Edição 350 | 08 Novembro 2010

O significado do ato alimentar

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Graziela Wolfart e Patrícia Fachin

Para a antropóloga Maria Eunice Maciel a alimentação humana vai muito mais além da simples sustentação da vida

“Os hábitos alimentares não existem isoladamente e nem é possível entender a alimentação de um povo sem ver o todo, a circunstância de existência deste, como se revela o seu ethos particular, como é construída sua identidade”. A análise é da antropóloga Maria Eunice Maciel, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Para ela, “o que comemos, quando, com quem, em que circunstância faz parte do sistema alimentar humano. Assim, nós não simplesmente nos nutrimos ou nos alimentamos, nós comemos, uma relação em que aquilo que é ingerido tem significado para nós. Não comemos alface, comemos uma salada de alface. Sentamos numa mesa ou comemos acocorados, com talheres (e que tipo de talheres) ou com as mãos. E por aí vai. Nós nos construímos comendo não apenas biologicamente, mas também social e culturalmente”.

Graduada em Ciências Sociais e especialista em História do Rio Grande do Sul pela UFRGS, Maria Eunice Maciel é especialista, também, em Antropologia Social pela Universidade de Paris. Cursou mestrado em Antropologia Social pela UFRGS e doutorado na Universidade de Paris com a tese Le gaucho bresilien – identite culturelle dans le Sud du Bresil. De sua produção bibliográfica, destacamos O lugar comum da diferença (Porto Alegre: UFRGS, 2009) e Temas em cultura e alimentação (Aracaju: Editora da Universidade Federal de Sergipe, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como entender, antropologicamente, a cultura de uma alimentação baseada na carne?

Maria Eunice Maciel -
Nós, os humanos, somos onívoros, comemos carne e vegetais. Comemos de tudo, mas escolhemos, arbitrariamente, o que comer. Embora alguns relacionem o
consumo de carne com maior agressividade, não há nenhuma comprovação. Assim, países com grande contingente da população adepto do vegetarianismo não teriam guerras e conflitos. Mas não é isso que se observa. É só conhecer a história da Índia para ver como esta afirmação é falsa.


IHU On-Line - Em que medida a alimentação vai além das questões biológicas e relaciona-se com questões culturais e sociais?

Maria Eunice Maciel -
A alimentação humana vai muito mais além da simples sustentação da vida. Nós atribuímos significado ao ato alimentar, tornando o alimento em comida. O que comemos, quando, com quem, em que circunstância faz parte do sistema alimentar humano. Assim, nós não simplesmente nos nutrimos ou nos alimentamos, nós comemos, uma relação em que aquilo que é ingerido tem significado para nós. Não comemos alface, comemos uma salada de alface. Sentamos numa mesa ou comemos acocorados, com talheres (e que tipo de talheres) ou com as mãos. E por aí vai. Nós nos construímos comendo não apenas biologicamente, mas também social e culturalmente.


IHU On-Line - Como descreve as culturas nacionais a partir da sua alimentação?

Maria Eunice Maciel -
Existem identidades sociais que são construídas a partir de um jogo de
diferenças e semelhanças. A comida faz parte deste processo. Há comidas identitárias, associadas a um povo e relacionadas a um território (que pode ser simbólico) fazendo com que um grupo possa ser reconhecido. O fato de algumas populações adotarem uma dieta vegetariana ou onívora faz com que, culturalmente, elas sejam diferentes? Em que aspectos?
Não há nada que indique. Esta é uma afirmação que fica no campo da crença e não de dados científicos ou mesmo de uma comprovação histórica.


IHU On-Line - Os hábitos alimentares influenciam no modo de ser social das culturas orientais e ocidentais?

Maria Eunice Maciel -
Eles fazem parte de um todo maior. Os hábitos alimentares não existem isoladamente e nem é possível entender a alimentação de um povo sem ver o todo, a circunstância de existência deste, como se revela o seu ethos particular, como é (são) construída(s) sua(s) identidade(s). Aliás, "orientais" e "ocidentais" são conjuntos muito grandes. A diversidade cultural é riqueza. As relações entre as populações, as trocas, as transformações, enfim, o processo sociocultural da história destas populações pode explicar (mas é sempre uma interpretação possível) suas diferenças, mas não a alimentação em si, isoladamente.


IHU On-Line - Por que a cultura gaúcha é marcada pela presença da carne? Qual é o significado da carne para o gaúcho? O consumo desse alimento tem algum significado cultural e identitário para o gaúcho?

Maria Eunice Maciel -
Em primeiro lugar, o processo histórico de apropriação do território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul foi feito na base do gado. Primeiro com a "caça" ao gado bravio, depois com as estâncias. Carne havia em abundância, tanto que os viajantes, tal como Saint Hilaire, notaram os "hábitos carnívoros" da população. Mas é claro, sendo uma sociedade ancorada na produção de carne, estranho seria se fosse de outra forma. Mas não é a carne e sim o churrasco (veja bem, carne é o elemento, churrasco já tem todo
um significado) que identifica. Só para dar um exemplo, "churrascarias gaúchas" ou com nomes associados ao gaúcho existem por todo o Brasil e mesmo fora dele.


IHU On-Line - Que sociedade se estrutura a partir da alimentação moderna?

Maria Eunice Maciel -
Não é uma sociedade estruturada com base em um tipo de alimentação. São formas alimentares que existem na atualidade cuja maior característica é a
circulação de elementos alimentares (sejam ingredientes, sejam pratos, sejam receitas). De qualquer forma, as mudanças atuais da alimentação estão relacionadas aos novos modos e estilos de vida, às mudanças que ocorrem.


IHU On-Line - Historicamente e antropologicamente, quem é o mito fundador da alimentação brasileira?

Maria Eunice Maciel - Roberto da Matta
nos fala da fábula das três raças como uma narrativa fundamental para a sociedade brasileira. Neste sentido, na alimentação também se fala nas "influências" do branco, do negro e do índio na alimentação brasileira. Mas me parece ser mais uma forma de encobrir desigualdades (afinal o negro veio como escravo, o índio foi dizimado e o branco foi o conquistador) pelo discurso da democracia racial.



Leia mais...

>> Maria Eunice Maciel já concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* Sepé, um emblema que ultrapassa fronteiras, publicada na IHU On-Line número 334, de 21-06-2010

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