Edição 345 | 27 Setembro 2010

Oswaldo Giacóia

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Márcia Junges

Paranaense de nascimento, Oswaldo Giacóia trilhou sua trajetória de vida e pesquisa no limiar entre Filosofia e Direito, áreas nas quais se graduou concomitantemente. A Filosofia cursou por paixão, e o Direito, a pedido da mãe. Professor pesquisador na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, ele é referência nos estudos de filosofia política, sobretudo no pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Casado há 30 anos com a dentista Sirlei, é pai da médica psiquiatra Rachel Cristina Ribeiro Giacóia. Quando está em São Paulo, costuma frequentar uma academia, e revela a sua torcida pelo Palmeiras. Na entrevista que concedeu após sua conferência no XI Simpósio Internacional IHU – o (des)governo biopolítico da vida humana, Giacóia analisou o cenário político brasileiro, que considera deplorável suas pesquisas acadêmicas atuais, sobre a violência, e conta por que motivo decidiu abandonar a carreira de advogado para se dedicar integralmente à Filosofia. Confira a entrevista.

Origens – Nasci no Paraná, em Ribeirão Claro, cidade pequena e linda, no Norte do estado. É um local realmente belo, cercado por montanhas, e talvez um dos poucos remanescentes sem poluição no Paranapanema. Venho de uma família de imigrantes, tanto pelo lado materno, quanto paterno. Portanto, são origens muito humildes, de bastante trabalho. Meu pai, Oswaldo Giacóia, de origem italiana, tinha onze irmãos. Minha mãe, Ana Sogayar, de origem libanesa, também descende de uma família numerosa. Não restaram vínculos com as famílias de origem de seus países. Por méritos próprios, meu pai conseguiu cursar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que hoje é a Universidade de São Paulo - USP, algo espantoso para a época, já que apenas estudantes oriundos de famílias de tradição conseguiam ingressar nessa instituição.

Direito e Filosofia - Vim para São Paulo com 14 anos. Meu programa estava mais ou menos “traçado”. Eu deveria cursar Direito, e seguir os passos do meu pai. Tenho um irmão desembargador, que trabalha no Tribunal de Justiça de São Paulo, e outro que é procurador de justiça do estado do Paraná. Assim, toda nossa família está ligada ao mundo jurídico.
Naquela época, ainda existia o curso clássico, que dava, sobretudo, uma formação sólida em humanidades. Foi nessa ocasião que ocorreu meu primeiro contato com a Filosofia. Para mim, foi uma espécie de iluminação. Por outro lado, isso causou um problema grave dentro da família, pois eu havia sido “destinado” a fazer Direito. Como, então, poderia mudar completamente de rumo? Nessa época, meu pai já havia morrido, e minha mãe ficou bastante preocupada comigo. “O que você vai fazer estudando Filosofia?”, questionou-me. Ela foi para São Paulo conversar com minha professora de Filosofia para descobrir o que ela havia feito comigo. Eu disse, então, que minha vontade era estudar Filosofia, e não Direito. Ela concordou, dizendo que a Filosofia eu cursaria para mim, enquanto o Direito eu deveria cursar “para ela”. Seu raciocínio era que, se algum dia eu precisasse me sustentar na vida, o Direito garantiria isso. Então, cursei Direito na USP e Filosofia na PUC-SP.
O período em que estudei na PUC-SP era aquele sombrio, da ditadura militar. Os professores que haviam sido cassados e exilados voltaram direto para esta universidade, sob a proteção de Dom Evaristo Arns . Como não podiam lecionar em universidades públicas, foram acolhidos pelas comunitárias, e foi assim que a PUC-SP abrigou intelectuais do porte de Florestan Fernandes , Celso Furtado , José Arthur Gianotti  e Maurício Tragtenberg . Foi um período áureo da Filosofia naquela instituição, e eu, pessoalmente, aproveitei esse momento para construir a minha formação filosófica.

Opção de vida - Advoguei por seis anos. Essa foi a fase em que mais ganhei dinheiro em toda minha vida. Durante um período em que estava sendo construída a linha Leste-Oeste do metrô de São Paulo, trabalhei junto de um amigo do meu irmão. Esse amigo é dono até hoje de um escritório de direito imobiliário. Naquela ocasião, nos concentramos nos trabalhos de desapropriações legais da linha do metrô. Ao mesmo tempo, eu tinha claro que o Direito era, para mim, em última instância, ética e filosofia do direito. Estudava os códigos, sabia operá-los mas não era o que me interessava.
Minha primeira oportunidade em Filosofia surgiu na PUC-SP, para assumir um contrato de 40 horas como assistente da minha professora, Iray Carone , por quem tenho profundo respeito e gratidão. Comecei a fazer Filosofia e nunca mais parei. Alguns meses antes de me casar, disse à minha esposa que não trabalharia mais como advogado. Nós estávamos muito bem financeiramente, e foi então que decidi me tornar professor.

Transdisciplinaridade - Mesmo no curso de Direito, eu usava todos os espaços da grade curricular para trabalhar no campo transdisciplinar com a Filosofia, e particularmente com a criminologia, com a psiquiatria forense e a medicina legal. Eram os campos que mais me interessavam, tanto que meu primeiro projeto de trabalho acadêmico foi, justamente, na área de criminologia. Àquela época havia acabado de ser lançado o livro de Michel Foucault , Vigiar e punir. Eu tinha intenção de trabalhar com direito carcerário. Fiz isso durante seis meses, mas circunstâncias totalmente alheias à minha vontade pessoal levaram-me a escrever uma tese estritamente acadêmica sobre um autor que hoje é pouco trabalhado no Brasil, Augusto Comte , e sua física social. No Rio Grande do Sul, curiosamente, sua doutrina é bem mais conhecida, e há inclusive uma capela positivista, a qual visitei com o professor Nelson Boeira , da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Como se percebe, são temas confluentes e uma tentativa de fazer uma reflexão sobre a sociologia, antigamente chamada de física social, e que foi progressivamente se encaminhando para uma reflexão sobre a ética que vem, inclusive, da minha opção cristã. Pensei, então, que fosse o caso de pensar a sério o desafio que o pensamento de Friedrich Nietzsche  representava e apresenta para o ethos e, sobretudo, para a consciência cristã.

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