Edição 384 | 12 Dezembro 2011

IHU Repórter

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Thamiris Magalhães

Trabalhando na Unisinos há quase dois anos, o agente de proteção e risco Leônidas Tatsch se considera uma pessoa batalhadora, responsável e humilde. Altruísta, diz que um de seus maiores sonhos já está se realizando, que é ter a oportunidade de estudar e adquirir o diploma de professor. “Meu sonho é entrar em uma sala de aula, estar em um lugar ou escrever alguma coisa que possa fazer sentido para alguém. Às vezes, sinto-me mais feliz com a felicidade alheia do que com a minha própria”, admite. Admirador da frase do escritor e jornalista Gabriel Garcia Márquez: “A vida não é a que vivemos e sim a que recordamos e como recordamos para depois contar”, Tatsch tem inúmeras histórias emocionantes. Histórias que podem ser conferidas a seguir, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line.

Autodefinição – Sou batalhador, responsável, até porque saí de casa muito cedo e tive que aprender as coisas por mim mesmo. Além disso, sempre valorizei muito a humildade. Ter humildade para admitir os erros e saber conviver com as pessoas com essa virtude, creio que seja uma das minhas maiores características.

Origem – Nasci dia 24 de julho de 1986 em Cachoeira do Sul, no interior do Rio Grande do Sul. Trabalhava com meu pai em lavoura de arroz e trabalhos braçais, coisas interioranas mesmo. Como morava no interior e lá não havia muita oportunidade de crescimento profissional, aos 17 anos me mudei para Santa Maria-RS a fim de trabalhar na base aérea. Servi como voluntário na Aeronáutica. Fiquei quase seis anos lá dentro. Meus pais moram em Cachoeira do Sul-RS. Tenho três irmãos; uma menina, mais nova; um rapaz, com 31 anos e outro que é adotivo, com 37 anos. Moro sozinho em São Leopoldo há um ano e dez meses.

Trabalho - Atualmente trabalho no Setor de Proteção e Risco, Transporte e Trânsito – SPTT onde sou segurança há quase dois anos. Além disso, curso o terceiro semestre do curso de Letras – Habilitação em Português aqui na Unisinos.

Experiências profissionais - Fiz curso de bombeiro. Sou formado nessa área. Já trabalhei no resgate de socorros na BR; fui instrutor de tiros, pistola e fuzil dentro do quartel; instalava bombas em aviões, além de ter viajado bastante a trabalho. Fui à Missão de Paz do Haiti, pela Organização das Nações Unidas – ONU. Viajei também quando estava em uma equipe de resgate da Aeronáutica, para atender as vítimas do acidente da Gol em 2008. Mas não quis seguir a carreira militar. Poderia ter permanecido lá dentro. Só que meu sonho sempre foi estudar, fazer faculdade e eu não poderia ter uma vida acadêmica lá porque viajava muito. Eu pensava que iria ficar 30 anos dentro do quartel e não estaria fazendo o que realmente gosto. Não posso deixar de lembrar que foi lá dentro que aprendi muita coisa. Para minha formação profissional e pessoal foi imprescindível ter servido à Força Aérea. Grande parte do que eu sou hoje foi graças ao que aprendi no quartel; valores como disciplina, educação, ser profissional, levar as coisas a sério. Além disso, trabalhando lá, acabamos dando mais valor à vida porque acabamos vivenciando certas coisas. Poder fazer alguma coisa pelas pessoas que mais precisam é muito gratificante, enobrece bastante o homem.

Decisão - Um dia decidi que não queria ficar muitos anos fazendo o que não queria. Foi quando sai e vim para São Leopoldo. Deixei meu currículo na Unisinos e agora estou tendo a oportunidade de fazer o que eu mais gosto, que é estudar, um dia me formar e tentar passar alguma coisa, ensinar algo para alguém.

Curso - Estudei no conservatório de música pouco antes dos meus 15 anos e fiquei lá durante quase quatro anos. Estudava música clássica e violão erudito. Tudo isso em Cachoeira do Sul. Estudei bastante teoria da música, o que ainda gosto bastante.

Música – Gosto muito de música brasileira, jazz, erudita. Tudo o que é inteligente eu admiro. Aprecio bastante Tom Jobim e Chico Buarque. Costumo dizer que este último tem as respostas para todas as perguntas. Além deles, meu cantor predileto é o Frank Sinatra.

Lazer – Nas horas vagas geralmente faço minhas coisas pendentes em casa e estudo. Além disso, gosto muito de ler, ouvir música e sempre que posso vou a algum espetáculo ou evento cultural em Porto Alegre.

Livro – Gosto muito do livro As palavras do Jean-Paul Sartre (Difusao Europeia, 1964), onde o autor conta sua história e diz o que os livros proporcionaram para ele.

Filme – Forrest Gump: O Contador de histórias (1994), dirigido por Robert Zemeckis com Tom Hanks, no papel-título e baseado no romance homônimo de 1986 escrito por Winston Groom.

Religião – Fui batizado na Igreja Católica e minha família é católica. Deus para mim é um momento de reflexão, como uma oração, que é sentar em um lugar e tentar encontrar a paz, refletir e pensar nas coisas boas e, principalmente, nas pessoas que eu gosto. Frequento quase todos os dias a capela aqui da Unisinos. Gosto do ambiente tranquilo que ela proporciona.

Curiosidade –
Nunca fui muito de rezar. Mas tem uma coisa curiosa: eu já fiz muitas coisas pelas outras pessoas, apetece-me a felicidade alheia. Só que nunca fui de fazer oração, não acreditava muito. Certa vez, minha mãe, que é muito religiosa, disse para mim: “Sempre que puder, antes de dormir, reza”. E eu dizia que não tinha significado isso para mim. Foi quando ela me questionou: “Tu gostas de mim?”. Eu disse: “Sim, claro que gosto. Eu te amo”. E ela disse: “Se tu gostas de mim, faze isso por mim então, enquanto eu existir e depois que eu não mais existir. Sempre antes de dormir, reza. Essa será uma maneira de tu celebrares a vida e estar também, ao mesmo tempo, lembrando de mim, homenageando-me”. Então, desde o dia que ela me pediu, todas as noites antes de dormir, rezo por ela. E isso me fez mudar muito.

Lembrança - Em Santa Maria tive um relacionamento com uma mulher que tinha um menino, Gabriel, à época, de cinco meses de idade. Ficamos juntos quatro anos e criei-o como se fosse meu filho desde pequeno. E uma das coisas mais belas da vida, mais bonita que já presenciei na minha vida e a melhor sensação que já tive, foi poder acordar ao lado de uma criança tão pequena e inocente, abrir os olhos e se deparar com aquele ser acordado, olhando para você com as duas mãozinhas no teu rosto. Isso foi a coisa mais bonita que já presenciei em toda a minha vida. E com essa história da reza da minha mãe, peço sempre, antes de dormir e logo depois que acordo, por ela e pelo pequeno Gabriel também. Isso já há dois anos.

Política no Brasil –
Acredito que tem muita coisa que precisa ser mudada no nosso país. E não vai ser mudada de hoje para amanhã. Educação e saúde são duas coisas que têm que melhorar muito. Mas acredito que isso tudo não parte apenas da política em si. Creio que cada um de nós pode fazer alguma coisa, mínima que seja. Temos que ter consciência disso: ajudar uma criança na rua, oferecer uma palavra amiga ou entrar em sala de aula e mostrar um pouco do mundo para uma criança. Isso já é um ponto positivo. E é uma forma de política também.

Sonho –
Um deles já estou realizando, que é estar aqui estudando, tendo a oportunidade de me formar. Ademais, meu sonho é entrar em uma sala de aula, estar em um lugar ou escrever alguma coisa que possa fazer sentido para alguém. Às vezes, sinto-me mais feliz com a felicidade alheia do que com a minha própria. Então, creio que o meu sonho seja um dia tentar fazer alguma coisa para mudar ou ajudar alguém.

Unisinos – É muito importante para mim. Primeiramente porque me abriu as portas e os caminhos. Depois porque as diretrizes da instituição me cativam bastante e creio que cresci muito desde o dia que ingressei aqui. Tenho admiração e respeito pela Unisinos, até mesmo por ser uma instituição religiosa. Além disso, depois que comecei a rezar e por estar envolvido em uma instituição religiosa, várias coisas fizeram sentido na minha cabeça. Ademais, por conviver com os padres, reitor, vice-reitor e com outros sacerdotes que lecionam aqui, poder conversar com eles e perceber que passaram a vida toda estudando e se dedicando à fraternidade, sem querer algo em troca, aprendi muito e percebo que isso é importante.

Frase – Tem uma frase do Gabriel Garcia Márquez da qual gosto muito: “A vida não é a que vivemos e sim a que recordamos e como recordamos para depois contar”. Então, a vida são os momentos importantes. São os momentos que vivi com o Gabriel, o momento em que minha mãe pediu para eu rezar para ela. O sorriso e a felicidade de alguém. São momentos que nunca saem da minha cabeça. De repente a vida não é tudo aquilo que se viveu. Se a pessoa tem 50 anos, não necessariamente ela pode ter vivido 50 anos. Vivemos os momentos que recordamos, que são os mais importantes. Há outra frase, também do Márquez, de que gosto muito: “Amigo nós não fazemos. Amigos, nós reconhecemos”.

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