Narrativas de Deus são fragmentárias como era pós-metafísica

Ernildo Stein localiza origem do termo “era pós-metafísica” na crítica de Heidegger à metafísica e religião, apontado a mediação pelos filósofos franceses. Entretanto, a pós-modernidade não é consequência direta dessa era

Por: Márcia Junges

É inegável que a crítica de Martin Heidegger à metafísica é a fonte da qual brota a expressão “era pós-metafísica”, mediada em grande parte pelos filósofos franceses. A explicação é do filósofo Ernildo Stein em entrevista concedida, por e-mail, com exclusividade, à IHU On-Line. Contudo, matiza, “não podemos simplesmente dizer que a pós-modernidade seja uma consequência da era pós-metafísica. Ambas têm uma ligação de mútua determinação. Entretanto, gostaria de dizer que esta sociedade pós-metafísica da qual se fala estende-se a um campo muito mais amplo do que as possíveis influências heideggerianas”. Stein lembra, também, a fragmentação inerente à pós-modernidade, quando não há mais uma unidade nas ciências, religião e arte, “principalmente pela mudança de inserção da filosofia na cultura atual”. A respeito das narrativas de Deus, continua, “se procura apontar para essa fragmentação, tendo seus efeitos no universo da teologia, ou melhor, das diversas tradições em que Deus representa um tema central. Virá, num tempo não muito distante, como consequência dessa fragmentação e relativização, uma era em que irão predominar os discursos ateísticos sobre Deus por parte daqueles que Dele nada sabem”. A respeito da crítica de Heidegger à religião e à metafísica, tema que Stein abordará no minicurso Heidegger. Uma crítica à metafísica e à religião, talvez possamos compreender, de modo mais claro, a posição “crítica” do filósofo em “suas constantes referências a seu empenho de pensar o não pensado no pensamento, de dizer o não dito, e de ler o não escrito, entre as linhas do que estava nos textos dos filósofos”. A atividade faz parte da programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, que acontece de 14 a 17 de setembro, no campus da Unisinos.

Stein é graduado em Filosofia e Direito, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Cursou doutorado, na mesma universidade, em Filosofia, e pós-doutorado na Universität Erlangen - Nürnberg. Atualmente, é docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC-RS e membro do corpo editorial das publicações Reflexão, Problemata, Natureza Humana e Ágora. Publicou dezenas de livros, entre eles Seminário sobre a verdade: lições introdutórias para a leitura do parágrafo 44 de Ser e Tempo (Petrópolis: Vozes, 1993); A caminho de uma fundamentação pós-metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997), Diferença e metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000); Compreensão e finitude (Ijuí: Unijuí, 2001); Introdução ao pensamento de Martin Heidegger (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002); Mundo Vivido: Das vicissitudes e dos usos de um conceito da fenomenologia (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Seis estudos sobre Ser e Tempo (3. ed. Petrópolis: Vozes, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a principal crítica de Heidegger à metafísica e à religião? O que ela significa?

Ernildo Stein - Para iniciarmos a resposta a essa primeira questão, convém fazer uma observação esclarecedora. Talvez convenha chamar a atenção para o conceito de crítica. Entre os muitos sentidos que esta palavra pode ter, há alguns que são banais e que podem ser pressupostos como propriedade do senso comum. Na história da filosofia, existem muitos momentos em que o conceito de crítica foi utilizado. Talvez o mais lembrado seja o uso da palavra nas três Críticas de Kant.  É nele que é feito um uso particularmente amplo e central quando, além de uma revisão, a crítica significa uma fundamentação e uma justificação. É preferível partir de um uso semelhante ao que faz Kant quando se quer efetivamente levar a sério o conceito de crítica. Caso contrário qualquer crítica a um autor, a um modo de tratamento de uma questão na filosofia permanece exterior. Portanto, também na questão que vamos examinar não se trata de uma crítica exterior nem de uma recusa e muito menos de uma refutação. O que está em jogo é uma convocação para repensar algumas questões centrais da filosofia.

Desconstrução da metafísica

Heidegger deve ser visto como um dos grandes autores da filosofia do século XX. E, por isso, ele aprendeu, desde muito cedo, a levar a sério as questões centrais da filosofia, mas não se via obrigado a concordar com certos modos de resposta dados por autores ou escolas filosóficas. Nos anos trinta, o filósofo relativiza, em diversos momentos de sua obra, as próprias respostas que encontrava. Pode-se observar uma espécie de provisoriedade que ele mesmo atribuía a seu modo de perguntar. O filósofo não esperava corrigir de maneira definitiva os esforços de responder a questões centrais da tradição filosófica. Talvez possamos compreender mais claramente a sua posição “crítica” em suas constantes referências a seu empenho de pensar o não pensado no pensamento, de dizer o não dito, e de ler o não escrito, entre as linhas do que estava nos textos dos filósofos.

Portanto, a pergunta pela crítica à metafísica e à religião realizada por Heidegger deve ser recebida numa dimensão propriamente filosófica, que consiste em mostrar o que não se viu ou, então, o que se passou por alto nos debates da metafísica e da religião. Talvez a sua pretensão de usar um novo método para fazer filosofia através da fenomenologia o tenha conduzido na problematização das questões que aqui estão sendo analisadas. A fenomenologia justamente consiste em mostrar o que se oculta e num ver particular, em que tanto insistia Husserl.  É assim que Heidegger analisa a metafísica ocidental como um conjunto de respostas que foram apresentadas pelos grandes pensadores. É com eles mesmos que o filósofo aprende a conhecer os grandes problemas e ao mesmo tempo as respostas por eles encontradas.

Ao criticar a metafísica, o filósofo não se retira da fileira dos pensadores, mas realiza com eles um exercício de mergulho para um nível mais profundo. A metafísica não pensou propriamente aquilo que é considerado o seu objeto principal, a questão do ser, de um modo adequado, porque, na expressão do filósofo, ela confundiu o ser com o ente. Isso exigia de Heidegger, então, que ele apresentasse um novo conceito de ser desenvolvido a partir de sua fenomenologia, na interpretação das principais obras filosóficas do pensamento ocidental. É esse novo conceito de ser, o qual o filósofo irá ligar à compreensão do ser, que será a base da fenomenologia hermenêutica e vai conduzir à elaboração de Ser e tempo. É nesse livro mesmo que ele planeja uma “destruição” ou uma “desconstrução” das ontologias clássicas de Descartes, Kant e Aristóteles. Sem podermos ampliar nossa análise, diremos que sua obra foi mais ou menos a implementação desse projeto que permaneceu inconcluso em seu livro principal (dessa obra projetada em 102 volumes já foram publicados 80. Que diálogo com a metafísica ocidental!) É claro que essa desconstrução da metafísica exigia a revisão de conceitos importantes da filosofia da tradição como, além do conceito de ser, o conceito de tempo, existência, verdade, sujeito, objeto, substância, e muitas outras categorias centrais utilizadas pelos diversos grandes metafísicos.

Crítica à religião

Com relação à crítica da religião, o autor não pode ser incluído entre os grandes críticos das religiões, quer venham da filosofia, quer se situem em outros campos do conhecimento e da cultura. A religião sempre foi uma questão central para o filósofo. Isso não o impediu de mostrar em primeiro lugar como a religião cristã herdara da metafísica, no desenvolvimento de seus conceitos fundamentais, um modo de pensar que o filósofo criticava. Não podemos aceitar que o seu método fenomenológico seja propriamente adequado para as pretensões de sua desconstrução de questões centrais do cristianismo. No entanto, a fenomenologia lhe permitiu um outro olhar para a questão de Deus e do sagrado. Certamente, não iremos encontrar no filósofo um conjunto de conceitos filosóficos que satisfaçam as exigências de um pensamento que a teologia cristã procura para a sua inteligência dos mistérios da fé. Se o filósofo não consegue satisfazer esta expectativa - como, por exemplo, mostrou o Pe. Lima Vaz -,  ele, no entanto, despertou de um certo tipo de sono dogmático os teólogos e filósofos cristãos que se achavam muito seguros com os seus conceitos metafísicos. Poderíamos ainda acrescentar que talvez a crítica do filósofo à religião vise mais o modo como ela se insere na cultura ocidental, recebendo dela certos elementos que entram em colisão com a essência da religião.

IHU On-Line - Como essa crítica influencia nas narrativas de Deus na pós-modernidade?

Ernildo Stein - Da análise que fizemos até agora, já se pode concluir a importância dada ao pensamento de Heidegger por muitos filósofos e teólogos cristãos nas tentativas de repensar a teologia e o fenômeno religioso. Existem mesmo correntes muito ativas no pensamento teológico atual que conseguiram produzir obras notáveis. Lembro particularmente toda a grande tradição dos filósofos jesuítas da Alemanha e, sobretudo, de dois teólogos, Karl Rahner  e Hans Urs von Balthasar.  Aliás, tenho em mão uma carta manuscrita de Heidegger a um particular amigo meu, antigo professor de Erlangen, Hermann Zeltner, em que o filósofo pede que os que queiram saber de sua vida acadêmica no começo do nazismo se dirijam a Karl Rahner, que fora seu aluno por vários semestres. Lembro essa carta inédita apenas de passagem, para se compreender o quanto o filósofo estava ligado a teólogos. Um dia ainda saberemos das longas conversas de Max Müller,  junto com L.B. Puntel,  na Hütte do filósofo, sobre problemas centrais nascidos da ligação entre o pensamento de Heidegger e a religião. No último congresso internacional das universidades católicas, em Manila, o professor Puntel foi um dos principais conferencistas convidados para mostrar os grandes conflitos suscitados por um certo tipo de interpretação de Heidegger no que se refere ao problema de Deus e da transcendência, em dois filósofos franceses, Emanuel Lévinas  e Jean-Luc Marion. Também o Pe. Vaz enumera, num de seus últimos artigos, umas cinco correntes teológicas mundiais que representariam equívocos importantes no modo de receber Heidegger na teologia. Entro nesses detalhes para que se veja como é viva a presença de Heidegger na teologia.

IHU On-Line - A pós-modernidade tem um parentesco com a sociedade pós-metafísica? Por quê?

Ernildo Stein - Foi Habermas, em seu livro, O discurso filosófico da modernidade, que melhor situou os principais filósofos da pós-modernidade, sobretudo os neo-estruturalistas franceses, analisando também Heidegger como um filósofo pós-moderno. Não há como negar que a crítica do filósofo à metafísica é a fonte de onde nasceu a expressão “era pós-metafísica”, naturalmente mediada, em grande parte, pelos filósofos franceses. Não podemos simplesmente dizer que a pós-modernidade seja uma consequência da era pós-metafísica. Ambas têm uma ligação de mútua determinação. Entretanto, gostaria de dizer que esta sociedade pós-metafísica da qual se fala, estende-se a um campo muito mais amplo do que as possíveis influências heideggerianas. Não é aqui o momento de aprofundarmos a análise dessa profusão de fenômenos que ligam sociedade pós-moderna e sociedade pós-metafísica. Para isso, temos os vários campos das ciências sociais e da cultura. Em todo caso, convém lembrar que a pós-modernidade representa uma era de fragmentação, em que perdem sua unidade as ciências, a religião e a arte, principalmente pela mudança de inserção da filosofia na cultura atual. Quando se fala em “narrativas de Deus”, por exemplo, se procura apontar para essa fragmentação, tendo seus efeitos no universo da teologia, ou melhor, das diversas tradições em que Deus representa um tema central. Virá, num tempo não muito distante, como consequência dessa fragmentação e relativização, uma era em que irão predominar os discursos ateísticos sobre Deus por parte daqueles que Dele nada sabem. Digo isso com um certo tom de ironia, porque da diluição do pensamento num tipo de pós-modernidade mal compreendida, surgirão cada vez mais os defensores das mais paradoxais formas de falar de tudo o que representava um mundo orientado por uma certa estabilidade e confiabilidade. Isso para não falarmos da questão da verdade.

IHU On-Line - Que consequências filosóficas e religiosas surgiriam a partir dessa transmutação?

Ernildo Stein - Estamos certamente diante de fenômenos mundiais de transformação que nos lembram a frase de Marx  “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Mas não devemos desesperar, porque tanto a filosofia quanto a religião sempre representaram, em momentos de grandes crises e mutações, universos de referência e de orientação. Diante das duas matrizes de inteligibilidade, a natureza e a cultura, em aparente colapso, a humanidade irá encontrar novas formas de manter a sua memória. Por mais que sejamos confundidos pelas transformações - no universo da natureza, pela revolução genética, e na cultura, pelas inovações do mundo virtual -, a humanidade irá encontrar uma referência ética para responder à pergunta de “como iremos viver” e “qual é o sentido da vida?” No que se refere às mudanças no mundo da religião, estamos certamente confrontados por uma busca insistente de um ecumenismo, mas, por outro lado, perplexos com relação ao que deve ser considerado verdadeiro na religião. Não é por menos que Bento XVI tem enfrentado um debate internacional sobre sua defesa de “uma religião verdadeira”.

IHU On-Line - No contexto dessa crítica de Heidegger, como podemos compreender sua afirmação “Chegamos muito tarde para os deuses e muito cedo para o ser cujo poema apenas iniciado é o homem?”

Ernildo Stein - A frase de Heidegger pode ser brevemente desdobrada da seguinte forma: “Chegamos muito tarde para os deuses” talvez signifique primeiramente que deveríamos ter aprendido há muito tempo que nessa questão não se trata de julgar os povos pelos deuses que veneram, pois, segundo Heidegger, “cada deus é o último deus”. Pelos textos que conhecemos, o filósofo diz que “o último deus é sempre o Deus em advento”. Talvez com isto ele queira dizer que não se decide o problema de Deus como uma partida de xadrez. “Muito cedo para o ser” quer certamente significar que ainda não meditamos de maneira serena sobre o enigma da existência, que está expresso na pergunta pelo ser. O homem como poema apenas iniciado do ser pode ser compreendido como sendo o lugar em que se decide “o destino do ser”.

IHU On-Line - Em que sentido a discussão metafísica promovida por este filósofo é uma “espécie de convite para o ecumenismo filosófico”?

Ernildo Stein - Quando criei a expressão “ecumenismo filosófico”, queria descrever um convite para que se reconheça a pluralidade do pensamento filosófico numa era de dispersão. Mas espero que, ao mesmo tempo, se continue perguntando, com a esperança de que o ser humano não pergunte em vão pelo sentido da vida.

Saiba mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Ernildo Stein à IHU On-Line

- A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. IHU On-Line número 185, de 19-06-2006; 

- Depois de Hegel: “o mais original diálogo entre Filosofia analítica e dialética”. IHU On-Line número 261, de 08-06-2008; 

- O abismo entre a ética da psicanálise e o discurso ético universal. IHU On-Line número 303, de 10-08-2009.

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