Edição 250 | 10 Março 2008

“O que engendra a violência é a pobreza absoluta verificada nas periferias brasileiras”

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IHU Online

Marcus Mello aponta a educação como solução para a desigualdade social no país

Ao mesmo tempo em que gera revolta, a violência e a desigualdade social ganham a atenção do público. Este contraste, segundo o crítico de cinema Marcus Mello, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, é resultado de uma cultura midiática alicerçada no contexto social desfavorável. “O culto à violência em nossa sociedade já começa a ser incentivado desde muito cedo. Basta ligar a televisão e observar os desenhos destinados ao público infantil, quase todos de uma violência extrema”, destaca. Na visão dele, a origem da violência está diretamente ligada à desigualdade social, e um dos caminhos capazes de conduzir a sociedade à paz é a educação. “Acredito que é possível sim acabar com a desigualdade social, mas para isso não precisamos de ditaduras”, reforça Marcus Mello, que irá debater o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, no dia 11 de março, o qual integra a programação do evento Páscoa 2008: um grito contra a violência, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos –IHU.

Marcus Mello é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS). Crítico de cinema, é editor da revista Teorema e colaborador das revistas Aplauso e Cinética. Em 2000, assumiu a função de programador da Sala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, primeiro cinema municipal de Porto Alegre, mantido pela Secretaria Municipal da Cultura.
Também organizou os livros Cinema Falado – 5 Anos de seminários de cinema em Porto Alegre (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2001), Sublime obsessão (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2003), de Tuio Becker, e Trajetórias do cinema moderno e outros textos (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro; A Nação, 2007), de Enéas de Souza.

IHU On-Line - Cidade de Deus é o retrato de uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, nos anos 1980, e leva às telas uma fria e escura realidade que cerca muitas famílias. Ao que se atribuiu o sucesso de um filme como este? Por que a violência é sucesso de público nas bilheterias?
Marcus Mello
- Sem dúvida, o sucesso de Cidade de Deus, inclusive em nível internacional, foi uma grande surpresa. Não apenas pelo fato de que havia um preconceito histórico dos espectadores brasileiros em relação ao nosso cinema, mas por se tratar de um filme com um elenco de atores praticamente desconhecidos, que aborda um tema a princípio pouco atraente, assinado por um diretor com uma filmografia pequena e até então de pouca repercussão. Porém, a inegável competência com que este projeto foi executado, incluindo aí um longo período de pré-produção, no qual o seu elenco de jovens atores foi exaustivamente ensaiado, até o esmero em relação a aspectos técnicos,como a fotografia, o som e a montagem, acabou seduzindo o público de imediato. Claro que não podemos esquecer aí o papel poderoso da Rede Globo, cujo apoio ao filme garantiu-lhe uma ampla e massiva divulgação à época do seu lançamento. É importante, no entanto, notar que o culto à violência em nossa sociedade já começa a ser incentivado desde muito cedo. Basta ligar a televisão e observar os desenhos destinados ao público infantil, quase todos de uma violência extrema.
 
IHU On-Line - Embora a abordagem do filme seja sobre o tráfico de drogas, principal responsável pela violência na periferia, nas áreas em que o poder aquisitivo é maior, esta realidade também está presente. Neste sentido, o que causa a violência, tendo em vista que as dificuldades sociais, a princípio, só atingem as favelas?
Marcus Mello
- A origem da violência está diretamente ligada à desigualdade social. O que engendra a violência é a pobreza absoluta verificada nas periferias brasileiras. A situação de miséria numa favela é algo desumano, difícil mesmo de ser imaginado por quem desconhece essa realidade. A pobreza brutaliza os indivíduos de forma muito cruel, o que origina as situações de barbárie com as quais temos convivido cada vez mais no Brasil.
 
IHU On-Line - A perspectiva de vida dos personagens centrais da trama (Buscapé e Zé Pequeno) é o que mais chama a atenção no filme. O primeiro cresceu na favela, mas seguiu com os estudos e tinha o sonho de ser repórter fotográfico, e o segundo entrou para o mundo do crime. É a falta de oportunidade que leva as pessoas para o tráfico ou é uma escolha ter esta vida, tendo em vista que a classe média também se insere no contexto do tráfico?
Marcus Mello
- Sem dúvida. Um jovem pobre, sem estudo, criado desde o berço em meio à miséria, em lares freqüentemente marcados pela ausência paterna ou materna, muitas vezes negro, já está, a priori, excluído do mercado de trabalho. O tráfico acaba sendo então quase que a única possibilidade concreta de “ascensão social” para essas pessoas. A contravenção é a forma que as pessoas encontram para sobreviver numa sociedade desigualitária, onde as oportunidades de um garoto branco, nascido numa família de classe média alta, são muito diferentes das oportunidades oferecidas a um garoto negro nascido numa favela. Infelizmente é assim. A explosão do tráfico está ligada a isso e também, obviamente, ao crescimento populacional nos grandes centros urbanos, com periferias cada vez mais habitadas, e mais miseráveis.
Já o envolvimento da classe média com o tráfico, e não só da classe média, porque suspeita-se participação de mega-empresários por trás dessas organizações criminosas, se dá, na maior parte dos casos, primeiramente, pelo consumo. Mas é evidente que muitas pessoas de classe média terminam traficando mesmo, caso de João Estrela, que teve sua história contada no recente Meu nome não é Johnny, com Selton Mello, grande sucesso do cinema brasileiro neste ano. Isto acontece pelo próprio fascínio que a contravenção exerce sobre determinados indivíduos, com sua promessa de dinheiro fácil e vida repleta de perigo e aventura. O próprio cinema contribui para isso, ao glamourizar a vida dos bandidos, muitas vezes retratados como anti-heróis destemidos e sedutores.

IHU On-Line - A solução para acabar com o tráfico de drogas seria a volta dos militares ao governo brasileiro? É possível acreditar que a opressão e a desigualdade social vão chegar ao fim?
Marcus Mello
- A volta dos militares ao governo? Não acredito que alguém em pleno gozo de suas faculdades mentais possa pensar nisso como uma alternativa ao problema do tráfico. A ditadura militar quebrou o país, acabou com a liberdade de expressão, torturou e matou milhares de pessoas (ente eles, muitos professores e alunos universitários). A própria ampliação do caos social vivido nas favelas brasileiras e o início do império do tráfico, cuja gênese o filme de Fernando Meirelles registra muito bem, está situada na década de 1970, ou seja, no auge da ditadura militar. Sempre é bom lembrarmos do nosso passado recente nessas horas, não? Acredito que é possível, sim, acabar com a desigualdade social, mas para isso não precisamos de ditaduras. Precisamos, sim, é de um Estado competente e democrático, governado por políticos menos corruptos e mais comprometidos com o bem público. Precisamos, sobretudo, de mais investimentos em educação, e também de uma elite mais esclarecida e menos gananciosa, que não explore os menos favorecidos de forma tão violenta e desumana, como temos observado constantemente no Brasil.

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