Edição 350 | 08 Novembro 2010

Animais: sujeitos de direitos

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Patrícia Fachin

Para a psicóloga Eliane Carmanim Lima, ativistas e veganos que discutem questões éticas são os porta-vozes de uma nova cultura que está emergindo

É no Brasil, um dos países que mais exporta carne para o mundo, que cresce o número de pessoas aderindo ao vegetarianismo. Segundo a socióloga e ativista pelos direitos dos animais, Eliane Carmanim Lima, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, “as pessoas não querem mais se alimentar de animais”. A opção, explica, está diretamente relacionada à ética.


Segundo a pesquisadora, a sociedade passa por uma revolução cultural no que se refere à alimentação e começa, lentamente, a romper “com esta lógica de que o homem é o centro do universo”.


Eliane Carmanim Lima
é psicóloga e pós-graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS em Sociologia e Projetos Sociais. Em 2008, criou um cadastro de vegetarianos, o Cadastro-Veg, e tem acompanhado, desde então, o avanço do vegetarianismo no país. Ela é conhecida por suas atuações como ativista pelos direitos dos animais.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O Brasil já é o segundo país em que mais cresce o vegetarianismo, ficando apenas atrás do Canadá. Como entender essa mudança em um país que é considerado um dos maiores produtores de carne?

Eliane Carmanim Lima –
80% das pessoas que estão aderindo ao vegetarianismo fazem isso por uma opção ética e não porque estão preocupadas com a saúde. As pessoas não querem mais se alimentar de animais. Apenas 20% do que se tornam vegetarianos fazem essa opção por uma questão de saúde. Os veganos, numa ponta mais radical, além de não comer carne, não consumem outros produtos de origem animal como sapatos, bolsas, roupas.
A alimentação humana não é, apenas, um ato biológico, pois está relacionada a um impulso cultural onde somos condicionados a nos alimentarmos conforme os nossos ancestrais.
Está havendo uma mudança cultural, na qual as pessoas estão refletindo sobre esse ato inconsciente. Nesse sentido, a sociedade está compreendendo qual é o significado de comer carne.


IHU On-Line - A senhora diz que estamos vivendo uma grande revolução cultural, a revolução vegetariana. Que aspectos demonstram essa revolução? Quais são as evidencias dessa revolução?

Eliane Carmanim Lima –
Há ainda uma superioridade do ser humano em relação aos animais e à natureza. A crença predominante é de que a natureza e os animais foram feitos para serem objetos do homem. O homem é tido como a medida de todas as coisas e tudo foi feito para ele. Quando falo em revolução, refiro-me no sentido de mudar essa relação com a natureza. A ideia é que não somos o que há de melhor neste planeta e os demais seres vivos precisam ser respeitados. Nesse sentido, há uma revolução que muda a característica que predomina desde que o homem é homem. Agora estamos começando a romper com esta lógica de que o homem é o centro do universo. Os ativistas e veganos que discutem a questão ética são porta-vozes dessa nova cultura que está emergindo.
A crueldade com animais é proibida desde 1934, mas, hoje, qualquer atitude que envolve animais tem uma grande repercussão. As mudanças culturais se cristalizam na legislação. Foi assim com o novo Código Civil Brasileiro. No Equador, a Constituição entende os animais e a própria natureza enquanto sujeitos de direitos. No Brasil, somente os seres humanos são sujeitos de direitos. A crueldade com o animal é proibida, ele não é propriedade de ninguém. Na Espanha, os primatas já têm esse status de sujeitos de direitos. Referimo-nos aos animais como se nós não fossemos animais. Existe uma demanda de que todos devem ser considerados animais, com os mesmos direitos. Está havendo uma demanda da aplicação destas leis.

Quando me tornei vegetariana, em Porto Alegre existiam poucos restaurantes e, hoje, existem uns 50. Isso mostra uma mudança cultural. Outro exemplo são os testes realizados com animais. De acordo com a legislação brasileira, os medicamentos ainda devem ser testados em animais. Entretanto, na embalagem de alguns produtos, por demanda dos ativistas, há a informação de que não são realizados testes com animais e de que o produto não possui origem animal. Existe um mercado que cresce aceleradamente e quer saber quais são esses produtos.

Outra prova de que há uma mudança é o fato de que as faculdades do Brasil estão acabando com o uso de animais no ensino, lentamente. Eles estão utilizando métodos substitutivos.


IHU On-Line - Qual é o perfil das pessoas que estão aderindo ao vegetarianismo?

Eliane Carmanim Lima –
Os jovens estão aderindo ao vegetarianismo, mas também é comum que filhos de pais vegetarianos façam a mesma opção. Conheço uma família em Brasília que está na quinta geração de vegetarianos. Isso é comum na Índia. Quando falamos do vegetarianismo do ponto de vista da ciência, esquecemos que existem vegetarianos na Índia, há cinco mil anos e são saldáveis. O discurso cultural mostra que estamos condicionados a não perceber que alimentos consumimos.

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