Edição 333 | 14 Junho 2010

Derrida e o pensamento da desconstrução

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Márcia Junges

Partindo da filosofia de Jacques Derrida, Paulo César Duque Estrada debate a questão do sujeito, e explica que a desconstrução é o pensamento que busca a origem e os limites para a pergunta “o que é?”

De acordo com Paulo César Duque Estrada, “a desconstrução consiste em um pensamento sempre comprometido em pensar a origem e os limites da questão ‘o que é?’”. E completa: “A desconstrução nos convida a realizar a heterogeneidade que habita toda identidade”.  Recuperando ideias de Jacques Derrida, acentua que, para esse filósofo, “nada existe em si mesmo, “enquanto tal”, como um átomo indivisível anterior às referências que possam ser feitas a ele”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Duque Estrada é o conferencista de 17-06-2010 do Ciclo de Estudos Filosofias da Diferença – Pré-Evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana, com o tema Derrida e o pensamento da desconstrução. A programação completa do evento pode ser conferida em http://migre.me/OK1L. A apresentação será feita a partir de uma problemática específica, a questão do sujeito, ou seja, como fica o sujeito no pensamento de Derrida, qual o seu lugar, se é que ele tem algum ou, antes, se ele foi ultrapassado, eliminado. Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), é mestre e doutor em Filosofia. O mestrado foi realizado na PUC-Rio, e o doutorado no Boston College, nos Estados Unidos. É pós-doutor pela New School for Social Reserach, também nos EUA. Atualmente, leciona no departamento de Filosofia da PUC-Rio e é pró-reitor de pós-graduação e pesquisa dessa instituição. Organizou as obras Espectros de Derrida (Rio de Janeiro: NAU/PUC-Rio, 2008), Desconstrução e Ética: ecos de Jacques Derrida (São Paulo: Loyola/PUC-Rio, 2004) e Às Margens: a propósito de Derrida (São Paulo: Loyola, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que aspectos o pensamento de Derrida  é uma filosofia da diferença?

Paulo César Duque Estrada - O tema da diferença em Derrida encontra-se intimamente relacionado à sua tentativa de viabilizar um pensamento para além de uma grande ilusão que ele chama, com um termo genérico, de “metafísica da presença”. Trata-se, na verdade, de um pressuposto - metafísico por excelência, mas que não comanda apenas os discursos filosóficos - em relação ao qual Derrida nos convida a problematizar. Numa palavra, o pressuposto ilusório de um significado existindo em si mesmo, independentemente da rede referencial de significantes que venha a se referir a ele. Como se o significado pré-existisse à referência que um determinado discurso venha a fazer a ele. O tema da diferença encontra aqui a sua raiz. Segundo Derrida, nada existe em si mesmo, “enquanto tal”, como um átomo indivisível anterior às referências que possam ser feitas a ele. 

IHU On-Line - O que podemos compreender por pensamento da desconstrução?

Paulo César Duque Estrada - Seguramente não se trata de um método, o “método desconstrutivo” como às vezes se ouve. Não se trata também de uma teoria previamente construída sobre o ser, as coisas em geral, o homem, a razão, a história etc. O trabalho de pensamento, quando se fala em “pensamento da desconstrução”, nada tem a ver com a subordinação do que é pensado a uma teoria prévia. Trata-se, antes, de um trabalho de pensamento que procura investigar os limites de toda teorização e, portanto, de toda pretensão de totalização que se encontra operante em um discurso. O próprio Derrida diz em algum lugar que a desconstrução consiste em um pensamento sempre comprometido em pensar a origem e os limites da questão “o que é?”.

IHU On-Line - Por que você considera ético o pensamento desse filósofo?

Paulo César Duque Estrada - Antes de mais nada, uma observação sobre a palavra “ética”. Em relação ao pensamento de Derrida, ele tem um emprego muito específico, e o próprio Derrida deixa em aberto se, posteriormente, se deveria buscar alguma outra palavra para substituí-la. De qualquer modo, a palavra “ética” que pode qualificar o pensamento derridiano aponta para o fato absolutamente originário da abertura ao outro. Isto já se pode entender desde os textos considerados mais teóricos como Gramatologia (São Paulo: Perspectiva, 1973) por exemplo; algo que eu antecipei na resposta à primeira pergunta: nada existe que não seja em relação, no âmbito de uma estrutura referencial, etc. “Ética” se refere aqui a esta radical abertura ao outro. Coloco o termo entre aspas porque, de fato, esta abertura ao outro diz respeito a tudo, não se limitando, portanto, ao homem. De qualquer modo, por se caracterizar como um pensamento comprometido com uma vigilância, que se quer permanente e incondicional, contra as inumeráveis formas de denegação desta abertura ao outro, ou ao que é outro ou de outra ordem, pode-se lançar mão da palavra “ética”, contanto que se deixe claro o sentido específico de seu emprego aqui.

IHU On-Line - Pode-se falar de uma “virada ética” em seus escritos, por quê?

Paulo César Duque Estrada - Como disse acima, por ser atravessado, desde o início, pela experiência da alteridade, isto é, da abertura de tudo ao que é outro, o pensamento de Derrida é, desde o seu início, marcado por uma atitude, uma postura, que poderíamos entender como sendo da ordem de uma ética radical, se podemos dizer assim. A chamada “virada ética” pode, contudo, cumprir uma função pedagógica quando se pretende buscar uma visão de conjunto da obra de Derrida já que, num determinado momento, os seus textos passam, com mais frequência, a se voltar para temas mais rapidamente reconhecidos como de natureza ético-política; por exemplo, o feminismo, a pena de morte, o direito internacional, o colonialismo, a globalização, o racismo, a Universidade etc. Todos estes temas são, no entanto, tratados em absoluta conformidade com o que se lê nos seus textos considerados mais teóricos.

IHU On-Line - E o que seria uma ética da desconstrução?

Paulo César Duque Estrada - Não existe uma teoria ética da desconstrução previamente construída. A “ética da desconstrução” só existe como um procedimento, uma postura de pensamento comprometida em responder às investidas dogmáticas de toda ordem que excluem ou impedem a experiência do outro que, como uma sombra, acompanha os discursos do “mestre” ou do “colono”, das mais refinadas hermenêuticas ou da brutalidade pura e simples, a sugerir, com a fragilidade de um silencioso “talvez”, que tudo poderia ser de outra ordem.

IHU On-Line - Em que sentido este tipo de pensamento é característico da pós-modernidade?

Paulo César Duque Estrada - Derrida nunca aceitou o selo de filósofo “pós-moderno”. Contudo, se, por pós-moderno, entendemos a retirada de cena de qualquer fundamento como centro do pensamento, como por exemplo “o sujeito”, que será o ponto de referência da minha apresentação, então, nesse caso, a desconstrução estaria dentro de uma configuração pós-moderna. Se, contudo, o termo “pós-moderno” apontar para uma ideia de que algo ficou em definitivo para trás, superado, terminado, liquidado, então o termo nada tem a ver com a desconstrução.

IHU On-Line - De que forma a desconstrução funciona como um encorajamento à pluralidade e à alteridade?

Paulo César Duque Estrada - Derrida não é um filósofo da pluralidade. Pluralidade significa uma coexistência de inúmeras unidades atômicas, auto-idênticas, configurando o que ele mesmo chamou de inumeráveis células narcísicas. A própria ideia de alteridade impede que se pense desta forma. Se não existe o simples, o indivizível, o “enquanto tal”, é porque tudo, radicalmente tudo, só existe na relação com o outro. Isto significa que toda identidade é diferente de si mesma; uma cultura, uma pessoa, uma língua, uma identidade de qualquer tipo, é sempre e já diferente de si mesma. Neste sentido, Derrida não é um filósofo da pluralidade, mas sim da heterogeneidade. O termo “alteridade” vai de par com a heterogeneidade, e não com a pluralidade que, em verdade, insiste numa proliferação de estruturas fixas e auto-idênticas. A desconstrução nos convida a realizar a heterogeneidade que habita toda identidade. Trata-se, portanto, de uma defesa da heterogeneidade, não da pluralidade.

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é a influência de Lévinas na obra de Derrida?

Paulo César Duque Estrada - Lévinas  constrói, principalmente através de uma longa meditação sobre Heidegger , um caminho de afastamento da ontologia, fundada por uma lógica do “mesmo”, para a ética, que seria fundada pela lógica do “outro”. Permito-me, quanto a isto, fazer uma referência ao meu artigo “A questão da alteridade na recepção levinasiana de Heidegger” – Veritas. Porto Alegre. Vol. 51, n.2, 2006. Este movimento do pensamento levinasiano teve um importante impacto no pensamento de Derrida que, dentre outras coisas, irá radicalizar a experiência levinasiana da alteridade, estendendo-a ao “estar em relação com” em geral.

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