Edição 378 | 31 Outubro 2011

“O homem no cerne do acontecimento vivo”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

A partir da fenomenologia de Merleau-Ponty, o ser humano rompe com a inexperiência do mundo das “verdades prontas” e da “bidimensionalidade aprisionadora” para desvelar a profundidade, acentua Vitória Espósito

Para Vitória Espósito, a “atualidade do pensamento de Merleau-Ponty está em trazer elementos para a discussão e vivência de questões atuais do mundo contemporâneo, colocando-nos no cerne do acontecimento vivo. De estarmos sempre sendo com o outro na facticidade do mundo, de nosso corpo próprio e assim conscientes do caráter desse inacabamento, de nos vermos em nossa incompletude, seres históricos, enredados numa dialética sempre inacabada (homem/mundo)”. Passamos, então, a nos vermos frente ao abismo, mistério e lugar do sagrado. E completa: “com Merleau-Ponty apreendemos que a gênese dos atos de conhecimento se faz a partir do ‘corpo próprio’, rompendo a dicotomia homem/mundo”.

 

Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, Vitória Espósito é mestre e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP com a tese A escola. Os processos institucionais e os universos simbólicos. Professora da PUC-SP, escreveu, entre outros, A escola. Um enfoque fenomenológico (São Paulo: Escuta, 1993) e Construindo o conhecimento da criança/adulto. Uma perspectiva interdisciplinar? (São Paulo: Martinari, 2006).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Quais são os principais impactos e implicações da obra de Merleau-Ponty nos processos das ciências, em geral e da educação, em específico?

 

Vitória Espósito – Em trabalhos e estudos por nós desenvolvidos no âmbito do Grupo de Pesquisa Educação e Produção de Conhecimento (CNPq/PUC-SP), e da Cátedra Joel Martins, temos procurado tornar visível que a fenomenologia propõe uma verdadeira viragem epistemológica ao colocar no centro do inquérito não o conhecimento em si mesmo, mas aquele que conhece. Para tanto, interroga como nas situações vividas o conhecimento se mostra de forma significativa para aqueles que os experiênciam conhecer.

A fenomenologia propõe, dessa forma, uma ordenação qualitativa em direção aos atos de conhecimento. Atos de conhecimento, na medida em que eles se dão em situação. No movimento da existência, no tempo e no espaço e na ação deste ser que face “ao mundo” enreda-se numa dialética sempre inacabada (noema/noésis/noema). Implica essa perspectiva em resgatar o sentido original da palavra conhecimento (do latim cum+gnosco), uma apreensão conjunta, sendo esse o fundamento da vida mental e consciente. No entanto, historicamente temos contemplado uma interpretação fraca do termo como “informação” ou “representação”, em detrimento daquele considerado forte, pois criador (poiético) construído na “participação” e “realização conjunta”.

Com Merleau-Ponty apreendemos que a gênese dos atos de conhecimento se faz a partir do corpo próprio, rompendo a dicotomia homem/mundo. Esse movimento torna possível a apreensão de diferentes ordenações de mundo. Desse modo, o distanciamento é o elemento que nos permite capturar a profundidade. Profundidade que não pode ser confundida com a terceira dimensão do espaço objetivo. Como nos ensina Merleau-Ponty, profundidade é o suporte invisível da visibilidade, a estrutura. Não é coisa nem ideia, mas a inteligibilidade de nascentes estruturações. É o que possibilita movimentações, apreensões diversificadas; torna possível ver outras formas, apreender interdisciplinaridades e transdisciplinaridades, novas estruturas de conhecimento, o rompimento com ordenações disciplinadoras. Possibilita recriar... transfazer.

 

IHU On-Line – O que é um enfoque fenomenológico de currículo? Quais são os aspectos desse tipo de currículo que “dialogam” com o legado de Merleau-Ponty?

 

Vitória Espósito – Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que a fenomenologia é um modo de ver o homem, o mundo e as coisas que nele se mostram. É uma filosofia que traz em si um método próprio e visa dar acesso aos fenômenos que investiga – o método fenomenológico. Consideramos, ainda, que a fenomenologia encontra suas motivações ao buscar um acesso direto às estruturas essenciais e à descrição dos fenômenos que são experienciados pela consciência, sem teorias sobre a sua explicação causal e tão livre quanto possível de pressupostos e preconceitos. Visa chegar à compreensão ou a um conhecimento de primeira ordem. Seu estudo, com Husserl, se faz contrastando-o ao positivismo, concepção filosófica hegemônica na segunda metade do século XIX. Este busca tal acesso investigando os “fatos objetivamente dados” a partir da ordenação proposta pelos métodos científicos; portanto um conhecimento de segunda ordem, pois não visa uma apreensão direta ao conhecimento, mas mediada. Dessa forma, difere da fenomenologia que interroga pelos fenômenos tal como eles se mostram nas descrições daqueles que o vivenciam (pré-reflexivo).

Retomando a questão da fenomenologia e currículo, consideramos que fazer currículo, à luz da fenomenologia, implica em não considerá-lo como um meio para determinado fim, e, sim, ver como este poderá ser construído pela escola ao qual se destina. Em apreender o mundo daqueles que lá estão, em interrogar pelos valores, crenças e desejos, enfim em ter acesso à realidade daqueles que lá estão. Currículo será então um projeto pedagógico, caminho a ser percorrido, que poderá gerar compreensões e vir a partir destas se constituir em elemento da estrutura e de uma cultura em desenvolvimento. Para subsidiar essa construção, poderão ser usadas descrições ingênuas, relatos das histórias de vida, de observação de movimentos e corpos, de forma a capturar os significados do mundo daqueles que lá estão. Significa ver a escola no mundo, no tempo e no espaço, numa certa cultura em transformação.

 

Despertar da consciência

Conforme nos traz Joel Martins, à luz da fenomenologia de Merleau-Ponty, esse modo de construir currículo implica em romper com o ideário de uma concepção causal e/ou idealizada, pois objetiva recuperar a crença na importância da consciência subjetiva e no valor da intersubjetividade. Solicita também, compreender a consciência como atribuidora de significados, em resgatar o mundo-vida tal como este se apresenta para cada um de forma inalienável, em ver como ele se mostra “aí” (mundo), antes que a reflexão incida sobre ele.

Trata-se de buscar a essência do comportamento e da percepção interior presente nas experiências vividas e de considerar que a intencionalidade operativa pode nos oferecer ‘uma certa textura’ que emerge das significações já dadas, um aspecto fundamental da consciência que opera com o mundo no conjunto de seus diversos movimentos. A questão básica será, então, compreender qual é, em nós e no mundo, a relação entre sentido e não senso, uma vez que é visão comum aos fenomenólogos que a consciência use signos para expressar os significados que atribui. Nesse sentido, a maneira pela qual a consciência atribui significados indica que ela o faz a partir da forma como se relaciona com as estruturas já construídas pelos sujeitos investigados. Assim, uma estrutura mínima de crenças passa a existir, momento este em que há um despertar da consciência para alguma coisa (MARTINS, 1992, p. 92).

Considerando a pergunta: qual é o enfoque fenomenológico de currículo? Lembramos que Joel Martins publicou em 1992 o livro: Um enfoque fenomenológico de currículo. Currículo como poíesis, que no Brasil parece ser o primeiro volume na área, considerada até então, pouco precisa entre os educadores. Este livro hoje, um clássico em currículo, oferece-nos a oportunidade de situar uma visão de curriculum à luz da fenomenologia, um registro da resistência à tal concepção, considerada na época, pouco significativa por não apresentar uma perspectiva política. Mais ainda, tal livro ilustra a resistência encontrada à fenomenologia nos estudos educacionais. Referia Joel Martins que a reação parecia ligada ao medo e à hostilidade em direção ao desconhecido, portanto, ainda não compreensível, uma pré-disposição cultural a ser superada. Consideramos que hoje já é consensual não se ver currículo apenas como um instrumento preestabelecido em decorrência de objetivos, métodos, conteúdos, avaliações. Currículo na acepção fenomenológica fala de vida; de uma situação de mundo; o mundo da educação, lugar onde estão localizadas a escola, a comunidade, a natureza, as coisas dentro da natureza mesma. Tudo isso lembra Martins, dentro de sua concepção de consciência de e da atribuição de significados por essa consciência. Constitui-se na produção de conhecimento a partir do experienciado, isto é, do mundo vivido pelo sujeito, considerado como um ser transformador (MARTINS, 1992, p. 88).

 

IHU On-Line – Qual é a atualidade da fenomenologia desse educador para a educação do século XXI?

Vitória Espósito – Consideramos que a atualidade do pensamento de Merleau-Ponty está em trazer elementos para a discussão e vivência de questões atuais do mundo contemporâneo, colocando-nos no cerne do acontecimento vivo. De estarmos sempre sendo com o outro na facticidade do mundo, de nosso corpo próprio e assim conscientes do caráter desse inacabamento, de nos vermos em nossa incompletude, seres históricos, enredados numa dialética sempre inacabada (homem/mundo). Essa inconsistência, ao ser sentida e vivida como consciência de, inquieta-nos, amedronta e exige respostas, faz proposições, age, interfere. Essa forma de situar-se no mundo solicita o apoio de uma ética que considere a incessante busca de sentidos para o que há. Implica em se saber habitando o “entre”, o hiato que separa e une o mundo e as coisas que nele estão. Em ver-se frente ao abismo, ao mistério, ao lugar do sagrado. Colocando o homem no cerne do acontecimento vivo pela mediação do corpo próprio, a fenomenologia de Merleau-Ponty aponta para a possibilidade de rompimento com a inexperiência do mundo de evadir-se de verdades prontas e da bidimensionalidade aprisionadora, de desvelar a profundidade. Profundidade, berço do entre-si que, ao se mostrar, permite capturar outros perfis, perspectivas, deixando ver não só figuras, mas também formas que se mostram e se ocultam. Essa percepção de dimensões diferenciadas traz consigo também a percepção de valores, suscita o desejo de novas formas de ser e existir no mundo com o outro. Gera responsabilidades.

Na esteira do pensamento fenomenológico nasce a possibilidade de nos depararmos com o princípio da responsabilidade e da necessidade, enquanto seres humanos e educadores, de nos posicionarmos no mundo e atuar com cautela, tendo discernimento necessário. Solicita cuidados e uma séria disposição para mantermos o discernimento possível, pois nosso ver é incompleto, em perspectivas. Disposição em manter uma atitude de investigação, de análise e reflexão sobre si e o mundo como sendo (co-)responsáveis pela própria morada humana e pela existência do planeta.

Nessa perspectiva, a fenomenologia nos abre para a necessidade de busca constante de apreender o mundo no seu movimento próprio. Lembrando que é o mundo percebido o que nos situa em nossa existência. Busca assim, como consciência de, que nos vejamos situados no entrecruzamento, no quiasma entre o visível e o invisível, habitando o mistério.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição