Telma Monteiro. O testemunho de uma ambientalista

Ativista socioambiental. Polêmica. Esposa. Pedagoga. Pesquisadora independente e editora de blog. Essas são apenas algumas das qualificações de Telma Monteiro, que luta há mais de 16 anos por um Brasil melhor, com “energia elétrica, ambiental e socialmente limpa”, como ela mesma define em seu blog http://telmadmonteiro.blogspot.com.br. Antes de iniciar a palestra do Ciclo: Rio+20 – desafios e perspectivas, onde abordou o tema “Rio+20 e a questão da matriz energética brasileira”, no último dia 16 de maio, Telma conversou pessoalmente com a IHU On-Line e contou um pouco sobre sua trajetória de vida pessoal e profissional, além de explicar o porquê de seu interesse, depois de algum tempo, em aprofundar a pesquisa com relação à questão do meio ambiente, mais especificamente da criação das usinas hidrelétricas no Brasil e seus impactos para toda a população, questão de maior interesse da pesquisadora, já que, antes disso, era pedagoga e empresária. Em mais de uma hora de conversa, a ativista contou muitas histórias. Confira.

Por: Márcia Junges e Thamiris Magalhães

Origem

Telma Monteiro nasceu em São Paulo, em um bairro tradicional da zona Norte. Hoje mora em uma propriedade rural em outro município na Grande São Paulo. Tem uma horta e quatro vaquinhas de estimação. “Todo leite é distribuído para a comunidade. Ademais, tenho as vaquinhas por questão de amor, porque o leite é importante para a comunidade que é antiga no local e a mais distante do centro administrativo do município”.
A ativista é casada com o arquiteto Durval e não tem filhos. Talvez tenha sido por isso que ela tenha se dedicado tanto à questão energética, já que a responsabilidade é muito grande. “Não ter tido filhos para mim não é nenhum motivo de trauma e nem frustração. Meu marido e eu temos uma vida de contato direto com a natureza e somos casados há 26 anos”, pondera.

Seu avô era espanhol, uma espécie de ambientalista da época, que lhe ensinou muitas coisas, como o amor à natureza. Seu pai era outro ambientalista, “ambientalista da época, porque depois vivemos em uma casa com quintal enorme, que tinha árvores frutíferas”. Ele tinha um verdadeiro amor pela natureza e a introduziu nessa questão. “Eu subia nas árvores, era uma moleca. Tinha uma paixão pelas plantas e isso foi uma sementinha que foi plantada em mim de amor à natureza e depois a trajetória continuou”, diz. Telma Monteiro foi professora há muitos anos, primária, ensinava as crianças a ler e escrever. Essa era a sua paixão, pois sempre buscava passar para as crianças esse amor que temos que ter pela natureza.

Em sua vida adulta, a ambientalista fez escola normal e depois pedagogia. Ela foi da primeira turma da Universidade Professor Carlos Pasquale, no bairro do Brás.


Antes do ativismo...

Depois disso, a vida amorosa de Telma aconteceu. Paralelamente, foi empresária. “Fui designer. Tinha uma grife de sapatos, fabricava e tinha três lojas de pronta entrega em São Paulo. Quebrei com o Plano Collor. Eu mesma desenhava os modelos. Na época, fazia muito sucesso”, relembra. Telma chegou até mesmo a se apresentar na televisão para apresentar os modelos. “Por isso que conheço essa região do Rio Grande do Sul, pois vinha a Novo Hamburgo, porque eu queria melhorar a fábrica”.

Telma, ainda como empresária, criou na região uma associação de 400 pequenas empresas do ramo de moda para reivindicar os seus direitos. Isso já era uma forma de atuação e de ativismo porque as “pequenas empresas, naquela época, não eram consideradas. Eram destratadas. Aliás, até hoje. Acredito que não evoluímos muito nesse sentido. Quando eu quebrei com o plano Collor, em 1991, quase todas as pequenas confecções na região quebraram”, lamenta.

A blogueira viveu intensamente a evolução da história do país. Ela até mesmo lembra que foi convidada para participar de um programa de rádio para discutir a candidatura do Lula. “Creio que era a primeira vez que ele se candidatava à presidência da República. E lembro que alguém do grande empresariado brasileiro, que até hoje está aí, falou que, se o Lula fosse eleito, os empresários iriam sair do Brasil. Em nome dos pequenos empresários, fui convidada para falar a respeito”. A ambientalista diz que houve uma discussão muito grande porque ela não concordava com o fato de que os empresários iriam sair do Brasil. “Primeiro porque eu não achava na época que o Lula iria ser eleito. E depois, o Lula estava começando a ser uma liderança, sendo que era a primeira vez que ele se candidatava”, frisa. Posteriormente, a situação evoluiu...


A atuação como ativista socioambiental – como tudo começou

Quando foi para o município da Grande São Paulo, área de proteção aos mananciais, interior da Mata Atlântica, Telma começou a atuar diretamente. “Mudei-me para minha casa em 1996. Dois dias depois da mudança, recebi um papel com um decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, dizendo que eles estavam desapropriando uma parte da propriedade porque o decreto presidencial dizia que tinha que passar uma linha de transmissão lá”, explica. Foi a partir daí, então, que Telma, de fato, começou a atuar com relação à energia. Naquele momento, ela disse: “como é que é?” Telma mobilizou céus e terras; foi atrás do Ministério Público Federal de São Paulo e começou a investigar a história de linha de transmissão, porque ela não tinha o mínimo conhecimento. “Já tinha me associado a uma organização não governamental local, pequena, e acabei buscando a legislação, indo inclusive até à Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo”.

A partir de então, Telma Monteiro começou a questionar vários pontos e a investigar o que é a questão da energia no Brasil. Interrogou fatos como o porquê de a Secretaria de Meio Ambiente do estado de São Paulo estar licenciando uma linha; o porquê de não ter audiência pública etc. “Imagina: em 1996, quem pensava em audiência pública? Questionei o porquê, então, de uma linha de transmissão que pegava dois Estados, Paraná e São Paulo, estar sendo licenciada a toque de caixa pela Secretaria de Meio Ambiente do estado de São Paulo”. Monteiro chegou a escrever um livro sobre isso e descobriu que a legislação não estava sendo cumprida, uma vez que, segundo ela, quem deveria licenciar era o Ibama, visto se tratar de uma linha de transmissão que passava por dois Estados. “Fui procurar o Ministério Público e ele viu que eu estava certa. Foi quando comecei a entrar em choque. Em uma das audiências públicas, fui quase algemada devido à força policial, porque apenas 12 horas antes da audiência nós tomamos conhecimento dela”, pontua. E, até hoje, o município não foi compensado pela linha de transmissão.

A primeira representação com relação à questão de energia no Brasil foi feita por Telma. Desse momento em diante, ela começou a ser pressionada, e muitos afirmavam que a ambientalista estava “atrapalhando o desenvolvimento do Brasil”. A ativista não nega que sofreu muita pressão. “Foi muito duro”, lamenta. Foi quando percebeu que, no fim, a política acaba interferindo muito nessas questões de obras públicas, com dinheiro público, que beneficia empresas privadas e políticos locais.


Contra poderosos

Telma Monteiro confessa que já sentiu muito medo, mas descobriu que a sua grande arma é não deixar de discutir. “Não posso deixar de falar. Já me ameaçaram, já puseram fogo em minha propriedade recentemente e quase pegou fogo na minha casa que é de madeira. Mas descobri que se eu recuar, serei mais vítima ainda. Então, tanto mais eu falo, pois não sou um arquivo”, afirma. No entanto, Telma nunca foi processada. “Não recebi processo algum por tudo o que já falei, porque eu não digo mentira. Não estou inventando. Tenho os documentos que comprovam tudo o que escrevo e tudo o que falo. Então, ninguém pode me processar por algo que é verdade e que eu tenho como comprovar”, argumenta.

A mãe de Telma tem muito orgulho da filha que possui. Não é para menos. O marido sofre com ela. “Ele é arquiteto, trabalha do meu lado em casa e absorve tudo (risos)”. A ativista não nega que, de vez em quando, pede para ele ler seus textos “para ver se não escrevi bobagem”.

A pesquisadora independente lamenta que, no decorrer de sua história, tenham ocorridas algumas experiências danosas e tristes. Ela exemplifica: “um dia fui convidada para fazer parte de um grupo da prefeitura de São Paulo para cuidar de algumas coisas ambientais do Partido Verde (PV). Eu, muito inocentemente, imaginei que poderia ajudar e acabei me esfolando de todas as formas porque, de tudo o que descobri dentro da Prefeitura de São Paulo, ainda vou escrever um livro a respeito. Não tenho vergonha de dizer. E fui mandada embora porque não concordava”. Foi a única experiência da vida da ambientalista no poder público e durou um ano e meio. “Fui praticamente expulsa”, completa.


Política

Telma é apartidária. “Na verdade, acho até que sou anárquica. Sem filiação partidária alguma. No Brasil, não dá para ser honesto sendo político. Ou se deixa de ser honesto, ou se deixa de ser político”, diz, convicta. Ela lembra que votou em Lula e se arrependeu. “Imaginei que ele fosse a redenção do nosso país. Mas me arrependi”. No entanto, logo se convence. “Não tinha opção também”. Só que Telma lembra que acreditava no ex-presidente. “Nessas últimas eleições, não votei na Dilma. Anulei meu voto. Não tinha em quem votar. Ainda acho que nós não temos em quem votar”. Com relação às hidrelétricas, argumenta: “são as maiores obras em investimento que existem. Os valores são incríveis. Quanto vai custar Belo Monte? Ninguém sabe. Quanto estão custando as usinas do rio Madeira? Ninguém sabe. Elas foram planejadas para custar X, mas os custos foram aumentando”.

A ambientalista viaja para o exterior, a convites, para tentar desmistificar esse Brasil que a Dilma planta lá fora, ou seja, de um país “perfeito, com energia limpa, barata, renovável. E não é. Acabo desfazendo o discurso dela”. Recentemente, ela concedeu uma entrevista na Itália e disse que Dilma é retrógrada. “Afirmei com todas as letras. E digo sempre. Não tenho medo de falar porque ela é mesmo. Quem fala que vento não se estoca só pode ser uma pessoa retrógrada”.


Usinas Hidrelétricas

A pesquisadora escreveu um trabalho onde conta o momento em que foi aprovado o projeto das Usinas do Complexo do Madeira. “Foi aprovado depois que o Lula ganhou, porque ele fez o acordo com as empresas envolvidas. Isso foi aprovado depois da eleição do Lula, em 2002, sendo que ele assumiu em 2003. E em janeiro daquele ano começou o processo de licenciamento ambiental. Em dezembro de 2002, isso tramitou na Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel, e foi aprovado. Nunca vi um projeto ser aprovado com tanta rapidez, como foi o projeto do Complexo do Madeira”, analisa.
Depois de 2001, a questão da linha de transmissão evoluiu. Então, Telma começou a pesquisar. Ela chega a afirmar que virou uma compulsão no seu caso, porque “eram tantas as falcatruas, inconsistências e vergonhas que não é possível que o brasileiro se deixe enganar por toda essa falácia do governo”.

Antes das energias alternativas, segundo a ambientalista, nós temos a alternativa. “Qual é a alternativa que nós temos? Repensar o modelo. Tem alguma coisa errada com esse modelo. Nós não podemos continuar sem pensar em eficiência energética, com a população usando o chuveiro elétrico”.

Telma estudou muito. Descobriu, inclusive, que tinha um erro na linha de transmissão. “Fui me aprofundar tanto e descobri que tinha um erro de direcionamento de ângulo. Fui à Universidade de São Paulo – USP – falar para o professor. Disse: ‘olha aqui. Está errado. A direção, a coordenada que está aqui não confere. Tem um erro de ângulo nesta linha. Ela não deveria passar por aqui’.” Ele desconversou.


Academia X Ativismo

A ativista cogitou, em um determinado momento de sua vida, depois da história da linha de transmissão de Furnas, a cursar Engenharia Elétrica, mas pensou: “não vou perder meu tempo fazendo Engenharia Elétrica porque isso também não vai me servir de nada. Vou acabar sendo mais uma Engenheira Elétrica que não vai falar mal de nada. O Engenheiro Elétrico parece que entra no curso e sai com lavagem cerebral, porque você não o vê ser a favor dos movimentos sociais, das ONGs ou dos pesquisadores independentes que não têm a formação acadêmica”.

Telma nunca quis ser professora universitária. “Não me dei bem na academia. Fui convidada pelos meus professores, quando fiz Pedagogia, para ser estagiária deles na Pontifícia Universidade Católica – PUC – e não aceitei”. Ela crê que a academia é uma forma de as pessoas serem tolhidas. “Eu não. Quero a independência de poder falar e mostrar a verdade. Essa independência é a única coisa que exijo preservar”. E conclui: “creio que existe uma acomodação da academia em geral”.


Lazer

Telma é uma excelente velejadora, juntamente com o marido. “Nosso hobby é velejar”, alegra-se. Além disso, a ambientalista não nega que já viajou bastante. “Em 2011, viajei muito, mas a convite. Fui dar três palestras na Suíça. Fiz uma apresentação para o governo Holandês, sobre o Complexo Tapajós, e sempre que há a oportunidade aproveito para velejar”. No mesmo ano, Telma participou de uma reunião em Atenas e de outra em Roma sobre mudanças climáticas, com pequenos grupos. Então, ela aproveitou a ocasião para velejar no mar Jônico. “Vela é diretamente relacionada à natureza. É uma coisa inexplicável porque é o vento que te move e te conduz. É lindo velejar! Você não ouve o motor, mas sim o barulho da água batendo. Então, não há uma relação mais autêntica com a natureza do que a vela, do que você ser tocada pelo vento”, diz animadamente. E adianta: “agora, irei velejar na Croácia”.

A ativista e o marido também fazem exercício físico. “Caminhamos pela mata todo dia pela manhã. Ouvimos os passarinhos. Nossa casa foi projetada de maneira que toda a natureza entra. Você a vê de dentro para fora o tempo todo”. A casa da ambientalista, que é de madeira reciclada, é cercada pela natureza. “Gostamos muito”.

Tema Monteiro ainda adora ler. “A nossa casa parece uma biblioteca. Leio o dia inteiro com relação à hidrelétrica, energia etc. Mas nas horas que eu não estou no computador, gosto muito de livros de advogados, questões jurídicas e policiais. De Agatha Christie, já li a obra inteira. Acho que tenho na veia essa questão investigativa”. Música clássica e vinho também são as paixões da ativista.


Sonho

Telma confessa não ter um grande sonho. Na verdade, o que ela quer mesmo é que o Brasil melhore, porque “quem conhece o nosso país vê tanta coisa, tanto desperdício. Queria que a nossa nação progredisse, mas não sinto isso. Estamos em uma espécie de involução, porque consumimos muito”.


Paixão pelos índios

Um episódio, que impressionou a ativista em sua caminhada de luta por um país melhor, não pode passar despercebido: o contato com os índios. “Isso me impressionou pela inocência deles, mais especificamente os Munduruku, da região do Tapajós”, diz. Os índios foram realmente a sua paixão. “Eles são de uma meiguice impressionante. Isso me marcou muito. Tive contato com os indígenas de várias etnias em Rondônia, devido às usinas do rio Madeira, mas eles já estão em uma cultura de vários passos além. Os Munduruku não. Eles ainda guardam aquela coisa da ingenuidade e do amor. Senti muito carinho e pureza neles. Sei que isso vai ser perdido e não tem como não perder, porque existe uma evolução e agora essas hidrelétricas todas planejadas para lá acabam corrompendo. E não acho que eles devam viver na idade da pedra. Mas acredito que sua pureza deveria ser de alguma forma preservada. Isso que me marcou mais”, lembra.


O que falta nas pessoas

Para Telma, o senso de cidadania e comunidade é o que mais está faltando na população brasileira. “Das pessoas se unirem e pegarem um cartaz para fazer um protesto na frente de uma prefeitura”. Não tem coisa pior para um político, conta, do que um grupo de pessoas se unirem com cartazes com o nome dele escrito, sem agressão, sem violência, sem nada. Mas reivindicando seus direitos. “Nesse sentido, creio que falta união das comunidades. Nos Estados Unidos da América – EUA - tem uma coisa que eu invejo nos americanos: o senso de comunidade que eles têm. Falta isso para os brasileiros. E existe um esforço dos políticos de manter isso desse jeito”. Não existe uma preocupação, segundo a ambientalista, a não ser dos movimentos sociais, mas que ficam restritos aos seus locais. “Porque, na verdade, os movimentos sociais falam de si para si mesmos. E isso é um erro. Tenho essa crítica”. Telma não quer isso. “Quero falar para os alunos, porque sei que as cabeças deles estão sendo formadas. E, se eu conseguir colocar uma dúvida em uma cabeça, já estou feliz, porque ele vai questionar.” E ratifica: “eu quero falar para o mundo! Quero que as pessoas me ouçam!”



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Telma Monteiro
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“Belo Monte: ‘um conto de fada’ disfarçado”. Entrevista com Telma Monteiro, publicada na Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-05-2012

• 11/04/2012 – “A consciência ecológica e o respeito à natureza alcançaram a sociedade, mas não as autoridades brasileiras”. Entrevista especial com Telma Monteiro

• 30/05/2011 – “Belo Monte, o calcanhar de Aquiles do governo”. Entrevista especial com Telma Monteiro

• 13/10/2010 – “A urgência insana de Teles Pires”. Entrevista especial com Telma Monteiro

• 24/04/2010 – “Leilão de Belo Monte: uma armação”. Entrevista especial com Telma Monteiro

• 09/03/2010 – “As cinco hidrelétricas no Rio Tapajós. ‘Nenhum rio, no mundo, suporta isso’”. Entrevista especial com Telma Monteiro

• 11/06/2009 – “Que conta é essa?” Entrevista especial com Telma Monteiro

• 30/07/2008 – “Matriz energética. O Brasil na contramão da história”. Entrevista especial com Telma Monteiro

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