Edição 333 | 14 Junho 2010

IHU Repórter - Mario Corso

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Graziela Wolfart

Na edição desta semana da IHU On-Line, entrevistamos o psicanalista e professor do Curso de Formação de Escritores da Unisinos, Mario Corso. Ao relatar os aspectos mais importantes da sua trajetória pessoal e profissional, Corso confessa que a irreverência e o deboche são características pessoais que fazem parte dele. “Isso já me custou muito caro. Minha dificuldade é provar para as pessoas que, mesmo sendo irreverente e debochado, sou muito sério. E isso é difícil de transmitir”, explica. Saiba mais sobre o pai de Laura e Júlia

 

Origens – Nasci em uma cidade onde nunca morei, Passo Fundo. A família da minha mãe é de lá. Morávamos em Porto Alegre quando eu nasci, e só estávamos de passagem por lá. O que não me faz um passofundense menos orgulhoso de sua terra! Por questões profissionais dos meus pais, nos mudamos para São Sebastião do Caí e depois para Carazinho. Então, fui viver com meus avós em Santa Maria, e voltei a morar em Porto Alegre. Circulei muito pelo interior do estado. Passava férias com meus tios em Ijuí. Eu sou meio cigano, mas sempre dentro do estado, por isso tenho uma identidade muito forte com o Rio Grande do Sul. Sou gaúcho de várias cidades. Meu pai foi professor do estado, depois entrou no Senai, terminando sua vida profissional como diretor de escolas do Senai. Minha mãe é bioquímica-farmacêutica. Sou o filho mais velho entre três. Meu irmão é físico e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Minha irmã é professora da rede pública de ensino municipal de Joinville.

Formação – Minha história de formação é triste. Minha melhor experiência escolar foi no primário, em uma escola lassalista, em Carazinho. Depois, peguei a crise do ensino nas escolas privadas, que eram religiosas e sofriam com a crise vocacional dos professores que saiam, e entravam outros de fora, que não eram mais os irmãos e irmãs, no caso dos colégios de freira. Eu não tenho boas recordações do ginásio e nem do científico. Foram trajetórias negativas, porque não foram em bons momentos dessas escolas. Isso é importante, porque me marcou e criou em mim o vício problemático do autodidatismo. O que me ajudou é que eu sempre fui um leitor onívoro, desde pequeno lia muito, mas tinha que descobrir sozinho os bons livros. Quando fui cursar a faculdade, em Porto Alegre, entrei em duas universidades. Uma boa, a PUCRS, onde estudei dois anos de Engenharia como um dos piores alunos, engenharia não era a minha praia. Fui estudar Psicologia na UFRGS e me achei. Era na época da ditadura, uma escola jovem, com poucos professores dentro da área de humanas, e, justamente esses, que iam me formar, foram cassados. Foi de novo uma experiência negativa. Hoje, a escola de Psicologia da UFRGS é muito boa. Eu é que tive muito azar do momento do curso. Sou muito grato à formação política que o movimento estudantil me deu, que juntava muita gente inteligente. A luta contra a ditadura criou isso de bom: havia muita gente pensando diferente e ensinando uns aos outros. O ensino oficial me dava menos marcas do que as que eu encontrava fora. Só encontrei uma alteridade legítima quando comecei a estudar Psicanálise e iniciei minha análise. Depois de me formar em Psicologia na UFRGS, segui com a formação psicanalítica. Também decidi estudar Antropologia, matéria pela qual sou apaixonado, queria fazer um mestrado, mas não fiz. Creio que as más experiências com o ensino como um todo me travaram. Isso é o que hoje mais me arrependo. Mas virou meu hobby intelectual, e acabou gerando a produção de um livro sobre folclore brasileiro, intitulado Monstruário: inventário de entidades imaginárias e de mitos brasileiros (2ª ed. Porto Alegre, Tomo Editorial, 2004), que é um dicionário de seres míticos do folclore nacional. E também foi um jeito de me encontrar um pouco com a minha brasilidade. Paralelamente, a APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre) foi fundada, e eu tive um papel nisso que me absorveu bastante e me distanciei da vida acadêmica. A APPOA tem um curso de formação da qual sempre fui professor.

Torneiro mecânico – Eu poderia ter sido presidente da república, porque fiz a mesma escola que o presidente Lula. Sou torneiro mecânico formado pelo Senai. E costumo dizer que tenho duas mãos direitas. Tenho uma habilidade manual natural. Meu pai sempre foi ligado ao Senai e ele achava que eu deveria ter uma profissão prática também, caso tudo desse errado na vida. Foi assim meu primeiro contato com a classe trabalhadora. Um menino criado em escola particular encontrou ali outros de trajetória humilde, que faziam aquele curso porque era o seu destino, e que não iriam fazer faculdade. Enquanto que, para mim, era uma espécie de hobby, ou uma segunda questão para desenvolver uma capacidade motora que sempre tive. Foi bem importante ter colegas da classe operária e frequentar esta escola, que me deu outra perspectiva de vida. Foi algo que me ensinou muito mais do que qualquer sala de aula.

Trabalho infantil – Minha mãe tinha um laboratório. Em função da minha habilidade com as mãos, ela descobriu que quem menos quebrava as coisas lá dentro era eu. Então, trabalhei muitos anos no laboratório dela. Quando as pessoas falam de forma crítica em relação ao trabalho infantil, eu sempre acho estranho, porque eu trabalhei. Minha função era lavar e esterilizar toda a vidraria usada durante o dia. Todo mundo nasce com algum dom na vida. O meu dom é lavar pratos e coisas miúdas sem quebrar. Eu trabalhava várias horas por dia, não era brincadeira. Mas foi muito interessante, porque eu era pequeno e adquiri uma visão do mundo fantástica. A cidade passava por dentro do laboratório. Dava para conhecer uma cidade inteira dali. Aprendi um bocado. É preciso pensar bem antes de dizer que crianças não podem trabalhar. Eu fui uma criança que trabalhei. E só cresci com isso. Não vejo que eu tenha uma infância ou uma adolescência perdida. Eu estudava, brincava e trabalhava. Tinha tempo para tudo. Era uma empresa familiar, eu nem ganhava nada. Eu ajudava, a gente pegava junto, em família. Eu era voluntário e me achava importante ajudando. É a exploração do trabalho que faz mal para as pessoas e especialmente para as crianças, não a experiência de trabalhar. Para mim, um dos dilemas da educação hoje é a falta de experiências concretas, tudo é passivo, as crianças não fazem coisas, apenas estudam sobre elas. Uma das razões do sucesso da Internet é que ali elas podem ser ativas e protagonistas de coisas que na vida não são.

Família – Conheci a Diana, minha esposa, na faculdade, no curso de Psicologia. Começamos a namorar e, anos mais tarde, fomos morar juntos. Só casamos, no papel, um bom tempo depois. Após alguns anos, tivemos duas filhas: a Laura, que tem 21 anos, e estuda Psicologia na UFRGS; e a Júlia, que está se preparando para fazer vestibular para Jornalismo, ela gosta de escrever.

Psicanálise – O mundo mais do que nunca precisa de psicanalistas. Está todo mundo completamente doido. A Psicanálise tem alguns princípios, mas está em mutação constante, porque o homem tem mudado muito neste último século. O homem para o qual a Psicanálise nasceu não existe mais. Os tipos de neuroses e doenças mentais mudaram muito. A Psicanálise nunca foi bem aceita e bem-vinda em lugar nenhum, porque ela não é uma ciência. A ciência acredita em uma objetividade possível, e a Psicanálise, não. Ela sempre acha que o investigador deforma o objeto. Não existe observador neutro. A Psicanálise segue dizendo que a sexualidade tem um papel muito preponderante na formação da subjetividade, e o homem comum não quer acreditar na força da sexualidade e do inconsciente. Ela nunca será popular, pois questiona as pessoas de tal maneira que sempre desassossega o outro.

O ser humano e a morte – Todo mundo é contra o crack. Ficar mobilizado contra o crack é ótimo. Só que a campanha é completamente equivocada. Ela erotiza a questão da droga, dando a ela uma importância que não tem, é um exagero. A mobilização pelo medo não tem eficácia. Nas carteiras de cigarro, hoje, há sempre a estampa de uma doença, tentando ligar o fumo à morte. Mas as pessoas fumam porque mata! É justamente isso. Outra coisa que a Psicanálise tem a dizer e que ninguém entende é a função de morte no ser humano. Tem um pedaço da gente que está sempre querendo destruir, matar e se matar. Isso faz parte de nós, não gostaríamos que fosse assim, mas é. Assustar as pessoas com a morte é burrice, porque isso vai fazer com que elas fumem mais ainda. Acreditar que o exercício de educação na consciência vai conseguir reprimir coisas inconscientes é uma grande ilusão.   

Trabalho – Quando me formei, o meu primeiro emprego foi no sistema judiciário, trabalhava como perito criminal, na Penitenciária Estadual do Jacuí. Enquanto eu era estudante, eu traduzia livros do espanhol ao português. A Psicanálise argentina era importante naquela época, e muitos livros vinham da Argentina. Diana, minha esposa, é uruguaia. A língua materna dela é o espanhol, e nós dominávamos o vocabulário. Traduzimos muito para a Editora Artmed. Lá, eu fazia revisão de texto, revisão técnica como psicanalista, e depois escolha de títulos. Então, publiquei um livro pela editora, que é Fadas no Divã (Porto Alegre: Artmed, 2006). Hoje atendo meus pacientes no meu consultório particular, onde trabalho com minha esposa.

Autor – Freud e Levi-Strauss.

Livro – História de Heródoto.

Filme – Os sete samurais, de Kurosawa.

Nas horas livres – Cuido dos meus cactos, tenho uma paixão por eles.

Sonho – Eu tinha, mas quebrou! Será que ainda tenho chance de ser centroavante do Inter?!

Unisinos – Um lugar aberto, de muita circulação de pessoas e de ideias. Gosto muito do campus, da parte física, do ambiente da universidade. 

Instituto Humanitas Unisinos – O que a universidade pode oferecer para a sociedade? Um núcleo de pessoas pensantes para refletir sobre o seu tempo. O saber não está dado. O mundo muda muito rápido. E o papel central de uma universidade não é só formar pessoas, é formar um pólo de circulação de ideias. E é isso o que o IHU faz. Ele é o reflexo da preocupação da Unisinos com a formação humanística das pessoas.

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