Globalização, tecnologias digitais e os questionamentos éticos

A tecnologia digital pode e deve ser usada para transmitir serviços e conceitos de cidadania.

Por: Sergio Mattos

Por Sergio Mattos*

O intenso processo de globalização, no qual todos os países e suas estruturas internas, inclusive as de comunicação, estão envolvidos, começa a refletir mudanças e novos desafios devido às tendências já constatadas da globalização versus regionalização. O termo globalização, em si, sugere que as atividades políticas, econômicas e sociais estão se transformando em escala mundial, como fenômeno universal que atinge, ao mesmo tempo e por igual, todos os cantos do planeta.

Anthony Giddens  define globalização como sendo a intensificação das relações sociais, mundiais que ligam localidades distantes, de tal modo que acontecimentos locais podem ser influenciados por eventos que estão ocorrendo a centenas de quilômetros de distância e vice-versa. Dessa forma, a globalização está relacionada também com a interseção de presença e ausência, o entrelaçamento dos eventos sociais e relações sociais à distância com contextualidades locais. Segundo as interpretações de Gabriel Bar-Haim, a mídia parece sugerir a existência de uma cultura global que não se constitui numa entidade em si mesma, mas é um conglomerado de eventos culturais internacionais que refletem a multiplicidade de todas as sociedades, cujas diferenças culturais podem ser minimizadas, mas suficientemente caracterizadas para serem percebidas como exóticas.

É inegável que o acesso a informações por meio da mídia pode influenciar no nosso modo de viver. A globalização é avassaladora e pode provocar padronização cultural. Trata-se de uma realidade diante da qual precisamos tomar uma atitude, uma vez que ela tem eliminado diferenças entre produtos, cuja diferenciação passou a ser a ética da massa, ou seja, a imagem institucional da empresa. Por isso os efeitos imediatos da globalização são considerados predatórios. Ao mesmo tempo, entretanto, o processo da globalização pode levar a países e pessoas benefícios ainda não totalmente dimensionados, como o acesso a milhares de informações e de produtos das regiões mais distantes do planeta.

Nos últimos onze anos o cenário das comunicações sofreu significativa mudança estrutural devido ao desenvolvimento tecnológico que contribuiu para o surgimento de um ambiente de convergência midiática e para a produção de conteúdos multimídia. Isso foi possível graças ao desenvolvimento da internet e da digitalização dos conteúdos de áudio, vídeo e texto. Por meio da internet pode-se transportar, armazenar e redistribuir produtos audiovisuais, dados e voz (Voip – voz sobre protocolo de internet). A convergência permitiu uma mudança na relação entre as redes de produtores e transmissores de conteúdos com os prestadores de serviços. Antes, uma rede atuava como suporte para a prestação de um único serviço. Agora, com o avanço da tecnologia, constata-se a tendência de uma mesma rede oferecer mais de um serviço.

Alicerçada em alto nível de qualidade técnica que lhe permite competir no mercado internacional, exportando seus programas para dezenas de países, participando assim das novas tendências de um mercado cada vez mais globalizado, a televisão brasileira começou este milênio em plena maturidade. Em contrapartida, as novas perspectivas mundiais que lhe são impostas levam a televisão também a enfrentar e se adaptar a esta nova etapa, na qual a própria tecnologia que tanto ajudou no seu desenvolvimento passou a competir com ela mesma, devido ao avanço da informática, da internet, da televisão paga, da tecnologia digital e das novas aspirações e conceitos que impulsionam a humanidade neste milênio.

O avanço das novas tecnologias digitais permite o desenvolvimento de novos instrumentos de comunicação, mas ao mesmo tempo em cria uma série de questionamentos de ordem ética, além de contribuir para transformar o homem num ser cada vez mais individualista. Outro aspecto a se considerar é que as novas tecnologias digitais podem facilitar ainda mais o processo da globalização da cultura e da política, contribuindo diretamente para a construção de um “pensamento único”. Diante dessa perspectiva surgem perguntas básicas com as quais devemos nos preocupar:

1)    Como as tecnologias digitais podem trabalhar em favor da interatividade, viabilizando uma comunicação mais democrática?
2)    Como minimizar ou superar o processo de exclusão digital?
3)    Qual é o tipo de inclusão digital que desejamos para o país?

Respostas a estas perguntas devem ser dadas, num futuro próximo, pelos estudos e debates que já estão sendo realizados por acadêmicos, grupos de estudo dos ministérios e organizações não governamentais preocupados com a inclusão social e digital.

A tecnologia digital pode e deve ser usada para transmitir serviços e conceitos de cidadania, além de abrir perspectivas para o aumento e veiculação da produção televisiva independente. Com a interatividade permitida pela tecnologia, grupos comunitários de cultura poderão facilmente se transformar em produtores de conteúdo, fortalecendo a diversidade cultural.
Espera-se que a tecnologia digital aumente a democratização dos canais comunitários (de rádio e TV) e que eles possam atingir a massa da população, cumprindo com sua função de prestar informações e cultura e contribuindo para transformar os usuários em produtores de conteúdos. Isso porque, com a tecnologia digital, o usuário deixa de ser um telespectador passivo e passa a ser um sujeito ativo. A tendência, portanto, é que o cidadão deixe de ser apenas um receptor e consumidor da programação televisiva e se transforme também em um produtor de conteúdo e transmissor de ideias.

* Sérgio Mattos é jornalista diplomado, mestre e doutor em Comunicação pela Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, e professor adjunto da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB. É autor de vários livros de comunicação dentre os quais se destacam: História da Televisão Brasileira: uma visão econômica, social e política (Vozes, 5. ed. 2010); O guerreiro midiático – Biografia de José Marques de Melo (Vozes/Intercom, 2010); Mídia controlada: a história da censura no Brasil e no mundo (Paulus, 2005), e O contexto midiático (IGHB, 2009) entre outros. Participa e contribui regularmente das atividades do Grupo Cepos. E-mail: .

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