Edição 384 | 12 Dezembro 2011

“O Brasil tem condições para difundir um modelo de energia de baixo carbono”

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Graziela Wolfart

Para o jornalista Dal Marcondes, a Rio+20 será uma grande oportunidade para os países colocarem no centro de suas pautas as questões relevantes do desenvolvimento limpo e da economia verde

“Não será uma conferência de grandes decisões, principalmente porque o sistema da ONU não permite revoluções”, constata o jornalista Dal Marcondes, sobre a Rio+20. Segundo ele, “é sempre preciso construir consensos para que as decisões passem a valer. O pior que se pode ter é a expectativa de transformações ou decisões radicais. É bom lembrar, também, que essa conferência é muito mais de governança do que sobre meio ambiente. Além disso, todos os temas que atualmente estão sendo discutidos em COPs não terão fórum na Rio+20. É preciso ajustar as expectativas ao que é possível conseguir para que, ao final, não sobre um desagradável sabor de fracasso”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Dal Marcondes esclarece que “o Programa de Meio Ambiente da ONU vai levar à Rio+20 a proposição de transformar a economia global em uma economia verde, que seja inclusiva, distributiva e capaz de reduzir as desigualdades tanto entre as pessoas como entre os países. Um compromisso dos governos em caminhar nessa direção pode ser um passo importante para a transformação da economia nos próximos anos”.

Dal Marcondes é graduado pela Escola de Comunicação e Artes e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. Especializado em Jornalismo Econômico, conta com passagens pelas redações das revistas IstoÉ, Exame, Dirigente Industrial, pelas agências France Presse, Dinheiro Vivo, Agência Estado e pelos jornais DCI, Gazeta Mercantil e O Estado de S. Paulo. É editor no Brasil do Projeto Terramérica, ligado aos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA e para o Desenvolvimento – PNUD, moderador da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e membro do grupo de trabalho Comunicação Ambiental, do Ministério do Meio Ambiente, e do Conselho de Ética do Fórum Amazônia Sustentável. Fundador e atual diretor de redação da Envolverde (http://envolverde.com.br/), portal que tem como missão Jornalismo & Sustentabilidade, recebeu em 2006 e 2008 o Prêmio Ethos de Jornalismo. É também editor da revista Carta Verde – realizada em parceria com a revista Carta Capital.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – A Rio+20 conseguirá obter bons resultados? Quais os possíveis entraves em relação à construção de consensos para que as negociações entre os países avancem?

Dal Marcondes –
A Rio+20 será uma grande oportunidade para os países colocarem no centro de suas pautas as questões relevantes do desenvolvimento limpo e da economia verde. No entanto, não será uma conferência de grandes decisões, principalmente porque o sistema da ONU não permite revoluções. É sempre preciso construir consensos para que as decisões passem a valer. O pior que se pode ter é a expectativa de transformações ou decisões radicais. É bom lembrar, também, que essa conferência é muito mais de governança do que sobre meio ambiente. Além disso, todos os temas que atualmente estão sendo discutidos em COPs não terão fórum na Rio+20. É preciso ajustar as expectativas ao que é possível conseguir para que, ao final, não sobre um desagradável sabor de fracasso.


IHU On-Line – O que a Rio+20 pode oferecer à sociedade cansada de apenas ouvir discursos em relação aos desafios do clima?

Dal Marcondes –
Essa conferência não deverá tratar de temas relacionados às mudanças climáticas. A sociedade não deve esperar nada nessa direção. No entanto, podemos almejar uma maior consciência dos governos em relação às urgências de compromissos. Na medida em que os países conseguirem assumir compromissos de ampliar a governança socioambiental já será um sucesso.


IHU On-Line – Qual a contribuição que a mídia pode dar para as questões que fundamentarão o debate da Rio+20? Como você avalia que a conferência está sendo tratada até então pela imprensa?

Dal Marcondes –
A mídia tem um papel fundamental em relação a essa conferência. Apenas uma pequena parcela dos brasileiros sabe o que é a Rio+20 e para o que ela servirá. Portanto, os jornalistas e os meios de comunicação devem aprofundar as coberturas de forma a dar à sociedade uma visão mais abrangente sobre as pautas da Rio+20. Até agora a mídia ainda está tratando o tema de forma superficial e buscando pautas sensacionalistas. Será preciso melhorar muito a cobertura para que a sociedade brasileira possa acompanhar o evento. No entanto, uma conferência da ONU não é uma coisa fácil de se cobrir. Será preciso preparar equipes de profissionais com informações e dados para que consigam entender a dinâmica da Rio+20.


IHU On-Line – Como você avalia o jornalismo ambiental no Brasil hoje?

Dal Marcondes –
O jornalismo brasileiro avançou muito na cobertura sobre meio ambiente nos últimos anos. Mas esse não é um tema fácil. Os profissionais que atuam nessa área precisam se qualificar e se preparar para entender a transversalidade das questões ambientais. Hoje a cobertura ambiental não está mais estrita a mídias segmentadas ou de militância. Já ganhou espaços nobres em meios de grande circulação, seja impresso, rádio e TV ou internet. É importante, no entanto, ter claro que o jornalismo ambiental, antes de qualquer coisa, é jornalismo. O ambiental é uma escolha de pautas e não uma militância. O jornalista deve tratar a pauta ambiental com o mesmo rigor jornalístico que trataria qualquer pauta.


IHU On-Line – Que novo modelo político e econômico pode surgir nos debates da Rio+20 como alternativa ao atual, que seja algo mais na linha do baixo carbono, por exemplo?

Dal Marcondes –
O Programa de Meio Ambiente da ONU vai levar à Rio+20 a proposição de transformar a economia global em uma economia verde, que seja inclusiva, distributiva e capaz de reduzir as desigualdades tanto entre as pessoas como entre os países. Um compromisso dos governos em caminhar nessa direção pode ser um passo importante para a transformação da economia nos próximos anos.


IHU On-Line – Considerando as fontes alternativas de energia limpa, qual deve ser o papel do Brasil nos debates da Rio+20?

Dal Marcondes –
O Brasil tem um papel fundamental na conferência, enquanto anfitrião. Será papel da diplomacia brasileira buscar construir os consensos necessários para que a Rio+20 não seja um fracasso. Também, enquanto o país com o melhor perfil em termos de energias limpas, ele deve ser um exemplo e ajudar outras economias a criarem condições para a implantação de geração limpa. Nosso país detém conhecimento, tecnologia e capacidade empreendedora para difundir um modelo de energia de baixo carbono.


IHU On-Line – Quais as possíveis demandas que a sociedade em geral irá levar para a Rio+20?

Dal Marcondes –
A sociedade tem muitas demandas, mas creio que as mais importantes estarão focadas em transparência e sistemas de governança para a transição para a economia verde. Será preciso manter a pressão sobre os países para garantir avanços. As organizações sociais devem tomar cuidado para não perder o foco. Um exemplo disso é que muita gente acha que essa conferência tem de oferecer um espaço para debates de temas que sequer estão na pauta, como as mudanças climáticas.


IHU On-Line – Como será a relação entre os países ricos e os emergentes na Conferência?

Dal Marcondes –
Será uma relação difícil, de interesses diferentes, mas que deve ser trabalhada para que soluções e compromissos possam ser construídos. Com a atual crise internacional os países ricos já perceberam que não conseguem mais se manter em um mundo de unilateralismo. É preciso construir novas relações multilaterais capazes de dar ao planeta uma dinâmica de transformações. Sou otimista em relação à diplomacia e acredito na boa vontade dos homens. Não é fácil, mas não é impossível.

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