Edição 356 | 04 Abril 2011

Comblin e a reinvenção da igreja

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Márcia Junges

Teólogo belga escolheu o Brasil e os pobres para praticar uma teologia da enxada, do pé no chão e que escolhia radicalmente os excluídos e suas causas, pontua Erico Hammes. Capacidade de escuta era uma das suas maiores características.

O que mais impressionava em José Comblin era “a disposição e a força de pensar a estrutura da igreja e o próprio cristianismo em atualidade com o mundo e também com uma vinculação estrita com a questão dos pobres e da libertação”. A declaração é do teólogo Erico Hammes no depoimento que segue, concedido por telefone à IHU On-Line, contando aspectos de sua vivência com o grande teólogo belga. Comblin chegava mesmo a ser teimoso quando o assunto era a opção pelos pobres. Basta que se olhe para sua trajetória intelectual e de evangelização para se dar conta disso, aponta o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Erico Hammes é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição e em Teologia pela PUCRS. É mestre e doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), em Roma, com a tese Filii in Filio: A divindade de Jesus como evangelho da filiação no seguimento. Um estudo em Jon Sobrino (Porto Alegre: Edipucrs, 1995).
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual foi o seu contato e partilhas intelectuais com José Comblin?

Erico Hammes – Antes de conhecer Comblin, tive contato com suas obras, especialmente as mais antigas, como Teologia da revolução. Progressivamente, li outras de suas publicações, e o via sobretudo nos Congressos da Soter (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião), nos quais atuava e fazia intervenções seja como conferencista ao longo da assembleia ou congresso, ou então como conferencista de abertura. A partir do ano 2000 era muito frequente abrirmos o Congresso da Soter com suas colocações.

O que impressionava em sua pessoa era sobretudo a disposição e a força de pensar a estrutura da igreja e o próprio cristianismo em atualidade com o mundo e também com uma vinculação estrita com a questão dos pobres e da libertação. Essas são as marcas de sua personalidade que mais impressionavam. Além disso, destaco a sua disposição em ir ao encontro dos outros, viajar, prestar assessorias e conversar com as pessoas sem fazer discriminação sobre se eram “nomes novos”, desconhecidos ou alguém já famoso. Quem quisesse conversar com ele podia fazê-lo.

IHU On-Line – Quais são as suas maiores recordações da pessoa de José Comblin? Como era seu jeito, o modo como se relacionava com as pessoas?

Erico Hammes – Na maioria das vezes, nos encontrávamos em eventos. Dessas oportunidades, posso dizer que era uma pessoa acessível, questionadora, muito bem informada sobre todos os assuntos. Isso impressionava ainda agora, nas últimas vivências que tive com ele. No último evento da Soter, ela já não atuou explicitamente, mas estava lá. Essa presença no meio da teologia e a capacidade de conversar com todo mundo e ouvir eram suas marcas fortes. Lembro-me bem de uma situação em que estávamos Luiz Carlos Susin e eu, em um congresso em Belo Horizonte. Não lembro se fomos nós ou Comblin que se sentaram por primeiro. O certo é que ele, imediatamente, quando nos identificamos uns aos outros, começou a falar conosco sobre a teologia de Porto Alegre. Isso tudo sem o menor preconceito, admitindo aspectos que desconhecia ou eram novos para ele. Então, essa capacidade permanente de aprender era muito impactante.

Comblin tinha, inclusive, uma espécie de teimosia em chamar a atenção para mostrar a necessidade de se cuidar dos pobres. Quando se olha sua biografia, é isso que ele faz ao longo de sua trajetória, desde que sai do ambiente universitário e seminarístico, envolvendo-se com o povo contra as ditaduras. Esses regimes autoritários o “colocaram” para dentro das comunidades populares. Quando se lê a lista de suas obras e se observa sua trajetória junto às comunidades, percebe-se o espírito criativo que deixava por onde quer que passasse, em serviço dos mais pobres, defendendo a causa radicalmente inclusive quando tal implicasse uma crítica à igreja ou a instituição papal, aos bispos ou teólogos. Não era raro Comblin criticar o estágio atual da teologia, que estaria muito vinculada à universidade. Para ele, essa teologia não produzia os frutos que deveria produzir.

IHU On-Line - Nesse sentido, o que a Teologia pode recuperar e aprender com a trajetória de Comblin?

Erico Hammes – Uma primeira questão que aponto seria a dimensão profética da Teologia. Isso quer dizer que a Teologia tem uma função de avaliação e reflexão crítica de solidariedade aos mais fracos, às vítimas, aos perseguidos, pobres e doentes. Essa função de sempre chamar a atenção para a existência dessas pessoas e populações que podem ser verdadeiras “sobras” no sistema no qual vivemos, é uma das metas da Teologia. Assim, o cristianismo tem um compromisso inadiável com essas pessoas.

Em segundo lugar, destaco a dimensão profética intraeclesial que deve chamar a atenção da igreja e do conjunto da sociedade para trabalhar com seriedade e abertura de diálogo para o mundo atual, com a informação, o conhecimento, a ciência e os grandes movimentos políticos. Uma das conferências que mais me impressionou, a última de Comblin a que assisti pessoalmente, foi uma análise do mundo atual com a situação recente do neoliberalismo, analisando as grandes tendências patrocinadas pelo liberalismo mundial, com todas as consequências que isso representaria para a população. Isso significa que a teologia deve ser uma teologia que busque informação, conhecimento da realidade mundial, e não pode ser uma simples explicitação de artigos de fé em si mesmos, sem relação. Isso em si não chega a ser teologia, mas e é tomado muitas vezes como tal. Nesse sentido, eu diria, discordando de Comblin, que essa teologia também precisa acontecer na universidade, não apenas no campo, nem pode acontecer somente na favela, mas também necessita da interlocução universitária e do debate com os pensamentos transformadores que também podem existir no mundo universitário e científico.

Teologia da enxada
O que deve ser garantido, em todo caso, é a perspectiva. Por exemplo: somos um país com uma massa enorme de marginalizados. Não podemos nos iludir com a posição econômica internacional que adquirirmos, nem ao fato de pertencermos aos emergentes. Isso não tira a realidade de pobreza, miséria, violência e criminalidade organizada que possuímos. Essa integridade e fidelidade e desprendimento são característicos de Comblin. Ele não morou em palácios, ou se o fez foi muito rapidamente. A casa que ele sempre quis é a casa que não tem sequer escadas, que está ao rés do chão, onde todo mundo pode entrar. É a chamada Teologia pé no chão, ou Teologia da enxada, uma encarnação radical.

Olho isso a partir da perspectiva da Europa. Recentemente estive na Bélgica e, analisando a situação da igreja lá, penso que Comblin certamente intuía essa realidade ao tomar a decisão de vir para o Brasil. Isso significou deixar uma carreira, um modo de vida e a possibilidade de lá ser um grande teólogo. Ele deixa tudo de lado para vir para cá. Aqui, pretere São Paulo e Campinas, como outras grandes cidades, para trabalhar com Dom Hélder Câmara, no interior do Nordeste, e lá vai até o fim.

Comblin é, com certeza, uma das grandes personalidades que marcam a boa Teologia do Brasil. De certo modo, mais do que por seus livros, que são importantes, indiscutivelmente, Comblin é inesquecível por sua presença e testemunho junto às comunidades que eram “contagiadas” por suas ideias. Os cursos populares nos quais trabalhava por todo lugar são lembrados até hoje. Seu desprendimento era grande, na contramão do que muitas vezes se vê dentro da igreja, onde há a tentação de se viver bem, se acomodar e não aceitar o compromisso que se tem, decisivo e evangélico, de sair de si mesmo e ir até onde estão os mais necessitados. Essa é uma das grandes interpelações de Comblin, que achava que a Teologia deveria ter tal premissa como seu lugar natural e daí pudesse se fazer na universidade, no meio popular, casas religiosas, encontros diocesanos e em cursos de extensão.

Testemunhos como o de Comblin podem nos ajudar a reinventar permanentemente a maneira de ser igreja em diferentes lugares, e recriar a Teologia sempre outra vez. Recentemente, descobri uma obra antiga de Comblin, do final dos anos 1950, composta por dois volumes, cujo tema é a teologia da paz. Esso era um assunto inédito naquela época. Só iremos encontrar outra obra com esse titulo nos anos 1980. Há pouco tempo retomei essa leitura, sua construção e fundamentação e percebi como ele sabia tomar posição naquela situação de Guerra Fria e corrida armamentista. Temos que ter admiração por esse legado tão importante.


LEIA MAIS

>>> “Conceito e missão da Teologia em Karl Rahner”, de Érico João Hammes. Publicada na edição 05 dos Cadernos Teologia Pública, de 01-05-2004. Disponível em http://migre.me/4b9nG

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