“A intervenção americana no Afeganistão foi um fracasso em todos os sentidos”

O jornalista Luiz Antônio Araújo descreve os episódios que marcam os conflitos no mundo árabe a partir de sua experiência como repórter na região do Afeganistão e Paquistão

Por: Márcia Junges e Graziela Wolfart

 

“As implicações do conflito no Afeganistão, hoje, são mais regionais do que globais. Mesmo a Al Qaeda está totalmente desinteressada quanto ao que ocorre no país. Trata-se, porém, da mais longa guerra travada pelos Estados Unidos além de suas fronteiras”. A análise é de quem esteve na região do Afeganistão e Paquistão e acompanhou de perto o que descreve. O jornalista Luiz Antônio Araújo concedeu a entrevista a seguir para a IHU On-Line, por e-mail, onde afirma que “o 11 de Setembro foi um atentado terrorista sem precedente contra alvos civis americanos que simbolizam o poderio econômico, militar e político do país – o World Trade Center, o Pentágono e provavelmente o Capitólio (para onde se supõe que iria o Boeing que caiu na Pensilvânia). Foi um ato bárbaro, um verdadeiro crime contra a humanidade, no qual pereceram mais de três mil pessoas, muitas delas muçulmanas, sem qualquer relação com a política externa ou interna dos EUA”. Para ele, o mais marcante da experiência que viveu foi o contato com os refugiados (homens, mulheres e crianças). “Não há condição mais degradante para o ser humano do que a de refugiado”, recorda.

Luiz Antônio Araújo é editor de Cultura do jornal Zero Hora. Enviado pelos veículos da RBS ao Paquistão, cobriu a guerra do Afeganistão em 2001. Como editor, participou das coberturas das guerras do Iraque (2003) e da Faixa de Gaza (2009). Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria. É autor do livro Binladenistão – Um repórter brasileiro na região mais perigosa do mundo (São Paulo: Iluminuras, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para quem vive no Ocidente e não compreende os conflitos do mundo árabe, como resumiria o que houve logo após os ataques aos EUA?

Luiz Antônio Araújo – O 11 de Setembro foi um atentado terrorista sem precedente contra alvos civis americanos que simbolizam o poderio econômico, militar e político do país – o World Trade Center, o Pentágono e provavelmente o Capitólio (para onde se supõe que iria o Boeing que caiu na Pensilvânia). Foi um ato bárbaro, um verdadeiro crime contra a humanidade, no qual pereceram mais de três mil pessoas, muitas delas muçulmanas, sem qualquer relação com a política externa ou interna dos EUA. Esse é um crime punido com severidade pelas leis de qualquer país do mundo, incluindo os islâmicos. Não se tratou, porém, de um raio em céu azul. O próprio World Trade Center havia sido alvo de uma tentativa frustrada de atentado em 1993. Mais tarde, entre 1995 e 1998, houve atentados a bases americanas na Arábia Saudita, explosões simultâneas em embaixadas na Tasmânia e no Quênia e ataque a um destroier (o U.S.S. Cole) no Iêmen. Esses ataques não podem ser entendidos separadamente da presença americana no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita, da I Guerra do Golfo, em 1991, e do apoio dos EUA a Israel no conflito israelense-palestino. Os desdobramentos do 11 de Setembro, porém, foram absolutamente favoráveis aos EUA. Dois países (Afeganistão e Iraque) foram invadidos, centenas de milhares de pessoas morreram e um dos governos mais retrógrados da história americana, o de George W. Bush, pôde correr mundo sob a bandeira da guerra ao terror.

IHU On-Line – Como era o dia a dia de repórter na região do Afeganistão e Paquistão?

Luiz Antônio Araújo – Eu me acordava por volta de 5h, lia os jornais impressos e na internet e saía a campo. Como a diferença de fuso horário entre o Paquistão e o Brasil é de oito horas, eu podia apurar material durante toda a manhã antes de fazer minha primeira participação na Rádio Gaúcha, normalmente no Gaúcha Atualidade. Depois disso, me dedicava a produzir material para o jornal impresso do dia seguinte. Também entrava no Chamada Geral (primeira e segunda edições) e, eventualmente, no Brasil na Madrugada. Também participei do Jornal do Almoço, do Teledomingo e da programação da TVCOM. Desloquei-me bastante pelo Paquistão (estive nas quatro províncias do país e nas regiões tribais), cheguei à fronteira com o Afeganistão, onde vi milicianos talibãs assediando a população civil, vi e entrevistei muitos afegãos.

IHU On-Line – O que mais marcou a sua memória como ser humano nesses dias em que acompanhou o conflito?

Luiz Antônio Araújo – O mais marcante foi o contato com os refugiados  (homens, mulheres e crianças). Não há condição mais degradante para o ser humano do que a de refugiado.

IHU On-Line – Que tipo de valores justificam e explicam esse tipo de conflito na cultura local?

Luiz Antônio Araújo – Afegãos têm uma forte noção de nacionalidade, que tem uma explicação histórica. O Afeganistão foi criado como Estado nacional no século XVIII. Como Estado-nação, é mais antigo do que a Alemanha, a Itália e o Brasil. Na mentalidade dos afegãos comuns, porém, a noção de pertencimento a um Estado-nação vem depois da de pertencimento e lealdade à etnia e ao clã. O Afeganistão é uma colcha de retalhos étnica e religiosa, mas os afegãos se orgulham de ter vencido os britânicos em três guerras nos séculos XIX e XX e de ter expulsado os soviéticos depois de nove anos de ocupação. Dificilmente seria possível estacionar tropas estrangeiras de forma permanente no Afeganistão, diferentemente do que ocorre em outros países muçulmanos.

IHU On-Line – Como analisa o posicionamento americano nesse conflito?

Luiz Antônio Araújo – Creio que a intervenção americana no Afeganistão foi um fracasso em todos os sentidos. O objetivo declarado da guerra era desmantelar a rede Al Qaeda e seus aliados e instaurar um regime democrático que impedisse organizações terroristas de ter abrigo em solo afegão. A Al Qaeda foi desmantelada no Afeganistão, mas apenas para ressurgir com força no norte da África, no Iêmen e no Iraque. Bin Laden foi localizado e morto uma década depois, mas seu porto seguro era o Paquistão, país que, em tese, é aliado dos EUA, do qual recebe ajuda econômica e militar milionária. O regime de Hamid Karzai, apoiado pelos americanos, é corrupto e patrocina o tráfico de drogas. O Talibã está de volta ao Afeganistão, promovendo atentados contra alvos americanos até mesmo na capital, Cabul (durante a ocupação soviética, os rebeldes jamais puseram os pés na cidade). O país está mais miserável, obscurantista e temeroso pelo futuro do que nunca.

IHU On-Line – E quanto à intervenção de outros países, qual é a sua percepção?

Luiz Antônio Araújo – Trata-se de uma guerra impopular em toda parte. O presidente eleito da França, François Hollande, já anunciou a intenção de retirar o contingente francês da Isaf (a força da Otan) até o final do ano. O Canadá e a Itália seguem pelo mesmo caminho. Apenas a Grã-Bretanha se submete sem pestanejar ao cronograma americano. Mas a intervenção mais nefasta é a do Paquistão, porque se dá de forma não declarada. Os militares paquistaneses consideram o Afeganistão como um fator de “profundidade estratégica” em seu conflito com a Índia e não abrem mão de intervir nos destinos do país. Qualquer soldado americano em serviço no Afeganistão sabe que o verdadeiro fator de instabilidade no país está do outro lado da fronteira, no Paquistão.

IHU On-Line – Qual é o sentido da “guerra global ao terror”?

Luiz Antônio Araújo – Os herdeiros de Carlos Magno erigiram na Europa Central um reino chamado de Sacro Império Romano. Alguns dizem que essa denominação continha um triplo equívoco: o reino não era Sacro, nem Império, nem Romano. Com a dita guerra global ao terror, ocorre algo parecido: não foi guerra, nem global, nem ao terror. Essa expressão foi utilizada pelo governo George W. Bush para dar a ideia de que havia uma continuidade entre a resposta ao 11 de Setembro e a invasão do Iraque, de que eram operações complementares, inseparáveis uma da outra. Nada mais falso. Mesmo a Operação Liberdade Duradoura, como se chamou a invasão do Afeganistão, não se sustentava como resposta ao 11 de Setembro depois dos primeiros 20 dias de ataques. Nesse período, o governo talibã foi desmantelado, e o próprio governo americano admitiu que estava bombardeando areia. Não houve uma verdadeira guerra global ao terror, e o próprio governo Obama abandonou essa expressão nos seus primeiros meses.

IHU On-Line – De que forma podemos compreender a morte de Bin Laden exatamente dez anos após o ataque às Torres Gêmeas?

Luiz Antônio Araújo – Em que pese ter sido um criminoso, Bin Laden passou a ser visto como um símbolo de insubmissão aos Estados Unidos em todo o mundo islâmico depois do 11 de Setembro. Suas prédicas eram reproduzidas em emissoras de televisão e sites, e ele, apesar de envelhecido e doente, viveu em relativa segurança no Paquistão por quase 10 anos. É curioso que tenha sido capturado em Abbotabad, a poucas dezenas de quilômetros da capital paquistanesa. Essa cidade é sede da principal academia militar paquistanesa, e ele tinha como vizinhos militares de alto escalão da reserva. Quem comprou o terreno do imóvel? Como foi construída a casa? Quem se relacionava com ele? Por que os EUA fizeram a Operação Geronimo sem revelar nenhum detalhe ao Paquistão? Quando forem respondidas, essas e outras perguntas revelarão muito sobre o verdadeiro papel do Paquistão na fuga de Bin Laden.

IHU On-Line – Como a população reagiu à morte de Bin Laden?

Luiz Antônio Araújo – A morte de Bin Laden foi mais um episódio na deterioração progressiva das relações entre Estados Unidos e Paquistão. Soma-se a fatos como a prisão (e posterior libertação sob fiança) de um empregado contratado pela CIA após matar um paquistanês e a um ataque de uma aeronave não tripulada americana a uma unidade do exército paquistanês na zona tribal. Do ponto de vista americano, ainda é melhor manter os laços com o Paquistão (leia-se com os militares paquistaneses) do que rompê-los, como ocorreu nos anos 1990, e correr o risco de assistir a uma nova escalada bélica contra a Índia ou no interior do Afeganistão.

IHU On-Line – Por que nomeou seu livro de Binladenistão? Como ele é visto em seu país de origem?

Luiz Antônio Araújo – Esse nome remete a um território em que Bin Laden não é visto como um criminoso, mas como um bom muçulmano e um herói. O Binladenistão compreende o Paquistão, o Afeganistão, partes da Península Arábica, da África e da Ásia. É uma nação zumbi. Não está no mapa, mas dá sinal de vida a cada atentado promovido ou inspirado pela Al Qaeda.

IHU On-Line – Que implicações esse conflito ainda pode trazer para o mundo como um todo?

Luiz Antônio Araújo – As implicações do conflito no Afeganistão, hoje, são mais regionais do que globais. Mesmo a Al Qaeda está totalmente desinteressada do que ocorre no país. Trata-se, porém, da mais longa guerra travada pelos Estados Unidos além de suas fronteiras. Ninguém deixará de ter curiosidade sobre seu desfecho, assim como não se lê Guerra e Paz até o último capítulo, sem conhecer o epílogo.

IHU On-Line – Como analisa a cobertura da mídia a respeito dos conflitos no mundo árabe?

Luiz Antônio Araújo – Acho que a imprensa mundial tem falhado na cobertura do mundo islâmico como um todo. Falta-nos conhecimento histórico, geopolítico, linguístico, religioso. Não previmos o 11 de Setembro e a Primavera Árabe. Orgulho-me de ter dito claramente, em novembro de 2001, que o conflito no Afeganistão não poderia ter uma solução exclusivamente militar.

IHU On-Line – A que se deve o estereótipo largamente divulgado de árabe como sinônimo de terrorista? As pessoas das localidades onde você esteve sabem que no Ocidente essa é, em grande medida, a visão que se têm deles?

Luiz Antônio Araújo – Trata-se de uma visão profundamente arraigada na mentalidade daquilo que chamamos de Ocidente. Na Divina Comédia, Dante reserva a Maomé o nono círculo do Inferno, onde cismáticos e semeadores de discórdia recebem um horrível castigo. Na época, o Islã era visto como um cisma do cristianismo. Eram tidos como divisionistas, criadores de caso, eternamente envolvidos em lutas intestinas. Depois, passaram a ser pintados como primitivos, misteriosos, sensuais, prisioneiros dos instintos e das paixões. Essas foram as características associadas aos árabes pela Europa moderna, de Coleridge e Goethe a Marx e Rimbaud. No final do século XX, passaram a receber o rótulo de terroristas, fanáticos e suicidas. Essa visão estereotipada só se torna problemática para os árabes que imigram para os Estados Unidos, a Europa ou a Austrália.

IHU On-Line – Havia censura à imprensa na época em que você cobriu o conflito? E hoje, qual é a situação naqueles países, inclusive sobre acesso a redes sociais?

Luiz Antônio Araújo – No Paquistão, os cerca de 3 mil jornalistas estrangeiros tiveram relativa liberdade de locomoção, mas obviamente o país vivia sob uma ditadura militar, havia censura nas redações e jornalistas processados e intimidados. Em janeiro de 2002, pouco depois da proclamação de vitória de Bush no Afeganistão, o jornalista americano Daniel Pearl, do The Wall Street Journal, foi sequestrado, torturado e executado em Karachi. Não se tratava, portanto, de um ambiente propício ao exercício do jornalismo. Ainda hoje é um dos países mais perigosos do mundo para repórteres. Durante a Primavera Árabe, a situação foi mais violenta. Muitos jornalistas foram mortos no Egito e na Síria, e centenas de outros foram agredidos e presos, como ocorreu comigo no Egito, em fevereiro do ano passado. As redes sociais continuam sendo uma válvula de escape para o descontentamento. 

IHU On-Line – Qual é a situação atual no Afeganistão e Paquistão? Como as comunidades vivem em meio a um território ainda ocupado?

Luiz Antônio Araújo – A situação no Afeganistão é de instabilidade e insegurança. Do ponto de vista econômico, o país não está muito melhor, a não ser nos aspectos que de alguma forma interessavam às forças de ocupação, como as estradas – o Afeganistão tinha, há pouco tempo, a mesma extensão de estradas asfaltadas que o Rio Grande do Sul. Evidentemente, as etnias minoritárias temem o retorno do Talibã, mas entre os patanes, predominantes no sul do país, o Talibã não é visto como um elemento estranho. Eles continuam controlando algumas regiões, e mesmo no Departamento de Estado há uma corrente que defende um acordo com o Talibã que permita a retirada americana. Note-se que desmantelar o Talibã (que havia dado abrigo a Bin Laden e à Al Qaeda) era um dos objetivos da Operação Liberdade Duradoura.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Luiz Antônio Araújo – Meu livro, Binladenistão – um repórter brasileiro na região mais perigosa do mundo, analisa em detalhes as questões tratadas nesta entrevista e pode ser útil para esclarecer alguns pontos. Nesse livro, recapitulo os aspectos centrais da cobertura do pós-11 de Setembro pelo Grupo RBS, da qual participei como enviado à região do conflito. A obra foi finalista do 52º Prêmio Jabuti de Literatura, em 2010.

 

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