Edição 378 | 31 Outubro 2011

O corpo: um “santuário” em relação com o outro

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Márcia Junges

Dotado de intencionalidade encarnada, o corpo abriga o pensamento de forma emaranhada. Vivemos o presente banhados no passado e lançados no futuro, num vir a ser constante, de forma relacional com a alteridade, aponta Maria Alice de Castro Rocha

Contrapondo-se ao dualismo cartesiano que cinde corpo e mente, Merleau-Ponty demonstra “que o pensamento se dá emaranhado no corpo”. A ponderação é da psicopedagoga Maria Alice de Castro Rocha, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Esse pensador francês “traz o corpo como um ponto fundamental de apreensão do mundo, ponto que muitas vezes descuidamos na filosofia, ou mesmo na educação”, completa. Mas não se trata do mesmo enfoque dado ao corpo atualmente, focado no cumprimento de padrões estéticos. O que está em questão é “um corpo dotado de uma intencionalidade encarnada”. E completa: “Filosoficamente, Merleau-Ponty aponta para o corpo como um santuário dotado de ossos, sangue, órgãos, células, que precisa destes para agir, mas que são subsumidos por uma ordem humana, que é formada na relação com o outro, sobretudo com a cultura”.

Docente nas Faculdades Integradas Rio Branco, em São Paulo, Maria Alice de Castro Rocha é especialista em Psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae – Sedes, é mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo – USP com a tese Um estudo sobre a percepção: Merleau-Ponty e Piaget. Leciona nas Faculdades Integradas Rio Branco, em São Paulo, na Faculdade de Pedagogia.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Quais as maiores razões que fazem de Merleau-Ponty um filósofo atual?

Maria Alice de Castro Rocha – Merleau-Ponty mostra-se ainda extremamente significativo e cada vez que o relemos parece que desvelamos novos aspectos no que se refere à percepção e à estrutura do comportamento. Ele traz o corpo como um ponto fundamental de apreensão do mundo, ponto que muitas vezes descuidamos na filosofia, ou mesmo na educação.

Ele vem se contrapor ao pensamento de Descartes que separa corpo e mente, procurando mostrar que o pensamento se dá emaranhado no corpo. Um corpo dotado de condições físicas, anatômicas, fisiológicas, biológicas que permitem ao ser interagir com o mundo e ir se constituindo. Vem destacar que sou o meu corpo, um corpo que sente e expressa emoções, sentimentos, dor, alegria, tristeza...

Hoje o corpo é muito cultuado, mas no sentido de exposição e de preenchimento de requisitos para padrões de beleza. Esquece-se, porém, do corpo de que fala Merleau-Ponty. Um corpo dotado de uma intencionalidade encarnada. Corpo que se constitui, sobretudo na troca com o outro, em que os significados de suas ações estão entranhados neste, nos movimentos, nos pensamentos. Por exemplo, pegar um lápis pode ter vários sentidos para o corpo, para o ser: porque alguém me pediu (mostro um movimento de gentileza ou obrigação); por uma ânsia de escrever algo importante; por uma obrigação desagradável de cumprir uma tarefa dada na escola. Todos os movimentos são dotados de significações ligadas a todo o funcionamento corporal.

Isto é, Merleau-Ponty, embasando-se em Husserl, vem destacar a questão da intencionalidade como uma “consciência de”, um movimento que se dirige ao mundo e o capta. Não há uma ação unilateral dos objetos sobre a mente, como na visão empirista, mas também não há uma visão intelectualista de julgamento acima do meio. A intencionalidade fenomenológica não se refere a uma decisão intelectualista a priori, mas a um direcionamento pré-reflexivo que me impulsiona ao mundo e permite captá-lo, em movimentos contínuos.

Merleau-Ponty, em A estrutura do comportamento (São Paulo: Martins Fontes, 2006) e na Fenomenologia da percepção (São Paulo: Martins Fontes, 1999), estuda este corpo em “direção à” pormenorizadamente. Ele se debruça sobre a neurologia de sua época e começa por meio da análise de lesões cerebrais a mostrar um cérebro que possui especificidades e que, ao mesmo tempo, funciona em rede onde determinadas lesões precisam ser compreendidas à luz do sentido da ação. Uma lesão pode trazer danos não necessariamente a movimentos ou sensações específicas, mas para a expressão de determinados sentidos na relação da pessoa com aquilo que lida. Merleau-Ponty dá o exemplo de um indivíduo cuja lesão tirou-lhe a capacidade de agir com parcimônia, mas não lhe impediu de pensar racionalmente sobre as decisões morais.

 

O corpo como santuário

Isso pode permitir um avanço na compreensão da relação do homem com o mundo. Vemos hoje esse assunto sendo estudado por autores significativos da neurologia, como Antônio Damásio[3]. Em seu livro O erro de Descartes - emoção, razão e o cérebro humano (São Paulo: Companhia das Letras, 1996) há uma análise de casos que nos faz lembrar interpretações de Merleau-Ponty. A obra mostra como as lesões alteram as formas de ação do sujeito, mesmo quando o raciocínio se mostra intacto.

Filosoficamente, Merleau-Ponty aponta para o corpo como um santuário dotado de ossos, sangue, órgãos, células, que precisa destes para agir, mas que são subsumidos por uma ordem humana, que é formada na relação com o outro, sobretudo com a cultura. Em sua visão, não podemos ver ora o homem como uma mente que pensa, ou como um corpo que obedece. Com este o ser vai percebendo o mundo e se constituindo, formando uma identidade em meio ao outro.

Outro fator importantíssimo para a atualidade é seu apontar para uma percepção que se dá em situação, frente à história, em meio à cultura e, sobretudo por meio do corpo que se movimenta, que sente, amor, ódio, respeito, atração. Não há percepção acabada, fechada, mas é sempre um processo que se dá em meio a horizontes. Isso é dependente dos limites e condições que se oferecem em um dado momento. Do ponto de vista que olho para um objeto, por exemplo, da luz que incide sobre ele. Vemos sempre partes dos objetos e o pressentimos como um todo por uma operação intencional.

A percepção está sempre ligada aos horizontes que se apresentam; estes dependem tanto das possibilidades dos objetos de se mostrarem para nós. Merleau-Ponty, por exemplo, destaca que podemos expressar uma cor para um cego, pela sensação que pode provocar por meio de uma música. Mas isso também é banhado nas nossas vivências culturais e dos significados que vamos atribuindo. Cada ser é único, capaz de ter uma identidade, mas por intermédio do outro. A linguagem é aqui fundamental porque não só nos permite a comunicação, mas também, para o filósofo, abre ao próprio conhecimento do mundo. Diz que uma criança apreende o que é cadeira, por exemplo, não por uma comparação entre objetos, mas que encontra a semelhança pela palavra.

Corpo, cultura, palavra, o outro abrem-me para percepções diversas. Pelo grupo que vivo, pela língua que falo sou capaz de olhar para as coisas de uma dada maneira. Sou capaz de me iludir, por meio delas, mas também de me “desiludir”, isto é, chegar mais próximo do fenômeno. Hoje vemos uma troca muito grande entre os povos, entre as pessoas, mas muitas vezes com visões distorcidas que dão destaque a determinados pontos, causando intolerância. É necessário aprendermos com Merleau-Ponty a procurar ver as coisas por pontos diversos. Para isso precisamos saber olhar por ângulos diferentes, refletir sobre eles, mover nossos olhares para outros pontos diversos, procurando por novas apreensões. O perceber é algo que não se esgota e se elucida também pelo olhar do outro.

Merleau-Ponty mostra-se atual para que possamos refletir sobre vários pontos das relações do homem com o mundo. Ele traz para as artes muitas contribuições refletindo sobre a relação entre percepção e expressão. Conjuntamente com Husserl, ele é imprescindível, a nosso ver, para a pesquisa qualitativa, evitando distorções na percepção e sabendo considerar a subjetividade como estando sempre presente na apreensão do objetivo.

 

IHU On-Line – Qual a relevância de Merleau-Ponty especificamente para a Educação?

Maria Alice de Castro Rocha – Primeiramente, pode-se destacar a importância de se considerar o homem como um ser em situação que vive em um espaço, em um tempo, dotado de uma linguagem e de uma cultura que na sua correlação com o outro e com o mundo vai atribuindo significados às coisas.

É importante se considerar que o homem não sofre influências causais que irão determinar seu comportamento, mas que há uma operacionalidade que permite o entrelaçamento do espaço e tempo vivido pelo indivíduo e os significados que ele atribui a isso. Hoje, é muito comum que se busquem causas lineares ou culpados para dificuldades escolares de cada criança. Um pai ausente, uma família desestruturada, ou mesmo uma doença. Não que tais aspectos não sejam importantes, mas não podem ser generalizados pontualmente. O ser humano é mais rico do que isso, como nos mostra Merleau-Ponty.

Cada aluno precisa ser compreendido na sua relação com o outro, com o aprendizado, de uma forma ampla, em que se dê espaço para cada ser se expressar. Merleau-Ponty nos fala que uma criança ao nascer modifica seu lar. A educação precisa dar espaço para que cada sujeito amplie seus conhecimentos, possa olhar as coisas sobre outros ângulos, mas também para que se manifeste, expresse seu caminhar, troque ideias com os outros, de forma que as pessoas não sejam encurraladas em horizontes pobres, ou então sejam obrigadas a ver por meio de binóculos deformantes do professor.

 

Outros olhares

Aprender a olhar o aluno, buscar sempre se despir de ideias pré-concebidas; procurar trazê-lo para a construção do conhecimento; procurar fazer com que ele saiba escolher, ter uma percepção mais apurada, são elementos fundamentais nos dias de hoje. Em Merleau-Ponty a linguagem é um ponto fundamental para a percepção. Aqui podemos nos lembrar de Paulo Freire[4] ao trabalhar por meio do diálogo, do dar possibilidades ao aluno para ter outro olhar sobre o mundo, o que Merleau-Ponty poderia dizer a outros olhares. A linguagem também tem o poder de direcionar nosso olhar, como coloca Merleau-Ponty. Para ele, como vimos, a criança aprende a dar nome às coisas não por encontrar semelhanças entre elas, mas por procurar semelhanças diante de um nome.

Dessa forma, a educação é fundamental no processo de alfabetização, que permita uma leitura crítica, significativa, e que favoreça o desenvolvimento de competências e o uso de diversas linguagens e análises de pontos de vista diferentes.

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