima de todos os nossos esforços, tanto individuais quanto coletivos. Nossa busca comum do Divino iria adquirir sentido se a própria busca de um mistério, que está além de todos os nomes, guiar nosso relacionamento uns com os outros no mundo e com toda a natureza, que, como eu disse, é um espelho de Deus não menos revelatório, ainda que de forma obscurecida, do que os seres humanos.

Saiba mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Felix Wilfred à IHU On-Line

Jesus pertence ao conjunto da humanidade. Notícias do Dia 16-12-2007.

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