Edição 356 | 04 Abril 2011

“Precisa ser muito ruim para errar no Brasil"

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Patrícia Fachin

Na avaliação do economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Dilma está identificando corretamente os problemas econômicos e as questões a resolver não são tão dramáticas como foram no passado

Apesar de o Brasil estar sofrendo o choque inflacionário em função da elevação do preço das commodities no mercado internacional, a política macroeconômica “está equilibrada e razoável”, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, à IHU On-Line. Segundo ele, a equipe econômica está utilizando os recursos necessários para conter a inflação e a prioridade, neste momento, é “acomodar a economia para não fazer com que esse choque internacional das commodities transite pelo mercado de trabalho”. Neste sentido, Belluzzo concorda com a posição do governo de fixar o salário mínimo em 545,00 reais e justifica: “O governo está defendendo a necessidade de modular o crescimento em vez de jogar a economia na recessão”.

Na entrevista que segue, concedida por telefone, ele menciona ainda que o principal desafio da presidenta será conter a inflação e garantir o crescimento. “Dilma terá de conduzir a política econômica com grande cuidado porque os problemas são de variada natureza e não os resolverá com uma única política. A principal questão é como estabelecer uma relação mais equilibrada entre o combate à inflação e o crescimento”.
Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo - USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal, e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp, onde leciona atualmente.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como avalia os primeiros meses do governo Dilma?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
O Brasil é um dos países que está sofrendo o choque inflacionário, que em boa medida decorre da rápida elevação dos preços das commodities. No entanto, o Brasil é o país que usou o conjunto de instrumentos mais amplo, como medidas de controle do crédito, manteve a política do Banco Central parecida com o que vinha sendo feito, embora a taxa de juros no Brasil seja absurdamente alta diante do mundo. Dilma está prometendo maior rigor fiscal, embora o Brasil tenha uma situação de dívida e de déficit bastante confortável se formos comparar com outros países.
A política macroeconômica está equilibrada e razoável. É claro que o mercado sempre pede aumento de juros porque eles foram formados em períodos de pobreza intelectual incrível no que diz respeito à avaliação das políticas econômicas. Então, eles só sabem dizer que é preciso aumentar os juros. Pensam que outras medidas são velhas, mas velhos são eles. O mercado está forçando a barra.

IHU On-Line – Então, está correta a medida de elevar os juros pela segunda vez este ano?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
Não estou dizendo que o Banco Central está certo em elevar os juros, mas que cometeram um erro no passado: quando ocorreu a crise, não reduziram a taxa de juros na medida em que deveria ter sido feito. E, agora, teria mesmo de subir a taxa porque tem esse choque declarado. Mas uma coisa é subir a taxa de juros de 7,5 para 9% e, outra coisa é subir para 12%.
A taxa de juros é absurdamente alta no Brasil, mas isso tem a ver com o domínio do poder dos bancos e do mercado financeiro sob a política econômica. Depois, essa turma do Inside Job  não sabe explicar o que fizeram.

Esse pessoal do mercado financeiro não lê nada, são como macacos. Na verdade, eles são produto do fracasso e não estão conseguindo compreender que o regime de política econômica vai ter de mudar por conta das percepções de que ficar concentrado só na política de notas deu esse resultado desastroso nos mercados financeiros.


IHU On-Line - O senhor diz que o ano de 2011 vai exigir do governo uma atenção maior que 2010, porque as condições estão mudando e há sinais contrários em diversos fatores. A que se refere especificamente?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
É em função do que os economistas chamam de trade-off.  Tem trade-off entre a política monetária e o câmbio; entre a taxa de crescimento e o setor externo, que está acumulando um déficit em conta corrente muito alto; entre a subida do preço das commodities, a balança comercial e a inflação. Essas questões não são resolvidas com um instrumento só. Há de se ter um instrumento para cada objetivo. Se se usa um instrumento só, obviamente se atingirá um objetivo só. Não tem nenhum regime de política econômica que não tenha seus percalços e inconvenientes.


IHU On-Line – O governo está atento a esse cenário de baixo crescimento?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
O Brasil passou por uma crise que jogou o PIB para baixo; depois, a economia se recuperou, gerando um crescimento muito forte em 2010. Mas, agora, a economia está crescendo cerca de 3%. Nesse trimestre, a economia cresceu abaixo do potencial. É difícil que o Índice de Preços de Consumo – IPC e as taxas de inflação se mantenham nesse patamar.
Alguns estudos mostram que é possível crescer 4,5 ou 5%. O governo tem de se equilibrar entre uma taxa de crescimento mais baixa e a tentativa de controlar a inflação, que não é nenhum fantasma no momento, pois está em torno de 5,5%. Está acima da meta, mas nem tanto assim. Isso está acontecendo no mundo inteiro e o Brasil é o país que tem a situação mais razoavelmente equilibrada.
O país tem de acomodar a economia para não fazer com que esse choque internacional das commodities transite pelo mercado de trabalho, porque, se ele for para o mercado de trabalho, incendeia tudo. Por isso que o governo tomou cuidado com o aumento do salário mínimo, o que foi correto. Tem de permitir que os salários continuem evoluindo, mas a uma velocidade menor. Não podemos entrar no espiral salário/preço, pois, do contrário, a taxa de juros teria de ser mais dramática. Então, é melhor evitar que isso aconteça.


IHU On-Line - O senhor se referia ao salário mínimo, mas o que as duas primeiras grandes decisões do governo Dilma – a aprovação do salário mínimo e o ajuste fiscal – demonstram sobre a condução da política econômica?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
O governo está defendendo a necessidade de modular o crescimento ao invés de jogar a economia na recessão. É preciso modular o crescimento para que a taxa de inflação pelo menos aponte na direção de voltar para a meta. Não é possível fazer isso do dia para a noite – aliás, os prazos de convergências deveriam ser maiores. Se o governo der um sinal de que está despreocupado com a inflação, nós sabemos o que pode acontecer.


IHU On-Line - Nos dois primeiros meses deste ano, o Brasil recebeu mais dólares do que em todo o ano de 2010. Quais as vantagens e desvantagens dessa entrada de capitais?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
Como os rendimentos dos papeis estão muito baixos nos EUA e na Europa, porque os europeus estão com um problema sério de endividamento dos países, o Brasil se torna um mercado interessante. Como a taxa de juros no país é muito alta e como os bancos tomam taxas de 2% ao ano, então, entram muitos capitais. Essa entrada prejudica bastante o câmbio e a indústria brasileira.


IHU On-Line - O Brasil está apostando demais suas fichas na primarização da economia, ou seja, em minérios, soja, cana, gado etc.? Há riscos nessa política?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
Esse comportamento da demanda de commodities mudou estruturalmente, porque só participam países que são importadores crônicos. Mas nesse momento está se vivendo uma bolha no mercado de commodities por conta das operações do mercado de futuros. Essa bolha vai reverter em algum momento, mas isso não significa que a demanda de commodities irá retroceder para outros patamares. Só se ocorrer uma recessão. Enquanto a China e os asiáticos continuarem crescendo isso não vai acontecer. A reconstrução do Japão também irá demandar muita matéria prima, as quais o Brasil pode oferecer. Então, teve uma mudança na composição da demanda global.

O Brasil não pode, de jeito nenhum, se apoiar exclusivamente na exportação de commodities, virar exportador de matérias-primas e abandonar outros setores. Isso não quer dizer que o país não deva aperfeiçoar a cadeia de exportação de commodities e dar mais valor agregado a ela, o que é perfeitamente possível, ou seja, industrializar o campo. Mas o país não pode abandonar o projeto de industrialização por conta da valorização cambial.


IHU On-Line - A China pode “engolir” o Brasil no mercado internacional? O que pode diferenciar o país em uma disputa de mercado?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
A China é uma produtora global e o Brasil não pode pensar em competir com esse país. O Brasil tem de se proteger em duas mãos: ampliar as relações comerciais com a China nos setores em que interessa; e impor barreiras, porque os chineses têm condições de proteger a sua indústria e incentivá-la a exportar. O Brasil precisa se defender, ainda pode se proteger e manter uma estrutura industrial resistente, forte e aproveitando, inclusive, esse projeto do pré-sal para internalizar muita coisa na área de metal-mecânica, de informática, por conta da demanda que vai nascer da exploração do pré-sal. Aí, vai ser preciso uma política de governo para fazer com que a Petrobras use seu poder de compra para incentivar as indústrias brasileiras. Já imaginou esse país urbanizado do jeito que é, com as conexões que a urbanização tem com a indústria, retroceder para um país produtor exportador de commodities? Seria um desastre.


IHU On-Line – Em sua opinião, o Brasil deve investir no pré-sal ou o país tem a oportunidade de pensar em alternativas como a busca por uma economia de baixo carbono? É relevante pensar em novas fontes de energia, por exemplo?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
É relevante, sim. O Brasil tem a vantagem de ter disponibilidade de todas as fontes de energia: hidroeletricidade inexplorada em uma porcentagem altíssima, eólica, que ainda pode ser usada de maneira limitada. O país pode, nesta altura, exportar mais o seu petróleo e reduzir o consumo doméstico porque aí se juntam duas coisas: faz-se uma renovação das fontes de energia e, ao mesmo tempo, acumulam-se reservas para estimular o mercado interno, a industrialização, a educação, a situação da previdência. Precisa ser muito ruim para errar no Brasil.


IHU On-Line - Alguns especialistas defendem que o Estado tem sido protagonista no crescimento econômico. Qual será o protagonismo do Estado nos próximos quatro anos?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
Eu tenho até preguiça de falar dessa questão de Estado e setor privado. Só os economistas acham que pode haver economia de mercado e capitalismo sem Estado. O Estado foi protagonista o tempo inteiro, de diferentes formas. O Estado moderno e o mercado nasceram juntos.

Keynes  achava que era preciso resolver quatro questões. Uma delas era a socialização do investimento, ou seja, ter um programa de longo prazo que estabilize a economia. Ele não queria a propriedade dos meios de produção e, sim, socializar o controle público de investimentos, de modo que a economia pudesse crescer com certa estabilidade, dando uma orientação para os investimentos do setor privado. Em segundo lugar, seu objetivo era reduzir o poder dos mercados financeiros, que chamava de a eutanásia dos rentistas. Depois, queria redistribuir a renda, usando uma medida fiscal. E, por último, almejava uma organização multilateral que não levassem a um desastre. O Fundo Monetário Internacional - FMI não correspondeu àquilo que ele queria. Keynes era um economista que tinha muita clareza.
O Plano de Aceleração do Crescimento9 (PAC), por exemplo, é um instrumento que parece muito com essa ideia de ter um programa de investimento longo, que vá dando ao setor privado uma perspectiva, uma orientação.


IHU On-Line – Quais os desafios da presidenta no que se refere à condução da política econômica?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo –
Ela tem uma porção de obstáculos, de questões a resolver. Nenhuma delas, porém, é dramática como foram as questões que o país teve de enfrentar nos anos 1980 e 1990. O Brasil está em uma situação bastante razoável, mas, como dizia alguém, tudo que é sólido se desmancha no ar. Então, Dilma terá de conduzir a política econômica com grande cuidado porque os problemas são de variada natureza e não os resolverá com uma única política. A principal questão é como estabelecer uma relação mais equilibrada entre o combate à inflação e o crescimento. Esse é um problema. Como equilibrar o crescimento e uma situação de balanço de pagamentos mais folgada. Essas são as questões que ela terá de enfrentar.

Dilma está identificando corretamente os problemas. Se ela vai conseguir resolvê-los e encaminhá-los, não sei. Aliás, resolver, ninguém resolve nada. As pessoas falam em resolver problemas como se fossem deuses. Mas isso não é possível. O que se pode fazer é encaminhar para uma trajetória mais favorável. Ninguém tem o poder de determinar qual vai ser a taxa de crescimento. Política econômica é muito mais uma arte do que ciência. Tem gente que acha que é ciência. É uma questão de escolha, de entender que o país não está sozinho no mundo, de que é preciso administrar mudanças no cenário internacional etc.



Leia Mais...

Belluzzo
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

• “Será difícil que o padrão que prevaleceu até hoje possa sobreviver”. Publicada na edição 276, de 06-10-2008

• “Nós fomos ultrapassados pelos outros, o que não quer dizer que isso seja um fenômeno insuperável”. Entrevista publicada na edição 218, de 07-05-2007

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