Perfil de Bartomeu Melià

“A verdadeira formação que tive se deu entre os índios”, revela o jesuíta espanhol Bartomeu Melià, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line. Conferencista de 26-10-2010 dentro da programação do XII Simpósio Internacional IHU – A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade, debateu o tema A cosmologia indígena e a religião cristã: encontros e desencontros. Jesuíta desde 1949 e trabalhando com os índios guarani desde 1969, Melià conta um pouco mais sobre sua trajetória e atuação missionária, o período em que viveu no exílio, em Roma, logo após ter sido expulso do Paraguai pelo ditador Alfredo Stroessner, e o retorno à vida nas aldeias. Melià é pesquisador do Centro de Estudos Paraguaios Antonio Guasch e do Instituto de Estudos Humanísticos e Filosóficos. Sempre se dedicou ao estudo da língua guarani e à cultura paraguaia. Doutor em Ciências Religiosas pela Universidade de Estrasburgo, conviveu com os indígenas guarani, kaigangue e enawené-nawé, no Paraguai e no Brasil. É membro da Comissão Nacional de Bilinguismo, da Academia Paraguaia da Língua Espanhola e da Academia Paraguaia de História. Entre suas publicações, citamos El don, la venganza y otras formas de economía (Assunção: Cepag, 2004). Confira a entrevista.

Por: Márcia Junges

Origens - Nasci na Ilha de Maiorca, na Espanha. Assim, minha primeira língua não foi o castelhano, mas uma variedade do catalão. Uma ilha sempre é um limite, mas também um convite para sonhar.

Vocação sacerdotal - Sou jesuíta desde 1949. Estudava num colégio da Companhia de Jesus e aquele ideal e ambiente missionários influenciaram-me muito. Em 1954 fui para o Paraguai. A primeira atividade de seminarista naquele tempo foi o estudo da língua guarani. Éramos um grupo de quatro pessoas, e estudávamos juntos aquele idioma. Esse estudo prossegue até hoje e tem sido essencial na minha trajetória.

Caminhos - Tornei-me professor de guarani para meus colegas que chegaram depois. Fiz a formação de Filosofia na França, Teologia na Espanha e o doutorado na França. Em 1969 eu estava voltando para o Paraguai. Na minha tese eu me questionava sobre algo que não poderia ser respondido na França. Tratava-se da criação de uma linguagem cristã nas missões jesuíticas. Nós temos a vantagem de que os guarani existem até hoje, mesmo aqueles da floresta. Esses guarani da floresta, até agora, não são cristãos. Teoricamente, eles têm a mesma religião que antes, com algumas mudanças, evidentemente.
Tive a sorte de que o melhor pesquisador do Paraguai, o australiano Leon Cadogan, deu-me todo o aval para fazer essa pesquisa. Assim, passei a entrar nas aldeias guarani. Fui aceito para participar inclusive dos rituais secretos dos índios, em sua casa de rezas. Eu levava informações a esse meu “pai antropólogo” sobre o que tinha vivenciado com os guarani.

Vivência com os indígenas
- Desde então, estabeleci uma relação quase sempre muito boa com os guarani. Eu era professor universitário, mas aos finais de semana tirava um tempo para frequentar as aldeias. Assim fui conhecendo os guarani mbyá, que são índios muito fechados, mas por outra parte, quando são conhecidos, são muito receptivos e abertos, solidários e simpáticos, inclusive. De lá, em seguida, parti para conhecer outros índios guarani que estavam um pouco além, os avá-guarani. De fato, todos guarani são avá, mas alguns deles se denominam especificamente Avá, que significa pessoa. Mbyá significa gente, no sentido de povo, pessoal. A seguir, fui ter com os pai-tavyterã, onde talvez tive a experiência religiosa mais continuada. Entre eles fiz muitos amigos, inclusive alguns dirigentes espirituais. Eles me ditavam textos que depois serviam de livros de leitura.

Genocídio - Essa experiência se prolongou de 1969 a 1976, porque já a partir de 1974 eu era também o secretário do chamado Departamento das Missões da Conferência Episcopal Paraguaia. O bispo, que era o presidente, tinha muita confiança em mim, e ele próprio não tinha muito conhecimento sobre os índios, mas era muito aberto. Juntos, começamos a fazer uma denúncia contra o verdadeiro genocídio que estava se dando no Paraguai contra os Aché-guayakí. Essa denúncia chegou à imprensa internacional e até nos Estados Unidos o Congresso teve uma sessão sobre o genocídio. O então presidente paraguaio, o ditador Alfredo Stroessner , ficou muito bravo comigo, expulsando-me do Paraguai. Então, embora eu não fosse paraguaio de nacionalidade, fui exilado.

Exílio - Parti para Roma, onde fui desenvolver meus gostos por história e linguística. Trabalhei no Arquivo Secreto do Vaticano, todos os dias. Era um dos primeiros a entrar no arquivo, pois morava muito perto, bastando atravessar a Praça de São Pedro. Estudei a respeito do fuzilamento do bispo do Paraguai durante a Guerra do Paraguai travada contra a Tríplice Aliança , da qual fez parte o Brasil. Mas não foram os brasileiros que fuzilaram o bispo, e sim os próprios paraguaios, liderados por Mariscal Lopes . Os paraguaios pensavam que o bispo estava traindo seu país, e por isso foi fuzilado.

Vida na aldeia - Retornando ao Brasil, lecionei como professor assistente da Universidade de São Paulo – USP. Nesse período descobri haver um povo indígena que acabava de ser contatado no Brasil - os enawené-nawé, que significa “eis aqui os homens autênticos”. Eles não sabiam sequer que existia o Brasil. Fiquei vários anos com eles nas aldeias, vivendo o seu tipo de vida. Isso não é fácil, dadas as inúmeras restrições que existem nesse padrão de vida. Foi, entretanto, uma experiência maravilhosa. Os enawené-nawé formam um povo muito brincalhão, além de cultivarem uma espiritualidade extraordinária. Considero-os como sendo os beneditinos da floresta. Mas eles rezam muito mais do que os beneditinos, pois seu cerimonial vai das duas horas da madrugada até as 10h, e depois das 15 às 20h, durante ciclos de um mês e meio a dois meses. Depois, eles têm outros trabalhos, como a grande pescaria.

Retorno ao Paraguai – Fui nomeado como superior da Missão Anchieta de Mato Grosso, que depende da Província Jesuíta do Rio Grande do Sul. Exerci essa função por dois anos, mas fiquei doente. Não foi nada de grave, simplesmente parasitas. Vim para o Rio Grande do Sul e me ocupei por oito anos na pastoral dos índios caingangues e guarani até o dia em que, em 1989, o general Stroessner caiu, resultado de um golpe de estado. Imediatamente, voltei para o Paraguai. Em 1990 já estava radicado nesse país, onde vivo até hoje. Agora vou raramente para o mato, nas aldeias, mas sigo com uma atividade concreta de acompanhamento de perto de diversos grupos guarani e, sobretudo, no campo da educação, o que para mim é uma preocupação constante. No meu ponto de vista, a educação indígena continua sendo muito colonial, como é o caso daquela oferecida pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Só na Bolívia essa situação mudou um pouco.

Lutas atuais - Continuo lutando, também, pelos territórios indígenas. Não se consegue avançar muito porque o problema de terras está ligado a um novo conceito de propriedade, que entende que apenas quem compra a terra pode ser seu dono. Sigo fazendo pesquisas e publicando artigos. Simultaneamente, mantenho a pesquisa científica do idioma e história indígenas. É o que tenho mantido nos últimos 20 anos, paralelamente a palestras. Hoje, o que mais me ocupa é a reedição da obra linguística do padre Antonio Ruiz de Montoya . Esse jesuíta editou cinco obras na Espanha, no período de 1639-1640. A primeira delas se chama A conquista espiritual, e é uma espécie de primeira história das missões do Paraguai. Depois, vem A arte da língua guarani, a seguir um vocabulário, depois um tesouro fraseológico e então um catecismo bilíngue. Dessa obra, já temos editados os três primeiros volumes. Penso que ainda nesse ano saia o tesouro.

Espiritualidade indígena - Do ponto de vista não apenas humano, da sabedoria indígena, mas também da religiosidade, considero que eles me educaram até religiosamente, sobretudo porque não apenas os guarani, mas os enawené-nawé são povos de grande espiritualidade. Eles dedicam muito mais horas por dia para a oração do que nós, do que qualquer um jesuíta ou mesmo os beneditinos. A comparação é sempre a favor dos índios. A verdadeira formação que tive se deu entre os índios.


Leia mais...

>> Bartomeu Melià concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Acesse na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br)

* Missão jesuíta, uma experiência de contato. Edição 348 da Revista IHU On-Line, de 25-10-2010;
* “A história de um guarani é a história de suas palavras”. Edição 331 da Revista IHU On-Line, de 31-05-2010;
* As missões jesuítico-guarani. Notícias do Dia 24-10-2010.

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