Edição 373 | 12 Setembro 2011

A trágica e angustiante consciência da finitude da vida

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

José María Aguirre Oraá fala sobre o pensamento de autores como Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset e José Luis Aranguren

Durante a primeira fase do Ciclo de Estudos Perspectivas do Humano, promovido pelo IHU, nos dias 16, 17 e 18 de agosto, esteve à frente dos debates o professor José María Aguirre Oraá, catedrático de Filosofia Moral da Universidade de La Rioja, Espanha. Na ocasião, ele apresentou o pensamento de Miguel de Unamuno, filósofo, reitor da Universidade de Salamanca, exilado da ditadura de Franco e morto na França. Depois, expôs o pensamento de José Ortega y Gasset, catedrático de filosofia de Madri; e por último apresentou o pensamento de José Luis Aranguren, que foi catedrático de ética na Universidade Complutense, Madri.
Sobre o pensamento desses autores, José María Aguirre Oraá concedeu uma entrevista pessoalmente à IHU On-Line, quando falou também sobre Ignacio Ellacuría. Aguirre explica que “a concepção do humano em Unamuno é a de que o homem tem uma consciência angustiada e trágica, porque realmente há o fim da vida. A vida acaba na morte, e o homem se rebela contra essa realidade. E o faz com razão, pois não pode encontrar uma resposta à morte, afinal a razão nos diz que começamos e acabamos”. O professor ainda destaca que “uma sociedade realmente humana é aquela em que é preciso construir não um estado de bem-estar, mas um estado de justiça”. E continua: “o fundamental não é construir um estado formalmente de direito, mas um estado de justiça no qual realmente a democracia política acompanhe a democracia econômica, cultural e social. Mais do que um sistema concreto de governo, a democracia deve ser composta por valores democráticos do povo, que devem ser soberanos, com participação política genuína, espaços de debate político, determinação de valores solidários e fraternos”.

José María Aguirre Oraá é professor de Filosofia Moral na Universidade de La Rioja desde 1996. Na Universidade de Lovaina, Bélgica, estudou Filosofia, doutorando-se em 1990.
É autor de livros como La philosophie en Amerique Latine (Lovaina: Ciaco, 1986); Pensamiento crítico, ética y Absoluto (Vitoria: Eset, 1990); Filosofía: historia y presente (Vitoria: Eset, 1993); Raison critique ou raison herméneutique? Une analyse de la controverse entre Habermas et Gadamer (París; Cerf, 1998); e Pluralismo y tolerancia. Un desafío a las sociedades liberales (Logroño; Claridad, 2004). Seus campos de pesquisa estão centrados na Filosofia Moral, Filosofia Política, Filosofia da Religião e na Antropologia Filosófica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a concepção do humano em Miguel de Unamuno?

José María Aguirre Oraá – A concepção do humano em Unamuno  é a de que o homem tem uma consciência angustiada e trágica, porque realmente há o fim da vida. A vida acaba na morte, e o homem se rebela contra essa realidade. E o faz com razão, pois não pode encontrar uma resposta à morte, afinal a razão nos diz que começamos e acabamos. A razão questiona nossa existência e só nesse sentido a fé permite uma abertura ao mistério de Deus. Diante da situação trágica da existência humana, para querer crer em Deus, é preciso deixar que Deus seja importante em nossa vida.

IHU On-Line – Qual é a atualidade desse pensador para refletirmos sobre o humano em nosso tempo?

José María Aguirre Oraá – Talvez a concepção das pessoas anônimas, que são quem realmente constroem a história, é algo que continua sendo atual, apesar de tanto glamour e fachada política ou econômica. Menos mal que existem homens e mulheres que, todos os dias, vão para o trabalho e estudam. São os que sustentam a sociedade. As sociedades ocidentais, inclusive a América Latina, possuem um forte sentimento religioso, e Unamuno continua nos inquietando sobre essa situação humana de que somos limitados e finitos. E a questão de que sentido tem nossa existência diante da dor, da doença e da morte, continua sendo atual, apesar de que o estado de bem-estar nos permite que vivamos bem.

IHU On-Line – De que forma essa concepção dialoga e debate com o pós-humano que se delineia atualmente?

José María Aguirre Oraá – Sou um tanto crítico com relação a essa concepção de pós-humanismo, pós-modernidade. O positivo da crítica pós-moderna é que tem se dedicado a criticar as concepções totalizantes de visões como o hegelianismo, o marxismo, o cristianismo. No entanto, não podemos cair no relativismo de que “tudo vale” ou de que uma coisa é igual à outra. É preciso ter critérios de valor para que uma coisa valha mais do que outra. Nesse sentido, Unamuno pode continuar nos provocando a pensar que a partir da existência humana é preciso ter em conta as questões de vida, de mortalidade, de sentido. E essa pode ser uma questão de ontem, antes de ontem, que o homem está sempre a buscar e precisa encontrar uma resposta. Unamuno é muito crítico com o racionalismo e com a tecnologia desenfreada. Inclusive ele fala que na Europa se tem usado muito a “Kultura”, com “k”, no sentido de ser muito bárbara, muito forte, anulando essa inquietude humana e trágica de perguntar pelo sentido da existência. Ele não está contra a ciência, a técnica, mas contra essa absorção e essa anulação das questões vitais humanas.

IHU On-Line – Em que medida o sentimento trágico da vida ajuda a compreender nossa finitude e nossa importância cosmológica?

José María Aguirre Oraá – O sentimento trágico significa reconhecer duas coisas. Uma é nossa finitude, nossa limitação, nossa situação humilde como humanos no cosmos. E a outra é o potencial de superação que implica em querer viver ao máximo a vida, em querer ser imortal, a partir de um “prolongamento” por intermédio da fama, do poder, dos filhos, dos escritos, deixando algo para a história. No entanto, Unamuno aponta aqui o problema do “meu eu” e da minha consciência que se acaba na essência da imortalidade. Essa luta para o sustento da existência é algo que precisamos ter em conta. Entre nós há pessoas que sofrem muito durante a vida pensando nisso, pois não podem aspirar à fama, ao poder, refletindo o sentimento trágico da existência.

IHU On-Line – Como podemos compreender a perspectiva raciovitalista de Ortega y Gasset?

José María Aguirre Oraá – Ortega y Gasset  insiste precisamente contra o racionalismo, o idealismo, e creio que às vezes de maneira um tanto parcial, mas escreve de maneira estupendamente bem do ponto de vista literário. Trata da insistência de que a filosofia que  parte da existência humana – um pouco como Unamuno, mas com outro sentido – significa partir da vida humana, no sentido de tudo o que a vida é. Para alguns, a existência está na circunstância de terminar. E daí temos a frase “eu sou eu e minhas circunstâncias”; “tenho uma vida, mas com uma circunstância cultural, social, econômica”. A partir disso, a razão começa a mobilizar e a perguntar, porque a vida necessita de explicações, de ciência, de sentido. Daí a expressão “raciovitalismo”: partir da vida para que a razão esclareça a quantidade de questões vitais que a nós surgem.

IHU On-Line – Em que medida esse raciovitalismo aponta para as possibilidades e as fronteiras do humano?

José María Aguirre Oraá – Essa é uma pergunta difícil, pois aponta para uma fronteira que se divide em dois pontos: a razão não é o fundamental no homem (nesse sentido, se critica Descartes , que diz “penso, logo existo”; não, não, não. O correto seria “existo, logo penso”); e em segundo lugar também a razão é uma doutrina do perspectivismo, ou seja, cada um tem uma perspectiva da realidade, e não a perspectiva da realidade. A realidade seria aquilo que atribuiríamos a Deus, porque Deus é aquele que vê tudo, mas o homem não. Talvez nós sejamos os diferentes olhos de Deus que veem a realidade. A razão tem muitas possibilidades: ciência, tecnologia, estética, ética, mas elas surgem da lógica da vida, ou seja, a razão não é o fundamental no homem; e ela tem seus limites enquanto cerceada do ponto de vista das diversas perspectivas.

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