Edição 378 | 31 Outubro 2011

O olhar criador a partir de Merleau-Ponty

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Conceitos do filósofo francês inspiraram o trabalho da artista plástica Carmen Sylvia Guimarães Aranha, que afirma que a pintura sempre celebra o enigma da visibilidade

“Para nos aproximar do olhar que tece o conhecimento criador e objetivando trazê-lo à luz no seu sistema de correlações, apropriei-me de alguns conceitos refletidos por Merleau-Ponty nas suas discussões sobre conhecimento estético. Essa apropriação ofereceu instrumentais reflexivos para a escolha de artistas e obras que podem nos dar a visualidade procurada para os fenômenos interrogados na compreensão e interpretação do olhar criador”. A declaração é da artista plástica Carmen Sylvia Guimarães Aranha, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. E completa: “Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por um certo impacto do mundo e que o restitui ao visível pelos traços da mão. Seja qual for a civilização em que nasça, sejam quais forem as crenças, os motivos, os pensamentos, as cerimônias de que se cerquem e, mesmo quando parece fadada a outra coisa, desde Lascaux até hoje, pura ou impura, figurativa ou não, a pintura jamais celebra outro enigma a não ser o da visibilidade”.

Graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, Carmen é mestre e doutora em Educação, respectivamente, pela Universidade de Boston, Estados Unidos, e pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP com a tese A arte visual na sala de aula. É livre-docente pela Universidade de São Paulo – USP, onde é professora do Museu de Arte Contemporânea. É autor de Exercícios do olhar. Conhecimento e visualidade (São Paulo/Rio de Janeiro: Editora Unesp/Funarte, 2008).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Em que consiste uma fenomenologia do conhecimento visual?

Carmen S. G. Aranha – Consiste numa compreensão dos sentidos da criatividade artística. Quando o indivíduo é criativo? Como deflagrar a criatividade no ser humano? Como situar esse fenômeno do espírito humano? Nessas perguntas reside em parte uma resposta na qual a fenomenologia permitirá a aproximação.

Ao trabalhar com estudantes de artes plásticas durante doze anos, percebi que a liberdade criadora emergia, inúmeras vezes, da inspiração. Na sua ausência, os alunos apresentavam certa dificuldade no desenvolvimento de trabalhos que projetassem interrogações próprias e, por decorrência, produzissem pesquisas artísticas genuínas. E então, como deflagrá-la na sala de aula? Compreendi, pouco a pouco, que o exercício fundamental seria encontrar relações no tecido da cultura. Verificamos também que o olhar, síntese da cultura, poderia tornar visível essa etérea linha decisiva. O exercício fundamental seria o exercício do olhar e a criatividade plástica seria somente uma das maneiras de codificar a cultura, no caso em questão em materialidades próprias das artes visuais. Assim, minha investigação dirigiu-se às relações que o olhar podia criar com os objetos artísticos, ou melhor às relações visuais de fenômenos estéticos, reveladas pelas obras de arte.

Para nos aproximar do olhar que tece o conhecimento criador e objetivando trazê-lo à luz no seu sistema de correlações, apropriei-me de alguns conceitos refletidos por Merleau-Ponty nas suas discussões sobre conhecimento estético. Essa apropriação ofereceu instrumentais reflexivos para a escolha de artistas e obras que podem nos dar a visualidade procurada para os fenômenos interrogados na compreensão e interpretação do olhar criador.

 

IHU On-Line – Qual é a influência de Merleau-Ponty nessa concepção especificamente?

Carmen S. G. Aranha – Talvez, possamos, ao definir o olhar criador, compreender as influências pontyanas nesse tipo de pesquisa. Por exemplo, sabemos que a visão de algo nem sempre estrutura um conhecimento visual de mundo. Assim, buscamos em Merleau-Ponty alguns aspectos reflexivos que pudessem nos ajudar na aproximação desse fenômeno. Em primeiro lugar, o filósofo reflete sobre o olhar o mundo afirmando que é preciso fundar esse olhar em um pensar, ou seja, aliá-lo a um pensamento que “desmancha o tecido da tradição da razão, puxando seus fios com argumentos sobre não coincidências e irrazões”.

Tentando compreender essas colocações, pensamos então em um olhar que fizesse correlações visuais no mundo e, ao mesmo tempo, se intencionasse longe das observações absolutas: um olhar que interpretasse esse mundo sem distanciamentos entre seus sujeitos e objetos, sem modelos pré-dados e, acima de tudo, longe de interpretações inadequadas à descrição do conhecimento visual de mundo. Outro aspecto da organização de um olhar livre para criar é que esse não se oferece com uma clareza imediata, nem é reconhecido diretamente na obra artística. Na construção da linguagem criadora, num primeiro momento, só temos indícios de fenômenos estéticos percebidos no mundo, de forma que o ato de olhar deve ser um ato de construção motivador: “como numa tapeçaria, numa renda, num quadro ou numa fuga, nos quais o motivo puxa, separa, une, enlaça e cruza os fios, traços e sons, configura um desenho ou tema a cuja volta se distribuem os outros fios, traços ou sons, e orienta o trabalho do artesão e do artista”.

Situada por Merleau-Ponty, a origem criadora é uma “racionalidade alargada: não o que é razão, mas aquilo que é antes da razão”. Quando o filósofo fala em um olhar que é pensamento, está referindo-se a um olhar junto a “um pensar não como a posse da ideia, mas como a circunscrição de um campo de pensamento”. Isso quer dizer que, nessa construção, os movimentos da criação visual pairam na matéria como estruturas do olhar-pensar em exercício.

 

IHU On-Line – Quais são as grandes proposições desse autor para o diálogo entre filosofia, arte e educação?

Carmen S. G. Aranha – É uma questão que envolve um poder de síntese que teríamos que ter mais tempo para construí-lo, mesmo porque Merleau-Ponty cria um sistema filosófico em relação à arte, à linguagem, à política, e, ao refletir sobre esses aspectos, entrelaçá-os com a movimentação filosófica do seu pensamento. Ao adentrarmos a dimensão, percebemos uma visão de mundo, um modo de estar aqui. Não poderia realizar essa tarefa neste espaço. Entretanto, parece-nos que alguns instrumentais da filosofia fenomenológica na construção da aproximação do fenômeno criatividade e visualidade podem ser pontuados.

Cito a seguir três aspectos esclarecedores tanto para o estudante de arte como para o professor da área e até mesmo para o artista plástico.

 

O corpo reflexivo

Os conceitos existem através das experiências que temos deles. Uma experiência significativa aloja-se no ser como um acontecimento, diz Merleau-Ponty.

“Um corpo humano aí está quando entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento, quando se acende a faísca do sensciente-sensível, quando se inflama o que não cessará de queimar, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado para fazer”.

Esse acidente se dá no “corpo-reflexivo” e constituirá o lugar que aloja motivações vividas e refletidas no discurso da consciência, ou seja, essas movimentações formam um solo sensível como um panorama de percepções que, no caso da apreensão estético-visual, são cifradas em visualidades. Merleau-Ponty situa o conhecer fenomenológico na movimentação do corpo-reflexivo, operante, habitado por uma consciência com janelas para o mundo, os olhos: “Meu olhar se move, meu corpo se move, me aproximo do mundo por essas movimentações e vejo que o movimento é parte da visão”. Nessa movimentação, “o vidente vai se abrindo para o visível”. Mas, ao mesmo tempo, “o ser é vidente e visível, olha para todas as coisas e seres e é olhado. Nessa troca, acaba se reconhecendo no que está vendo, como se as coisas pudessem despertar-lhe em um eco de visualidades”. O que é olhado transforma-se em um desenho no ser e todas as qualidades das coisas do mundo passam a reverberar no indivíduo que se expressa com a arte, olha o mundo e vê o que lhe falta para ser obra. O fazer artístico criador busca o olhar com um pensar que recorta o mundo. Isso deflagrado, a linguagem nos permite interceptar a criatividade na obra.

 

Aproximação do fenômeno

A noção de percepção fenomenológica oferece os movimentos da consciência no corpo reflexivo que possibilita correlações entre os fenômenos visuais apreendidos nas coisas do mundo: as luzes modificam formas, a linha modifica sua primitiva direção, os materiais oferecem outras materialidades. Essas correlações de fenômenos situam, por exemplo, a ideia de que “um gesto difere de uma soma de movimentos”.

O fenômeno da vida aparece no momento em que a extensão de um corpo, pela disposição de seus movimentos e pela alusão que cada um faz a todos os outros, volta-se sobre si mesmo e começa a expressar alguma coisa, a manifestar um interior sendo exteriorizado.

Podemos dizer que o sentido apreendido é um fenômeno desvelado pelo ser que se dirige às relações entre os diversos movimentos do corpo ou mesmo ao intervalo das positividades do mundo. De acordo com Merleau-Ponty, a ideia refere-se à consciência que projeta um novo meio em direção ao mundo e, assim, passa a ser integrada à dialética das ações e reações.

“Enquanto que um sistema físico se equilibra em relação às forças dadas pelo meio e um organismo animal constrói um meio estável para si mesmo correspondendo às necessidades e instintos, o trabalho humano inaugura uma terceira dialética que projeta objetos de uso - roupas, mesas, jardins - e objetos culturais - livros, instrumentos musicais, língua -, que constituem o próprio meio do homem e trazem novos ciclos de comportamentos: situação percebida-trabalho, diferentemente de comportamentos relativos ao par situação vital/reação instintiva.

No momento em que forças físicas chegam ao corpo, em vez de passarem através dele e liberarem respostas automáticas, são acompanhadas por uma consciência de si mesmas que as dissipa num centro de indeterminação que torna o ser capaz de ação própria. A zona dessas possíveis ações será marcada em detalhe pela percepção. Entretanto, a compreensão da dimensão da percepção fenomenológica ainda demanda uma reformulação da noção de consciência.

 

Cogito fenomenológico

Merleau-Ponty, ao final da Fenomenologia da percepção, diz que “sua vida, constantemente, se dirigiu às coisas transcendentais: os objetos do mundo tornam-se transcendentais à medida que se oferecem para ser compreendidos e interpretados em seus sentidos e em suas correlações. Mas, mesmo assim, ao situar os objetos em relações significativas, muitas vezes, fazemos afirmativas vagas sobre sua existência”.

O filósofo evoca, então, o cogito cartesiano em contraponto ao cogito fenomenológico afirmando que, ao estruturar o conhecimento humano, o primeiro provoca uma divisão entre percepção e razão porque descarta, diferentemente do último, a experiência-vivida pelo ser como gênese de um conhecimento que, ao mesmo tempo, é contato com a coisa, é consciência e é construção do imaginário.

Razão e percepção precisam necessariamente serem tomadas simultaneamente e serem apresentadas uma a outra sem nenhuma distância intermediária, numa intenção indivisível. Todo pensamento de alguma coisa é, ao mesmo tempo, consciência de si mesmo; isso falhando não se pode ter objeto. A experiência humana não é uma coleção de eventos psicológicos dos quais o “eu” é meramente um nome ou uma causa hipotética. “A experiência humana deve ao evento”.

Na raiz de todas as nossas experiências e reflexões encontramos, então, um ser que imediatamente se reconhece, porque é o conhecimento de si mesmo e de todas as coisas que possibilita conhecer sua própria existência, não pela observação de um fato dado, nem pela interferência de alguma ideia de si mesmo, mas pelo contato direto com o mundo.

Consciência de si é a própria essência da mente em ação. O ato pelo qual me torno consciente de alguma coisa precisa ser apreendido no próprio momento no qual está sendo realizado; de outro modo, sofreria um colapso.

Em síntese, a percepção é um ato do conhecimento que se origina com os sentidos apreendidos na experiência vivida pelo sujeito com os objetos de uso criados pelo homem. O campo perceptivo é composto por correlações, e essa compreensão, de acordo com Merleau-Ponty, é própria do pintor. Sendo seu mundo de visualidades, a experiência fica gravada como cifras do visível.

Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por um certo impacto do mundo e que o restitui ao visível pelos traços da mão. Seja qual for a civilização em que nasça, sejam quais forem as crenças, os motivos, os pensamentos, as cerimônias de que se cerquem e, mesmo quando parece fadada a outra coisa, desde Lascaux[1] até hoje, pura ou impura, figurativa ou não, a pintura jamais celebra outro enigma a não ser o da visibilidade.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição