Edição 413 | 01 Abril 2013

O lulismo: uma formação de compromisso

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Graziela Wolfart

Para Vladimir Safatle, o que o PT entendeu nesses 10 anos foi que gerir e administrar o poder significava garantir as condições mínimas de governabilidade com o Congresso Nacional. Dentro dessa lógica, explica, “não existe muita coisa a ser feita a não ser aquilo que já foi feito”
"O problema não é o Estado, mas é a forma como o Estado foi privatizado, servindo como caixa de ressonância de interesses privados"

 

Após dois mandatos de Lula na presidência da República, o chamado “momento Dilma” pedia uma mudança, no sentido de avançar em aspectos da política econômica e nas suas práticas políticas. No entanto, conforme a reflexão do professor Vladimir Safatle, o que o governo atual fez foi gerenciar o legado do lulismo. “O resultado foi ter um lulismo de baixo crescimento, assim como um bloqueio no campo político muito evidente. Temos, então, o descontentamento cada vez maior de vários setores da sociedade civil em relação ao preço pago pela estabilização do jogo político no Brasil”. “Como se não bastasse”, continua ele, na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, “temos também um processo de bloqueio dentro da política brasileira”. Segundo ele, “tudo isso demonstra uma espécie de fim da criatividade política institucional desse ciclo”. 

Graduado em Filosofia, pela Universidade de São Paulo – USP e em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, Vladimir Safatle é mestre em Filosofia pela USP e doutor em Lieux et transformations de la philosophie pela Université de Paris VIII. Professor da USP, desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, desdobramentos da tradição dialética hegeliana na filosofia do século XX e filosofia da música. É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – De modo geral, como o senhor define a mais longa experiência de continuidade programática dos períodos democráticos no Brasil, que estão sendo esses 10 anos de PT na presidência?

Vladimir Safatle – De fato, é a experiência mais longa e isso produz uma série de questões interessantes. É uma experiência que tem dois momentos. O primeiro é o de consolidação de um modelo de governabilidade que o sociólogo André Singer  chamou muito bem de lulismo, que é um modelo baseado, do ponto de vista econômico, na desconcentração de renda através da criação de um sistema de seguridade social, sistema que demonstrou a sua importância nas respostas que o país deu à crise econômica de 2008. Do ponto de vista político, o lulismo foi caracterizado por uma prática de largas alianças heteróclitas, o que produziu, por um lado, após o mensalão, certa estabilidade de governo mas, por outro, produziu um imobilismo completo da possibilidade de pautar a política por grandes reformas. Nas alianças heteróclitas, o modelo de negociação é um modelo que visa o imobilismo, o que ficou muito claro ao final. Esse é um primeiro momento, que marca os dois governos Lula. Só que o momento Dilma é diferente. E temo que muita gente não tenha entendido isso ainda, porque é um momento onde era necessário avançar em aspectos da política econômica e nas suas práticas políticas. Na verdade, o que o governo fez foi gerenciar o legado do lulismo. O resultado foi ter um lulismo de baixo crescimento, assim como um bloqueio no campo político muito evidente. Temos, então, o descontentamento cada vez maior de vários setores da sociedade civil em relação ao preço pago pela estabilização do jogo político no Brasil.


IHU On-Line – Nesses 10 anos de PT na presidência da República, quais foram as principais mudanças pelas quais passou o “lulismo”? Dilma aponta para seu desaparecimento?

Vladimir Safatle – Não. Na verdade, o lulismo é uma formação de compromisso. Ele tinha um prazo de validade, que eram os dois mandatos de Lula. Esse prazo de validade está vinculado à ascensão de 34 milhões de pessoas ao que se chamou de nova classe média. Pois tal processo tinha um limite muito claro. Ao ascender criaram-se novas demandas. Na área da educação, tal parcela procura colocar seus filhos em escolas melhores. No Brasil isso significa, infelizmente, escolas privadas. Essa parcela da população passou também a ter novas demandas de saúde, querendo colocar sua família num sistema de saúde melhor do que o sistema público. Tudo isso arrebenta com os ganhos salariais dessas pessoas, porque elas terão novos gastos. Nesse sentido, qual deveria ter sido a função de um novo momento do ponto de vista econômico e social no Brasil? Era fazer um investimento maciço na construção de grandes sistemas de serviço público. Lutar pela construção de algo parecido a um Estado do bem-estar social. Isso não foi feito e nem existe um plano do governo que diga, por exemplo, que daqui a 15 anos teremos todo um sistema de ensino médio público. Não existe nada parecido, porque isso exigiria um novo modelo de financiamento do Estado, uma reforma tributária de esquerda, que pegasse o dinheiro das classes mais ricas, taxasse a renda e as fortunas delas para usar esse dinheiro com o intuito de financiar esse novo sistema do serviço público brasileiro. Nada disso foi feito. Isso não é só uma questão social. É uma questão econômica grave. Se as pessoas são obrigadas a se endividar para conseguir pagar educação privada e saúde privada, que é o que vai acontecer daqui para a frente, elas não terão dinheiro para consumir. Elas poderiam estar usando esse dinheiro para fazer economia funcional. Esse é um ponto. 

Como se não bastasse, temos também um processo de bloqueio dentro da política brasileira. Um dos maiores exemplos disso é o fato de que é de se esperar que, dentro de uma prática de esquerda, se tenha um processo de modernização social. Aqui no Brasil, a política de cotas é uma das medidas desse processo, muito acertada. Mas há várias outras medidas. Por outro lado, não houve nenhum avanço na constituição de algum tipo de democracia direta. As decisões do governo continuam sendo completamente permeadas por sistemas obscuros de interesses dos setores mais tacanhos da sociedade brasileira, sem que nenhum tipo de aprofundamento da democracia plebiscitária ou de uma constituição da participação popular mais efetiva tenha sido sequer tentado. Tudo isso demonstra, a meu ver, uma espécie de fim da criatividade política institucional desse ciclo.


IHU On-Line – Qual a importância da política de coalizão para a manutenção do PT no poder nesses 10 anos?

Vladimir Safatle – De fato, o que o PT entendeu nesses 10 anos foi que gerir e administrar o poder significava garantir as condições mínimas de governabilidade com o Congresso Nacional. Dentro dessa lógica, não existe muita coisa a ser feita a não ser aquilo que já foi feito. Só que essa não é a única lógica de compreensão do que significa gerir o poder. Gerir o poder é instaurar um processo de reforma que faça com que cada vez menos se seja dependente dos setores mais atrasados da vida social. É importante cada vez menos ter que gerenciar o atraso transformando paulatinamente os processos decisórios do governo em direção à democracia direta. Essa era a saída e a esse respeito nada foi tentado. Então é óbvio que se chegaria a uma situação como a de agora, marcada por um cansaço muito forte da sociedade brasileira em relação ao modelo de se fazer política, com uma descrença e um desencanto cada vez maior que faz com que, com certeza, num prazo de no máximo quatro anos teremos um outro tipo de configuração de forças políticas no Brasil.


IHU On-Line – Quais as consequências das alianças estabelecidas entre setores da esquerda brasileira e alas de políticos conservadores?

Vladimir Safatle – Os resultados são todos muito medonhos: primeiro, esse imobilismo; segundo, o fato de o PT ser obrigado – mais de uma vez – a servir de esteio contra ações que tentavam retirar esses políticos de cena. Um resultado muito forte é que existe uma força política das demandas éticas. Muitas vezes queremos acreditar que a revolta contra a corrupção é só uma pauta da direita. Só que se esquece que existe, na verdade, uma força política progressista dentro das demandas éticas. O problema não é o Estado, mas é a forma como o Estado foi privatizado, servindo como caixa de ressonância de interesses privados completamente escusos de grandes empreiteiras, do sistema financeiro, de grandes empresas. E é esse vínculo que deve ser cortado de uma vez por todas; esse vínculo incestuoso entre o setor econômico, hegemônico e a máquina do Estado. Isso significa utilizar a indignação ética como uma arma fundamental de transformação política e institucional. Só que isso a esquerda não consegue mais fazer, por ela ter se aproveitado das fragilidades da estrutura institucional brasileira, em vez de ter tentado modificá-la. Isso é imperdoável. E as consequências disso serão cobradas de uma maneira muito forte. Muitas vezes, alguns sucessos eleitorais podem dar a impressão de que não há nenhuma cobrança que virá. No entanto, isso não é verdade.


IHU On-Line – Como a hegemonia PSDB-DEM interfere na ideologia do PT e da esquerda política brasileira de forma geral? 

Vladimir Safatle – A impressão que eu tenho é a de que, muitas vezes, o PT ficou com raiva de não ter sido tratado pela imprensa e outros setores da teia social como se tratava o DEM e o PSDB. Há um diagnóstico muito crítico a ser feito, que é o seguinte: muitos do PT parecem que, no fundo, queriam ter a vida das pessoas do PSDB, queriam ter o tipo de tratamento que elas recebem e ficaram com raiva porque isso não aconteceu. É uma vergonha para líderes de esquerda que, em lugar de pensarem como esquerda, de serem sensíveis às críticas que vêm da esquerda, estão muito mais interessados em se fazerem aceitar pelo pensamento liberal, em tentar conjugar os verbos do pensamento liberal, falar como os liberais e mostrar que eles também são capazes de governar como os liberais aparentemente seriam. Há uma degradação intelectual muito forte. E esse é um ponto importante, a partir do momento em que simplesmente a esquerda não tem mais coragem de ouvir seus próprios críticos. A pior coisa é ouvir a crítica de um sujeito que lembra que você esqueceu quem você é.


IHU On-Line – Como compreender a trajetória do PT de afastamento dos núcleos de debate da sociedade civil e em que isso acaba acarretando? 

Vladimir Safatle – Esse é o modelo de todos os partidos socialdemocratas da Europa. Isso aconteceu com todos, é a mesma história. A diferença em relação ao PT é que ele fez esse processo mais rapidamente. Quando o PT apareceu, ele era uma grande frente de várias forças de esquerda. Aos poucos foi se transformando em um partido social-democrata e adquirindo os mesmos vícios. Com isso, vai perdendo contato com a sociedade civil e outras instâncias, como o movimento sindical. A perda de contato com o movimento sindical só não é maior por causa da figura pessoal de Lula. E ele soube utilizar isso muito bem. Só que o governo Dilma não tem esse capital simbólico. Por exemplo, as negociações com os sindicatos são terríveis, particularmente catastróficas. Tudo isso mostra que a tendência é que o processo de degradação que os partidos social-democratas passaram é um processo que aqui também vai passar.


IHU On-Line – Que limites e entraves se apresentam a partir da consolidação da ascensão econômica de largas parcelas da população brasileira por meio, principalmente, da ampliação das possibilidades de consumo? 

Vladimir Safatle – Até agora nada foi mostrado nesse sentido. Entendo que a ascensão social tem como uma das suas expressões o aumento das possibilidades de consumo. Além disso, houve uma integração do sujeito como consumidor, mas não como cidadão, que pode fazer um apelo a serviços públicos de qualidade. O brasileiro é o cidadão do mundo que tem alguns dos piores e mais caros serviços, e sem nenhuma alternativa. Isso é um sintoma de um modelo equivocado de desenvolvimento econômico, que não mudou nos últimos dez anos, ao contrário. Vejam o nosso atual capitalismo monopolista de estado. O governo escolheu alguns players globais, que vão se transformar em empresas multinacionais brasileiras, financiou tais empresas com dinheiro do BNDES e acabou por produzir uma oligopolização da economia, o que é imperdoável. Com isso a situação do consumidor se torna calamitosa, porque ele é espoliado no interior de um sistema econômico sem concorrência real. 


IHU On-Line – Qual tem sido o problema central da sociedade brasileira na visão do PT, que esteve à frente da presidência da República na última década? 

Vladimir Safatle – Para qualquer partido de esquerda o problema central vai ser sempre a desigualdade social, econômica e de direitos. E de fato, num primeiro momento, foi esse o problema que apareceu como foco central do PT. Só que esse problema está cada vez mais difícil de ser encontrado como prioridade do governo. Falta um novo ciclo de políticas de combate à desigualdade. Esse é um sintoma da mortificação política. Do ponto de vista intelectual, temos a estabilidade do cemitério. Por isso, diria que a função deste ciclo terminou.

 

Leia mais...

>> Vladimir Safatle já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

 

• Totalitarismos: uma reflexão político-social e libidinal. Revista IHU On-Line, número 265, de 21-07-2008, disponível em http://migre.me/Etg2

• Racionalidade cínica, raiz da anomia social. Revista IHU On-Line, número 282, de 17-11-2008, disponível em http://migre.me/Etjl 

• O “bem” está mal acompanhado. Revista IHU On-Line, número 329, de 17-05-2010, disponível em http://bit.ly/ILW4b2

• A verdadeira face do Supremo Tribunal Federal. Entrevista especial com Vladimir Safatle. Notícias do Dia 05-04-2011, disponível em http://bit.ly/K5JXa6 

• A política contemporânea tende a ir para os extremos. Revista IHU On-Line, número 392, de 14-05-2012, disponível em http://bit.ly/JDN2z2

 

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