Edição 350 | 08 Novembro 2010

Missões jesuíticas do Paraguai: uma sociedade alternativa

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Patricia Fachin

Para o jornalista e historiador Tau Golin, a experiência missioneira representou uma alternativa no interior do mundo colonial aos indígenas

Segundo Tau Golin, as missões jesuíticas constituíram um bloqueio espanhol ao expansionismo lusitano, em uma aliança com o indígena. A partir das missões, criadas entre o projeto missional jesuítico e o interesse indígena, “formou-se uma sociedade alternativa ao colonialismo, apesar de sua determinação colonial. Essa sociedade de fronteira formou-se com base na ‘propriedade coletiva do povo’, mantendo igualmente os espaços de uso da família extensa e suas relações de parentesco”. De acordo com o historiador, “na guerra que pôs fim a experiência missioneira, os colonialismos ibéricos a justificaram como uma obra que criava espaços autônomos”. A entrevista foi concedida por e-mail à IHU On-Line.


Tau Golin participou do XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missionieira: território, cultura e identidade, apresentando o minicurso A guerra guaranítica. Graduado em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Tau Golin é mestre em História do Brasil, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e doutor em História, pela mesma instituição. É também mestre em navegação pela Marinha do Brasil e professor de vela pela International Sailing Federation (Federação Internacional de Vela). Atualmente, é professor na Universidade de Passo Fundo. É autor de, entre outros, A ideologia do gauchismo (4. ed. Porto Alegre: Tchê!, 1983), Por baixo do poncho: contribuição à crítica da cultura gauchesca (Porto Alegre: Tchê!, 1987) e O povo do pampa (Porto Alegre: Sulina; Passo Fundo: UPF Editora, 1999). É um dos autores do Manifesto contra o Tradicionalismo, reflexões sobre o movimento tradicionalista na sociedade gaúcha. O texto do manifesto pode ser consultado no sítio do IHU (http://bit.ly/XtDin), nas Notícias do Dia de 16-04-2007, no qual se encontra também uma entrevista sobre o tema com o jornalista Tau Golin.


Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais os principais aspectos históricos que marcaram a Província Jesuítica do Paraguai?


Tau Golin -
O projeto missioneiro consubstanciou a projeção da sociedade europeia na América colonial. Uma extensão da cristandade. Todavia, no cotidiano da redução, inserida na territorialidade vivida do indígena, povos tradicionais anímicos, a religiosidade atingiu um hibridismo típico de uma expressão de fronteira involucrada, com diversos fenômenos nos mais distintos recintos – na liturgia oficial da igreja; nas capelas das famílias extensas; nas irmandades; nos postos das estâncias, ervais e lavouras, onde, no geral, os próprios índios se encarregavam do culto, misturando-o com práticas ancestrais, elaborando um catolicismo indígena, americano (e depois, caboclo), muitas vezes prosseguindo com celebrações xamanistas com os pajés das aldeias tradicionais, que permaneceram existindo paralelamente ao projeto jesuítico-indígena. Do ponto de vista geopolítico, as Missões constituíram um bloqueio espanhol ao expansionismo lusitano, em uma aliança com o indígena, no geral ameaçado pelo mesmo inimigo, o bandeirante, cujas bandeiras e entradas aumentavam os domínios de Portugal e escravizavam especialmente o guarani agricultor, mão de obra valorizada nas lavouras.
Sendo uma sociedade formada entre o projeto missional jesuítico e o interesse indígena, com o passar do tempo, formou-se uma sociedade alternativa ao colonialismo, apesar de sua determinação colonial. Essa sociedade de fronteira formou-se com base na “propriedade coletiva do povo”, mantendo igualmente os espaços de uso da família extensa e suas relações de parentesco. Na guerra que pôs fim à experiência missioneira, os colonialismos ibéricos a justificaram como uma obra que criava espaços autônomos.

IHU On-Line - Como se deu o processo jesuítico na Província do Paraguai? Em que consistia o projeto missioneiro?


Tau Golin -
Aparentemente, consistiu num projeto catequético submetido ao interesse do rei e do papado. Entretanto, o catequizado pertencia às sociedades indígenas, com formas de poder e crenças, cujas funções estavam milenarmente constituídas. Para esses povos indígenas animistas, a existência não possuía uma divisão entre o natural e o sobrenatural do europeu. Eles também tinham seus especialistas da magia, na explicação dos fenômenos naturais, das causas e curas das doenças, da individuação da propriedade dos elementos da natureza; os intérpretes dos sonhos e dos mistérios, os guardiões da memória. Por isso, o primeiro embate dos jesuítas foi com os pajés. Entre eles havia o conflito pela representação do sagrado, da medicina e da memória. Os mártires jesuíticos surgiram justamente deste embate. Entretanto, a visão política dos morubixabas na aliança com os padres precisou afastar da estrutura da redução a figura oficial do pajé. A partir de então, as “unidades” missioneiras puderam ir surgindo, mas sempre mantendo suas multiplicidades, caracterizando-se como sociedades de fronteira: a “unidade” jesuítica, a associação de famílias extensas entre parcialidades de “etnias”, entre manutenção de relações de parentesco com famílias de outras reduções e com grupos que continuavam a tradição da aldeia; as legitimações sociais na emanação do complexo da igreja, oficinas e colégio; as formações das irmandades; a formação do cabildo, órgão de poder colonial para a administração, a justiça e a milícia, formado por um colegiado de “caciques”. Estas transversalidades fizeram das reduções sociedades de permanente negociação interna e externa.

IHU On-Line - Por que o senhor considera a Província Jesuítica do Paraguai a mais consistente alternativa social do período colonial?


Tau Golin -
Na aliança entre projeto colonial da catequese de fronteira, com o fechamento à “contaminação” colonial pela presença do povoador no mundo missioneiro, e a preservação da estrutura social e de ocupação do espaço do indígena, se potencializou uma sociedade planejada mediada por dois “coletivos”, as propriedades da corporação da igreja e a da família extensa indígena tradicional. Elevadas à unidade da redução, atingiram uma socialização totalizante que podemos denominar como “propriedade coletiva do povo”. Por outro lado, o colonialismo possuía a “propriedade do Estado”, do rei, de onde advém a classificação de bens “reiunos” – cavalhadas, estâncias, terras, edifícios públicos, etc. – e a “propriedade particular”. Porém, as propriedades estatais e particulares constituem uma unidade de organização social complementar. A redução também integrou esta totalidade. Entretanto, com o passar do tempo passou a representar uma perigosa autonomia.

IHU On-Line - Que aspectos motivaram a deflagração da Guerra Guaranítica (1753-1756)? Quais as consequências para os indígenas e como esse acontecimento reflete a realidade das comunidades atualmente?


Tau Golin -
A causa é geopolítica. Em 1750, as coroas ibéricas assinaram o Tratado de Madri  com o objetivo de organizar as fronteiras entre seus domínios, causas de guerras que exauriam Portugal e Espanha. Na América do Sul, procuraram solucionar um foco de tensão, a Colônia do Santíssimo Sacramento, à margem do Rio da Prata (atual Colônia, no Uruguai). Este reduto era um enclave português instalado em 1680, plataforma de interesses internacionais para a prata e o ouro das minas espanholas, que desciam pelas vias dos rios Paraná e Paraguai, além de praticar o comércio de diversas formas. Desde sua fundação, ocorreram guerras de repercussões internacionais, com devoluções determinadas pelos tratados, etc. A solução acordada pelos reinos foi trocar a Colônia do Sacramento por sete cidades e terras missioneiras existentes a oriente do rio Uruguai (atual Rio Grande do Sul e norte do Uruguai), que faziam parte da Província Jesuítica do Paraguai, território colonial espanhol. Inicialmente, a Companhia de Jesus procurou revogar os artigos que determinavam a permuta. Entretanto, os reinos os mantiveram e as comissões demarcatórias foram constituídas para executar o Tratado. Em 1753, marchando desde Castillos Grandes (Uruguai), quando elas chegaram a Santa Tecla, terras da estância do povo de São Miguel, a milícia indígena não permitiu a sua passagem. Os demarcadores se retiraram para a Colônia do Sacramento (portugueses) e para Buenos Aires e Arraial de Veras (espanhóis). No ano seguinte, os governadores Gomes Freire de Andrada (Rio de Janeiro) e José de Andonaegui (Buenos Aires) se reuniram em uma ilha do Rio da Prata e decidiram realizar uma campanha militar aos Sete Povos para transladar/expulsar os índios para a margem ocidental do rio Uruguai. No lugar, Portugal projetara formar a Província das Missões, com povoadores açorianos, que já estavam nos portos de Viamão (Porto Alegre), de Rio Grande e de Santa Catarina, aguardando para ocuparem seus lotes, além de paulistas, que esperavam espalhados pelo caminho de Vacaria.

IHU On-Line - Quais são as principais causas da destruição do projeto missioneiro?


Tau Golin -
A partir do levante indígena de seis povos (São Borja não participou) e o socorro posterior de outros da margem ocidental do rio Uruguai e parentes das famílias extensas rebeladas, a Guerra Guaranítica ocorreu através de duas campanhas militares, o primeiro plano de guerra executado parcialmente em 1754 e, o outro, vitorioso, em 1756. Os episódios militares são muitos, abrangendo todo o território, com combates e escaramuças em Rio Pardo, Rio Guaíba, Rio Jacuí, Rio Daymal, área do Vacacaí Mirim, Boca do Monte, Churiebi, etc. Entretanto, foi a Batalha de Caiboaté , de 10 de fevereiro de 1756, que derrotou completamente os sublevados. Com os missioneiros já derrotados, os oficiais das tropas regulares, com muito custo, inclusive com execuções, conseguiram conter a mortandade guarani. A causa principal se deveu as formações dos exércitos, em particular do espanhol, com uma maioria de “paisanos”, a soldo dos latifundiários de Santa Fé e Corrientes, e outros particulares, com base no contrato de saque feito com os generais ibéricos. A forte presença das companhias de gaudérios (gaúchos) sanguinários, formadores da bandidagem dos campos, consumou a barbárie de Caiboaté, cujas mortes em batalha e execuções depois da rendição deixaram mais de mil e quinhentos índios mortos, além de 154 prisioneiros. Poucos conseguiram fugir. Desde a origem das reduções os bandeirantes e, depois, os gaúchos foram os seus sistemáticos inimigos. Os gaúchos, grupo social que se formou e se identificou no processo de arreadas e roubos dos gados das estâncias missioneiras, sempre atacaram suas propriedades, roubaram e estupraram as mulheres indígenas. Patrocinados pelos latifundiários, na Guerra Guaranítica, a gauderiada culminou seu processo existencial de banditismo contra os missioneiros com a chacina de Caiboaté.

IHU On-Line - Por que considera a Guerra Guaranítica como o tema mais trágico da história missioneira?


Tau Golin -
Derrotados os guarani rebeldes, o exército espanhol iniciou o processo de translado, ou seja a retirada dos missioneiros (entendidos como índios “cristianizados”) do território para entregá-lo a Portugal. As parcelas se dividiram. Enquanto algumas famílias concordavam, milhares seguiam escoltadas, mas, assim que podiam retornavam às suas cidades, às estâncias e chácaras, ou refugiavam-se no mato. Outros caciques culpavam os espanhóis e jesuítas. Em 1757, o general Gomes Freire desistiu de permanecer em Santo Ângelo para receber as Missões e se retirou para Rio Pardo. Secretamente acertara com centenas de famílias guarani a doação de terras para formar aldeias em território português. Dentre elas, a mais conhecida é a Aldeia dos Anjos, origem de Gravataí.
Por fim, o Tratado de Madri se mostrou inviável e foi revogado em 1761 pelo do Pardo. Um inquérito espanhol sobre a sublevação concluiu pela culpa dos jesuítas. Assim como ocorrera no Brasil em 1759, a Companhia de Jesus foi expulsa em 1767, com a retirada dos padres até 1769. Outras ordens religiosas foram mandadas para as Missões, as quais deveriam se encarregar somente da questão religiosa. A administração passou para o Estado, através de militares/funcionários públicos. Gradativamente, a corrupção, a venda das terras indígenas para particulares, a invasão de aventureiros e a formação de latifúndios pelos militares que se converteram em estancieiros foram transformando o espaço missioneiro num povoamento colonial, com a posse da terra transferida para particulares, além da propriedade do Estado das cidades, cujos prédios indígenas, mas tarde, foram arrendados e depois vendidos. As habilidades dos missioneiros em diversos ofícios – música, marcenaria, olaria, construção, agricultura, pecuária, soldados, navegação, etc. -, os integraram na sociedade colonial, ocorrendo, a partir de então, impressionante processo de guaranização, ou indianização, da população. Paralelamente, boa parcela continuou com o sistema de famílias aldeadas, ou em acampamentos, reintegrando-se ao sistema de aldeias tradicionais. Entretanto, no geral, eram grupos intermediários entre a aldeia tradicional e a sobrevivência ao mundo colonial, vivendo em suas proximidades e em contato com ele, para o qual, aos poucos, foram convergindo e formando seus extratos subalternos.

IHU On-Line - Em que sentido a experiência de organização social missioneira dos séculos XVII e XVIII marcou as gerações futuras?


Tau Golin -
A experiência missioneira representou uma alternativa no interior do mundo colonial aos indígenas. Com a sua destruição organizacional, o indivíduo dessa sociedade indianizou o povoamento quanto ao modo de vida e a escolha posterior de acervos identitários. Quando alguém se define como missioneiro, contemporaneamente, está tomando duas heranças, em conjunto, ou de maneira separada: a da guaranização/indianização, sucedânea étnica e cultural mestiça; ou patrimonial, como ser de um espaço simbolizado pelo passado jesuítico-indígena. São aspectos do fronteirismo brasileiro, uruguaio, argentino e paraguaio.

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