Edição 250 | 10 Março 2008

Crise de crescimento da democracia: “Todos somos livres, mas já não temos mais nenhum poder coletivo”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Patricia Fachin

Para o sociólogo francês Marcel Gauchet, “a religião não tem mais a função de dar ordens à coletividade”

A religião vive um momento inédito, comenta Marcel Gauchet, em entrevista exclusiva à IHU On-Line, por e-mail. Essa mudança de paradigma indica, segundo o sociólogo, “uma renovação completa da mensagem cristã, inclusive no plano da teologia fundamental”. 

Ao falar em transformações, ele é cuidadoso e garante que o cristianismo “não pode ser baseado numa autonomia”. A religião precisa, ainda, estar vinculada integralmente a uma heteronomia. Para ele, o futuro do novo cristianismo está no “diálogo” entre uma posição aceita e “uma autonomia limitada”. Isso ocorre, explica, porque a “operação moderna consistiu em separar duas coisas que estavam unidas”.  E acrescenta: “creio que os cristãos estão em condições de abandonar o discurso incompreensível sobre o mundo moderno, que eles mantiveram por tanto tempo”. Assim, finaliza argumentando que “os cristãos estão na democracia e devem trabalhar pela mesma razão, como os não-cristãos, na definição de uma organização que resulte unicamente da vontade das pessoas”.

Gauchet escreveu, entre outros livros, Le desenchantement du monde (Paris: Gallimard, 1985), La revolution des poivoirs (Paris: Gallimard, 1995) e La relation dans la democratie (Paris: Gallimard, 1998).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Se a democracia é a forma política da autonomia, não estaríamos politicamente enredados numa concepção individualista e hedonista de poder, tomando em consideração a configuração atual da autonomia nas sociedades contemporâneas? Como superar esse impasse?
Marcel Gauchet
- A autonomia não é um estado que já estaria realizado, nem mesmo um ideal fixado uma vez por todas, mas um percurso que está longe de terminar. É claro, com efeito, que nós estamos num momento difícil deste percurso. Nele, temos a impressão de voltar as costas à autonomia em nome dela própria. É o que ocorre com o individualismo exacerbado que você evoca e apela para a autonomia das pessoas, mas acaba, na prática, na impotência coletiva. Acredito que somos livres, mas já não temos mais nenhum poder coletivo, e vejo esta situação como uma crise de crescimento da democracia. De um lado, nós adquirimos novos meios para a autonomia. Mas, do outro lado, não temos o domínio desses meios, ou seja, não sabemos servir-nos deles. A autonomia moderna consiste, em primeiro lugar, em três vetores práticos: uma organização do político (o Estado, para simplificar, um princípio de legitimidade), o indivíduo de direito (uma organização das comunidades humanas no tempo) e a orientação histórica para o futuro. Tais vetores não funcionam isoladamente:  são problemas, e não soluções. Eles não cessam de se desenvolver e de ampliar suas expressões. É por isso que o mundo da autonomia é tão difícil de ser vivido e administrado, pois nos surpreende e nos ultrapassa periodicamente. Isso não é um impasse irremediável. Temos os meios para sair dele nas próximas décadas, mas isso demandará um tempo longo, pois é preciso raciocinar neste terreno, o que supõe começar pela análise da situação com instrumentos intelectuais adequados, longe das velhas leituras que nos escondem a realidade.

IHU On-Line - O que seria o “cristianismo do mundo novo” ao qual o senhor se refere? Não é contraditório imaginar um cristianismo baseado na autonomia e no individualismo que lhe é intrínseco?
Marcel Gauchet
- O cristianismo do novo mundo se redefine em função de a religião não ter mais a responsabilidade de dar ordens à coletividade, ou seja, ela é um componente entre outros de sua ordem. Os cristãos estão na democracia e devem trabalhar pela mesma razão, como os não-cristãos, na definição de uma organização que resulte unicamente da vontade das pessoas.
Esta é uma situação totalmente inédita para a religião, que não pode deixar de ter conseqüências para sua mensagem e para seu significado. Eu creio que ela é potencialmente a fonte de uma renovação completa da mensagem cristã, inclusive no plano da teologia fundamental. Este cristianismo não pode ser “baseado numa autonomia”: continua fundado numa heteronomia, que é a da Revelação. Ou seja, uma heteronomia aceita pelo indivíduo, só que desta vez de forma pessoal, como manifestação eminente da autonomia, dando sentido a uma heteronomia da Revelação. O futuro do cristianismo está no diálogo de uma heteronomia aceita e de uma autonomia limitada.

IHU On-Line - O senhor diz que haverá um novo papel político para o cristianismo, um civismo cristão. É possível desenvolver um pouco mais o que o senhor entende por isso? A sua proposta de um civismo cristão seria a concretização da afirmação nietzscheana de que a democracia é herdeira direta do pensamento judaico-cristão pela extirpação das diferenças?
Marcel Gauchet
- Para falar de civismo cristão, é preciso começar por clarificar o que foi o não-civismo cristão. Uma religião do Deus do além e da salvação impele naturalmente a certo desprezo ou a certa indiferença pela ordem deste mundo, embora se saiba que ela é necessária. A doutrina não é considerada decisiva do ponto de vista da salvação. Não se reflete tanto sobre ela. Entretanto, ela é aceita dessa maneira, e nos acomodamos facilmente aos poderes estabelecidos. É verdade que, de tempos em tempos, surgem correntes que apelam para a aplicação estrita do Evangelho. Elas, de fato, não são mais cívicas, pois só querem enxergar o conteúdo de sua fé, sem considerar as imposições e as necessidades próprias do governo da cidade dos homens.

Estas atitudes não são mais defensáveis. Torna-se obrigatório aos cristãos envolver-se com a coisa pública por ela mesma, na igualdade com os não-cristãos e de maneira a poderem se fazer compreender por eles. Este é um parâmetro essencial: na democracia contemporânea, um cristão em política deve procurar o ponto de convergência com o não-cristão, o qual só considera as necessidades terrestres da cidade dos homens. Isso requer que se reconsidere o valor da vida neste mundo, do ponto de vista de uma visão religiosa. Qual é o sentido da existência em sociedade e o da história por meio da qual se constrói o mundo humano? Esses são enormes canteiros de obras para a reflexão cristã.

Vocês vêem que este programa não guarda muito vínculo com a remoção das diferenças. Seria antes o contrário: ele é feito para lhes dar relevo e importância.

IHU On-Line - O deicídio cometido pelo homem moderno já foi superado? O que foi colocado no lugar de Deus?
Marcel Gauchet
- Não houve deicídio moderno. A operação moderna consistiu em separar duas coisas que estavam unidas, e não colocar uma no lugar da outra. Existe o domínio de Deus e existe o domínio do homem. Isto se inscreve no direito, na linha da inspiração cristã original. Eu creio que os cristãos estão em condições de percebê-lo e de abandonar o discurso incompreensível sobre o mundo moderno, que eles mantiveram por tanto tempo. A vocação do cristianismo é a de se reconciliar com o mundo moderno, o que não quer dizer que ele seja tomado como tal, como se nele não houvesse nada a ser mudado.

IHU On-Line - Política e religião são interdependentes? Por quê?
Marcel Gauchet
- Política e religião não são feitas para se ignorar. Todo o problema é encontrar a boa maneira de aplicá-las uma à outra. Estamos vivendo uma grande transformação, relativa à definição de suas relações. A religião não pode dar ordens ao político, o qual, por sua vez, também não pode dar ordens ao religioso. E, no entanto, trata-se de fazê-los agir conjuntamente. Quando se fala de separação, facilitam-se as coisas, mas também se esconde boa parte da realidade. O político tem necessidade da religião para lhe dar sentido, mesmo que não possa obedecer à sua lei. A religião não pode se desinteressar do político, mesmo que ela se sinta tentada, quando ela não mais o considera.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a consolidação da democracia na Europa e também no Terceiro Mundo, a partir de sua constatação de que esse sistema político não é “eterno”, mas está em constante mutação e construção?
Marcel Gauchet
- Eu creio que os problemas da democracia na Europa e no Terceiro Mundo são bastante diferentes. Eu até ousaria dizer que eles é mais fácil visualizá-los no sul do que no norte, agora que o problema de fundo da legitimidade democrática está regulamentado. Já não há outro possível; isso se tornou claro para todo o mundo. A partir disso, trata-se de adequar as instituições correspondentes. Se a situação econômica não é demasiado desfavorável, isso poderá ocorrer muito rapidamente.

Na Europa, o problema é outro. Não se trata de consolidar as instituições democráticas, que são sólidas e ninguém as contesta. O problema é de lhes restituir uma alma, adequando-as à configuração histórica surgida no decurso das últimas três décadas. É uma tarefa bem mais difícil, que requer imaginação – não sabemos para onde vamos – e grandes esforços de reflexão. Pode-se perguntar se os europeus são capazes disso. Muitos duvidam. Eu continuo confiante, mas estou consciente de que isso exigirá tempo e, sem dúvida, claro, algumas provas em condições de lembrar a necessidade do esforço.

IHU On-Line - Como o senhor acolheu os recentes discursos do presidente francês sobre o papel da religião nas democracias modernas? Como analisa o debate que suscitaram?
Marcel Gauchet
- Os discursos de Sarkozy  partem de uma constatação correta, que ele já expusera há alguns anos, em seu livro sobre as religiões. Para o presidente francês, as balizas da laicidade mudaram, e as religiões adquiriram, no espaço público, uma legitimidade que os governos devem reconhecer. Marcou, desse modo, um ponto com esta análise em relação a uma esquerda francesa encerrada num velho discurso.
A partir disso, ele franqueou uma etapa a mais em seus recentes propósitos e, desta vez, querendo reforçar sua vantagem, parece-me que ele foi longe demais. Isso ocorre com freqüência com os homens políticos! Sarkozy, privilegiando as opções religiosas em relação às opções laicas, colocou-se numa situação impossível em relação a uma sociedade francesa na qual os católicos praticantes são atualmente uma minoria. Não é dessa maneira que se raciocina, principalmente quando nos preocupamos em garantir lugar às opções religiosas na democracia. Tudo o que eu espero é que esses discursos desastrados e importunos não nos conduzam para trás, a polêmicas estéreis, das quais estávamos a ponto de sair.

Leia mais...

Sobre o pensamento de Gauchet, o sítio do IHU publicou os seguintes artigos e entrevistas, que podem ser acessados através da nossa página eletrônica:

“Os direitos individuais paralisam a democracia”. Artigo de Marcel Gauchet

“Estamos num momento tanto de invenção religiosa como de saída da religião”. Entrevista com Marcel Gauchet

“A França é um país profundamente deprimido”. Artigo de Marcel Gauchet

Os franceses ainda acreditam na política e no Estado. Entrevista com Marcel Gauchet

 

Últimas edições

  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição
  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição