Edição 345 | 27 Setembro 2010

Desejo mimético e violência: a superação através do cristianismo

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Márcia Junges

Parte inegável da natureza humana, o desejo nasce por imitação do que os outros desejam, avalia Sílvia Sampaio. A rivalidade mimética é produto do desejo, e ao “desaparecer” o objeto, o conflito é iminente. O cristianismo é a única forma de quebrar espiral da violência

O desejo é constitutivo da natureza humana, mimético, e por isso não é único ou original, mas socialmente determinado. A análise é da filósofa Sílvia Saviano Sampaio, professora assistente do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “O desejo é aquilo que o outro deseja”. E completa: “Segundo Girard, os comportamentos sociais são mimeticamente transmitidos. Aprendemos a desejar os mesmos objetos desejados por alguém que tomamos como modelo”. A rivalidade mimética é produto do desejo mimético e se converte em círculo vicioso quando o imitador “se transforma em modelo de seu modelo e assim sucessivamente, numa simetria cada vez mais abrangente”. De acordo com Sílvia, “quando o objeto desaparece, não há mais mediação entre os rivais: o conflito é iminente”. O mecanismo do bode expiatório é a canalização da violência mimética através da cultura, mas é apenas através do cristianismo, conforme as ideias de René Girard e Kierkegaard, que se pode quebrar a espiral de violência. “No cristianismo trata-se do verdadeiro Deus, uma divindade não violenta que precisa tornar-se vítima, e não o Deus violento da religião arcaica. Cristo oferece a outra face e redime seus algozes. Não busca vingança, não derrama mais sangue. É pela cruz, pelo amor, que se dá a interrupção do ciclo de violência”.

Graduada em Filosofia e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP, Sílvia é doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP com a tese A subjetividade da existência em Kierkegaard. É autora do artigo Kierkegaard e Girard: o desejo mimético (Kierkegaard no nosso tempo. São Leopoldo: Nova Harmonia, 2010), organizado por Álvaro Valls e Jasson da Silva Martins.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que é o desejo mimético ao qual se refere René Girard?

Sílvia Sampaio - No seu primeiro livro, Mensonge romantique, verité romanesque, Girard chamava a atenção para a “mentira romântica”, questionava a crença absoluta no individualismo, sobretudo em relação ao objeto do desejo. Segundo Girard, não desejamos algo ou alguém porque somos seduzidos diretamente pelo objeto. Ao contrário, desejamos esse objeto porque ele é desejado ou possuído por alguém que temos como modelo. Tal relação é, na maioria das vezes, inconsciente. O desejo faz parte da natureza humana. O desejo é mimético, ou seja, não é único ou original, é socialmente determinado, desejo aquilo que o outro deseja. As relações humanas são mediadas pela presença constitutiva de um “outro”. A verdade romanesca representa o reconhecimento de que o amor à primeira vista é sempre de segunda mão.
 
IHU On-Line - Por que é mais difícil apaziguar o desejo de violência do que desencadeá-lo?

Sílvia Sampaio - Segundo Girard, os comportamentos sociais são mimeticamente transmitidos. Aprendemos a desejar os mesmos objetos desejados por alguém que tomamos como modelo. Assim, criamos uma área potencial de conflito, já que estaremos envolvidos na disputa do mesmo objeto e, desse modo, o modelo se transformará em rival. As crises miméticas são destrutivas porque envolvem toda a comunidade e não apenas indivíduos isolados. No auge da crise, não haverá mais diferença entre sujeito e modelo, entre imitador e imitado, pois, disputando o mesmo objeto, transformaram-se todos em adversários. O desejo mimético desencadeia a rivalidade mimética, num círculo vicioso em que o imitador se transforma em modelo de seu modelo e assim sucessivamente, numa simetria cada vez mais abrangente. Esta simetria produz a duplicidade. A duplicidade, ao disseminar-se, provoca a indiferenciação, tornada possível pelo desaparecimento do objeto. No calor da rivalidade, os rivais se tornam cada vez mais indiferenciados, idênticos. Girard analisa o perigo representado pelos duplos, pelos gêmeos e pelos irmãos inimigos, exemplos de simetria e perigo de indiferenciação. A rivalidade mimética, geradora do desaparecimento das diferenças, que desemboca na violência, evidencia a crise mimética, crise de indiferenciação que irrompe quando os papéis de sujeito e modelo são reduzidos aos de rivais. Para que a mímesis se torne puramente antagonista, “o objeto precisa desaparecer”. Quando o objeto desaparece, não há mais mediação entre os rivais: o conflito é iminente. A crise mimética, acirrada, transforma-se em conflito mimético, que poderá resultar na destruição do grupo social ou da ordem cultural. Configura-se, assim, uma crise sacrificial, cuja resolução tem por objetivo a preservação do grupo social. Desse modo, os desejos e as rivalidades começam como fenômenos isolados que evoluem para “uma contaminação mútua” das ocorrências, à medida que a mímesis se torna cumulativa, passando a envolver vários membros de uma mesma comunidade.
Como a violência mimética pôde ser controlada na ausência de formas de mediação que integram o que denominamos cultura? Através da descoberta do mecanismo do bode expiatório: a violência coletiva é canalizada contra uma vítima expiatória. “Criamos rivalidade na mímesis, competindo pelo mesmo objeto, desejando os desejos do nosso modelo, o outro. Esta admiração velada do prestígio do outro, do que o outro possui, é a constatação clara de ser insuficiente. Constatação esta muito angustiante e incômoda. Já o modelo, o intermediário, não é passivo dentro deste mecanismo. Pelo contrário, faz de tudo para provocar o desejo do outro sobre seu objeto. Pois, que valor tem o objeto, senão pelo desejo de outrem? Este é o ciclo infernal do desejo. E também dos conflitos” (GIRARD, René, Entrevista à Revista CULT, n. 134).
 
IHU On-Line - O conceito de inconsciente está presente na teoria girardiana?

Sílvia Sampaio - Segundo Girard, a violência é constitutiva do ser humano. Ele enfatiza a inevitabilidade da violência mimeticamente engendrada. Trata-se de reconhecê-la, aprender a lidar com ela, dominá-la, circunscrever sua atuação, dirigi-la para um alvo aceitável para o grupo social, papel fundamental exercido pelo sacrifício que reveste diferentes roupagens nas diferentes culturas e, na maioria das vezes, pertence à esfera da religião, ao domínio do sagrado. O sistema baseado no mecanismo do bode expiatório, que assumirá todas as culpas, canalizando para si a violência dispersa na sociedade, possui uma dimensão religiosa. Seu sacrifício provocará uma catarse coletiva, restaurando a serenidade e a estabilidade anteriores à crise. Girard se refere a esse mecanismo como mecanismo do bode expiatório, mecanismo vitimador ou mecanismo mimético. Sua importância deve-se a que ele direciona a violência coletiva contra um único membro da comunidade, arbitrariamente escolhido. É um dispositivo inconsciente e eficaz para resolver conflitos, caso contrário, irromperia a guerra civil. Daí a existência de um dispositivo que permite matar coletivamente à distância, sem nenhum contato poluidor com a vítima, como ocorre quando se força alguém a jogar-se de um penhasco. Enquanto apedreja a vítima, a comunidade toda está empurrando-a até que decida saltar do penhasco “por si mesma”. Nessa morte todos tomam parte, mas ninguém é responsável por ela. Sobretudo, não se toca a vítima.

Em Um longo Argumento do Princípio ao Fim (Diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. Trad. de Bluma Waddington Vilar. Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, p. 204), Girard admite que o conceito de inconsciente não é tão estranho à sua teoria e que evitara usar o conceito de inconsciente em Coisas ocultas desde a fundação do mundo, para que não fosse aproximado de Freud. Assinala, então, que o inconsciente freudiano está “repleto de violência” e que nas suas últimas obras como Moisés e o monoteísmo, Freud oferece “riquíssimo material para a teoria mimética”. Girard acredita que o inconsciente é coletivo. “O único ponto correto na teoria de Jung consiste na postulação de um inconsciente coletivo, porém num sentido bem diverso do que postula a teoria mimética”.

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