Edição 356 | 04 Abril 2011

Omar Reis

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Patricia Fachin e Márcia Junges

Uma enorme mudança. Foi isso que a alfabetização provocou na vida do motorista Omar Reis. Analfabeto até os 25 anos, ele ingressou num curso oferecido pela Unisinos a seus funcionários e iniciou a escrever com sua própria letra a sua história de vida. Casado e pai de quatro filhos, ele conta aspectos de sua trajetória nada fácil. Orgulhoso pelas conquistas e grato pelo incentivo que recebeu dentro da comunidade acadêmica, sonha com uma chácara para plantar e ver os filhos formados.

Origens

Nasci em Canela, e praticamente me criei na Unisinos. Vim para cá com 16 anos. Morei em Santa Catarina durante certo tempo, mas depois vim para Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre. Dois tios meus, irmão do meu pai, trabalhavam na Unisinos como jardineiros. Foi assim que comecei. Isso foi em 1984, contratado como funcionário.


Família

Tenho 22 irmãos, dos quais sete são mulheres. Vivos são apenas nove. São todos do mesmo pai e da mesma mãe. A diferença de idade entre nós era grande. O mais velho já tem 69 anos. Um ajudava a criar o outro, e assim fomos indo, trabalhando cedo. Sou o mais novo dos homens. A mãe passava trabalho. Fazia pão de forno todo dia, porque era praticamente uma “empresa” que ela tinha em casa a qual precisava alimentar. Era muita gente para comer. Quando nos juntávamos à mesa, parecia uma festa. Como nos mudávamos muito, trabalhando em serrarias, por vezes não havia escola perto de casa. E, assim, fiquei analfabeto até os 25 anos. Comecei a trabalhar muito guri, com 10 anos. Meu avô era professor, mas dava aula para outras crianças, enquanto os filhos tinham que trabalhar na roça. Assim, meu pai nunca aprendeu a ler e a escrever. E o mesmo aconteceu comigo.

Os irmãos que vivem aqui se reúnem com certa frequência. Já os que ficaram em Santa Catarina é mais difícil de rever. Faz sete anos que não encontro os irmãos de lá.


Casamento

Minha esposa é de São Joaquim. Vim morar para cá; fiz a casa e ficamos namorando à distância por uns três anos. Um dia, fui buscá-la, casamos aqui e ficamos. Estamos juntos há 27 anos e temos quatro filhos e dois netos. Uma neta vive conosco - ela já tem oito anos e é o meu xodó. A mãe dela fez até um quarto rosa para ela, em casa, mas ela prefere morar conosco. Acontece que fomos nós que praticamente a criamos. Três dos meus filhos ainda moram conosco: um rapaz de 20 anos, uma moça de 17, que trabalha na cafeteria da biblioteca da Unisinos, e outro rapazinho de 12 anos. Esse adora CTG, como eu. Minha esposa cuida da nossa casa e, às vezes, faz umas costuras para ganhar um dinheirinho. Também criamos dois sobrinhos, que volta e meia vem nos visitar.


Profissão

Trabalhei uns oito anos na área de jardinagem da Unisinos. Depois, fiquei mais uns seis anos no caminhão. Fui insistindo até que mudei de área. Outra coisa interessante é que eu não sabia ler e escrever. Fui alfabetizado por alunos da Unisinos. Fiz o ensino médio (antigo primeiro grau) aqui mesmo, num projeto de alfabetização para funcionários. Isso durou um ano e meio. Apenas eu e outro colega concluímos o curso, porque o pessoal ia desistindo no caminho. Terminei o ensino fundamental numa sexta-feira, e na segunda-feira seguinte já estava matriculado no ensino médio. Nesse período fiz a carteira de motorista e, então, surgiu a chance de dirigir os carros da universidade. Não me lembro em que ano foi isso. Já faz tempo.
Com a grande crise da Universidade, fui demitido. Fiquei um ano e meio dirigindo caminhão por São Paulo e Curitiba. Há três anos fui chamado de volta e fiquei por aqui, porque a estrada é muito perigosa. Então, do meu primeiro contrato da Unisinos, trabalhei 26 anos e agora já são mais três. E têm aqueles seis anos nos quais fui jardineiro na Unisinos sem ser funcionário da instituição.


Alfabetização

Quando vim para Sapucaia do Sul, logo procurei um Mobral para me alfabetizar, mas não encontrei. Na hora em que a Unisinos abriu o curso para alfabetizar seus funcionários, fui o primeiro a me inscrever. Eu estudava à noite nesse período. Ficava até tarde, tipo 22h30min, 23h. Nunca falhei um dia de aula e também jamais pensei em desistir. Já o resto do pessoal faltava muito. Às vezes eram apenas eu e a estagiária que dava aula. Eu desenhava as letras. No primeiro ano, fiz uma espécie de “pré-escola”, e estava conhecendo letra por letra.
Depois de formado, muitas vezes fui convidado para formaturas do curso de Pedagogia como funcionário homenageado. Até que eu concluí todo curso e mais o segundo grau, foi um total de seis anos. Para mim foi bem difícil, mas eu tinha o apoio da minha família, que me ajudava nos estudos. Depois de estudar, a minha vida mudou. Até para comunicar as coisas ficou mais fácil. Quando eu namorava minha esposa, tinha que pedir para minha irmã mais velha escrever as cartas para ela.
Minha filha ficou grávida e não quis estudar, mas tem o ensino médio. A mais nova está concluindo o ensino médio e quer fazer faculdade. Já o rapaz fez um curso de mecânica e se deu por satisfeito.


Lazer

Gosto de ver TV e me divertir com os netos. Não bebo e não fumo. Quando meus irmãos vêm nos visitar, jogamos canastra. Aos finais de semana saímos para passear um pouco, mas normalmente a casa está sempre cheia. Também aprecio ler jornal.

CTG

Levo meu guri nos bailes. Agora ele já está no juvenil. Ele mesmo é que se interessou em participar.


Religião

Sou católico, mas não muito praticante. Minhas orações faço só para mim, não preciso ir à igreja. Mas gosto de comparecer à missa de vez em quando.


Profissão

Gosto do que faço aqui. Nesse tempo em que estive fora da Unisinos, eu não sabia nem fazer um currículo. Minha filha teve que me ajudar. Mas até consegui emprego! Tenho vários cursos específicos para motorista, e isso é um diferencial.


O retorno

Quando me chamaram de volta, foi uma alegria. O salário era praticamente igual ao que estava ganhando como motorista de caminhão, mas pelo menos eu estaria junto com minha família, em casa toda noite. Isso vale mais do que qualquer outra coisa. É muito perigoso transportar cargas valiosas, porque elas são muito visadas. O caminhão tem rastreador, mas o motorista não.


Sonho

Quero ver meus filhos formados e ter uma chácara para plantar. O resto está bom assim e a vida traz. Faltam só três anos para me aposentar, mas por mim eu fico aqui até os meus filhos se formarem.


Unisinos

É meu porto seguro. Tudo que eu sei e tenho devo a ela. Trabalhei bastante e fui recompensado. Eu não sabia nem pegar um ônibus, e depois entrei aqui e tudo mudou. Quando eu pegava o ônibus para trabalhar, tinha que prestar atenção na cor, porque não sabia ler o letreiro. Muitas vezes me enganei e peguei o ônibus errado. É como se eu fosse um cego por não saber ler e escrever. Pelo tempo em que estou aqui, poderia ter me formado em alguma coisa, mas decidi deixar isso para meus filhos.

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