Edição 356 | 04 Abril 2011

Mudanças silenciosas

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Patricia Fachin

A presidente irá governar em um contexto mais vulnerável, com taxas de juros internacionais altas e risco de inflação, destaca o economista José Luis Oreiro

Nos primeiros meses do mandato Dilma é possível observar que ela não pensa exatamente como seu antecessor e sinaliza mudanças interessantes na política externa, além de “estar mais comprometida com o novo desenvolvimentismo”, constata José Luis Oreiro. Segundo ele, a mudança na gestão do Banco Central, uma das primeiras medidas anunciadas pela presidente eleita, também favorece uma política mais alinhada com a da equipe econômica, o que indica uma “reforma silenciosa”. Por outro lado, menciona, Dilma também não está disposta a enfrentar a questão do câmbio. “Ela está sinalizando medidas que impeçam valorizações adicionais da taxa de câmbio, mas não medidas que resolvam o problema da sobrevalorização cambial”, assinala.

Na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por telefone, Oreiro explica as razões do baixo crescimento e enfatiza que, sem mudanças estruturais, será impossível crescer mais do que 5% ao ano. “Precisamos aumentar o investimento público com proporção ao PIB. Essa reforma estrutural é fundamental para o crescimento de longo prazo”, frisa.

José Luis Oreiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Organizou Agenda Brasil: políticas econômicas para o crescimento com estabilidade de preços (São Paulo: Monole, 2003) e Sistema financeiro: uma análise do setor bancário brasileiro (Rio de Janeiro: Campus, 2007). Leciona no Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual a intenção do governo com o ajuste fiscal e como essa medida fiscalista interfere na economia?

José Luis Oreiro –
Vi o anúncio do ajuste fiscal de uma maneira bastante positiva, visto que a demanda agregada no Brasil se encontra crescendo em um ritmo acelerado. Isso está produzindo pressões inflacionárias que não são apenas motivadas pelo crescimento da demanda, mas também pelo aumento do preço das commodities internacionais. Além disso, o país está com uma taxa de desemprego historicamente baixa.
As pressões inflacionárias ameaçam romper o teto da banda de inflação e o governo está usando a política fiscal para complementar a política monetária no sentido de manter a inflação dentro da meta. Então, o ajuste fiscal permite uma redução da demanda agregada sem que o Banco Central tenha de fazer um reajuste grande da taxa de juros.


IHU On-Line – Então, o senhor também concorda que é importante neste momento desacelerar a economia?

José Luis Oreiro –
Sim. Dado o ritmo de crescimento que a economia brasileira vinha apresentando em 2010 e dado o quadro inflacionário existente hoje, é importante fazer uma desaceleração moderada no crescimento da economia brasileira. Talvez manter um crescimento de 4% no ano de 2011 para que o país consiga ter um crescimento sustentável com estabilidade de preços.


IHU On-Line - O que impede o Brasil de crescer mais este ano?

José Luis Oreiro –
São razões de ordem estrutural. Em primeiro lugar, a economia brasileira possui uma taxa de investimento muito baixa. A taxa de investimento que é definida como a formação bruta de capitais fixos sobre o PIB se encontra em torno de 18% ao ano. Na época do milagre econômico, ela se encontrava em 28% ao ano. Com a taxa de 18% do PIB, o país não consegue crescer mais do que 4 ou 4,5% sem pressões inflacionárias.

A segunda razão é o fato de a economia brasileira ser madura. De 1950 a 1980, o Brasil cresceu a taxas de 7% ao ano em média, porque era uma economia em fase de industrialização e, durante esse período, ocorreu uma transferência de mão de obra da agricultura para a indústria. Então, nessas décadas, houve um crescimento no país com mudança estrutural. Durante essa fase, as taxas de crescimento tendem a ser muito elevadas. É o que está acontecendo com a China hoje. O país ainda tem uma população rural elevada, de tal maneira que ainda está transferindo mão de obra da agricultura para a indústria.
Mas esse processo de mudança estrutural no Brasil se completou no início dos anos 1980. Quer dizer, hoje em dia, a população rural representa 10% da população brasileira, de tal maneira que ganhos expressivos de produtividade advindos da transferência de pessoas do campo para a indústria não são mais possíveis.

Essas são as duas razões pelas quais o Brasil não pode mais apresentar uma taxa de crescimento do PIB da ordem de 7% ao ano em termos reais. O que podemos aspirar a longo prazo é uma taxa de crescimento de 5% ao ano se forem feitas as reformas necessárias para aumentar a taxa de investimento para algo como 23% do PIB.


IHU On-Line – Quais seriam essas mudanças estruturais? Como a economia brasileira pode crescer mais de 5% ao ano?

José Luis Oreiro –
Em primeiro lugar, é preciso fazer uma reforma fiscal que mude a composição do gasto do governo, ou seja, aumentar a participação do investimento público e reduzir os gastos de consumo púbico. Quer dizer, o governo tem de investir uma parcela maior do seu orçamento e reduzir, portanto, os gastos de consumo de custeio.

Atualmente, o governo federal investe algo como 1,5% do PIB ao ano. Se somarmos com as empresas estatais Eletrobrás, Petrobras etc., o investimento público passa para 3% do PIB. Na época do milagre, o setor público consolidado investia 7% do PIB. Precisamos aumentar o investimento público com proporção ao PIB. Essa reforma estrutural é fundamental para o crescimento de longo prazo.
A segunda reforma estrutural consiste em uma mudança urgente na política cambial brasileira. Com o atual câmbio, as indústrias no país têm pouco estímulo para investir. Então, precisamos de uma política cambial que permita uma desvalorização controlada da taxa de câmbio. Precisaríamos de uma taxa de câmbio em torno de 2,40. Essa mudança na política cambial é essencial para que o Brasil possa ter uma taxa de investimento mais elevada.

Por fim, é preciso fazer uma reforma no sistema financeiro, na condução da política monetária, de tal maneira a ter taxas de juros mais baixas, que estimulem, portanto, as decisões de investimentos no setor privado.


IHU On-Line - O governo está preocupado em conter a inflação, mesmo que para isso seja preciso reduzir o crescimento. Como o senhor vê essa posição?

José Luis Oreiro –
Dado o descontrole das contas públicas deixado pelo ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva - esse foi o custo que ele pagou para eleger a sua candidata -, não há muito que fazer. A questão relevante a ser discutida hoje é qual redução de crescimento que o país está disposto a aceitar e qual o prazo de convergência com respeito à meta de inflação. Defendo a ideia de que devemos buscar a convergência para metas de inflação não em 2011, mas em 2012, e é mais ou menos isso que o Banco Central tem feito hoje.

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