Edição 384 | 12 Dezembro 2011

Plataformas de mídias móveis: desafios para o consumo de conteúdo audiovisual

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Rosana Vieira de Souza

As telecomunicações, as tecnologias da informação e a mídia estão operando de forma cada vez mais integrada a partir de estratégias bem definidas em direção à criação de novos modelos de negócios, a despeito dos resultados, no longo prazo, ainda incertos. Neste artigo, observa-se esse fenômeno de forma crítica.

As mudanças qualitativas fundamentais que se estabelecem na estrutura dos diferentes setores resultam, de forma prática, na microesfera da oferta de serviços e produtos ao mercado consumidor. Os pacotes de serviços chamados triple-play que disponibilizam transmissão de voz, dados e vídeo (telefonia fixa, banda larga e TV por assinatura), são cada vez mais frequentes na oferta de grupos como a Claro/Embratel/Net, GVT/SKY e Oi, e ilustram um cenário real de convergência de serviços. No contexto dos terminais, ou dispositivos móveis (smartphones, tablets, PDAs, e-readers, entre outros), a convergência se mostra em seu potencial para o audiovisual, em especial, com a implantação da terceira geração da telefonia celular e da tecnologia 3G de banda larga móvel.

Com início em 2008 no Brasil (o Japão concluiu a transição para a 3G em 2006), a rápida adoção dos smartphones (impulsionada, sobremaneira, pelo produto-fetiche iPhone, da Apple, e seus aplicativos) provocou tanto uma mudança substancial no modo de acesso à internet pelo celular como uma oportunidade real para o consumo de conteúdos audiovisuais nesses dispositivos. Um dos fatores importantes para tal cenário é a evolução do número de acessos à banda larga fixa e móvel no país. Parte dessa discussão vem sendo levada a público com a implantação do Programa Nacional de Banda Larga – PNBL, oficialmente lançado em maio de 2010, objetivando inicialmente universalizar o acesso à banda larga no país. Em que pesem as críticas em torno da falta de conexão (com o perdão do trocadilho) das diretrizes propostas pelo governo federal com um plano estratégico mais amplo de inclusão e desenvolvimento econômico e social via acesso às TICs, no longo prazo, é fundamental que as ações sejam colocadas em discussão e, sobretudo, implantadas. Trata-se de um primeiro passo em direção à viabilização da sociedade conectada.

Em termos da meta de ampliação do acesso à banda larga do PNBL, uma expectativa inicial era de que, até 2014, o país atingisse 40 milhões de acessos de serviço de banda larga fixa e 60 milhões de acessos de banda larga móvel. Para que essa meta seja atingida, contudo, especialmente quanto aos investimentos para promoção da infraestrutura necessária à universalização da banda larga fixa, é crucial a participação da sociedade atenta ao modo como as decisões vêm sendo conduzidas entre todos os participantes.

Segundo dados da Associação Brasileira de Telecomunicações – Telebrasil, em outubro de 2011 o Brasil atingiu cerca de 54 milhões de assinantes de banda larga. Desse total, cerca de 16,3 milhões (30%) são provenientes de banda larga fixa e 37,6 milhões (70%) de banda larga móvel, o que evidencia um longo caminho em relação às metas do PNBL. O serviço fixo apresentou crescimento de 22,4% em relação a outubro de 2010, enquanto o serviço móvel refletiu incremento em torno de 101,1%, no mesmo período. Diversos fatores contribuem para o crescimento do mercado de banda larga móvel, entre os quais a popularidade de smartphones e tablets e os planos de dados para aparelhos pré-pagos.

O Brasil iniciou o mês de outubro com 227,4 milhões de celulares ativos, sendo 185,6 milhões pré-pagos (81,64%) e 41,7 milhões pós-pagos (18,36%), conforme dados da Anatel. Desse total, cerca de 36,5 milhões são celulares 3G (não necessariamente aparelhos smartphones), aproximadamente 15,8% dos celulares no país. Apesar deste significativo crescimento, os smartphones representam apenas 5,8% de todos celulares vendidos no país no terceiro trimestre de 2011. Em relação aos demais aparelhos de terceira geração, os smartphones possuem dispositivos multimídia avançados que permitem a simulação da experiência com um computador pessoal em uma tela menor. Por esse motivo representam uma oportunidade em termos de plataforma móvel para a oferta de conteúdo audiovisual.
A Ancine define oferta audiovisual em dispositivos móveis como um conjunto de atividades encadeadas, realizadas por diferentes agentes econômicos envolvidos com a prestação dos serviços de oferta de canais de programação por difusão linear, ou via catálogo de obras audiovisuais por difusão não linear. Este conteúdo pode ser transferido por meio de streaming (modalidade em fluxo contínuo ou vídeo “ao vivo”) ou download (vídeo sob demanda). Estimar, contudo, o tamanho do atual mercado audiovisual para esses dispositivos não é uma tarefa fácil, já que é também verdade que nem todos os usuários de aparelhos 3G ou de smartphones, adquirem pacotes de dados das operadoras e, portanto, não consomem conteúdos audiovisuais por tais redes. Além dos aspectos de ordem técnica, o avanço do audiovisual em mídias móveis esbarra nos modelos de tarifação pouco claros e na falta de conteúdo relevante para o usuário, além da indefinição acerca de um modelo de receitas para as operadoras.

Estimular o debate e o envolvimento da sociedade nas importantes decisões que estão sendo levadas a efeito no campo da comunicação significa situá-las a partir de uma economia política da comunicação. Essa deve ser capaz de fornecer as bases para a identificação da extensão dos mecanismos de controle e poder que se formam a partir dos novos arranjos corporativos midiáticos na sociedade contemporânea, os quais serão relevantes na construção social das preferências de consumo em mídias móveis.

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