Edição 236 | 17 Setembro 2007

Alberto Efendy Maldonado Gómez de La Torre

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IHU Online

Foi ao ministrar um evento sobre o “Pensamento Comunicacional Latino-americano”, em São Paulo, em 1998, que o equatoriano Alberto Efendy Maldonado Gómez de La Torre recebeu o convite para integrar o corpo docente da Unisinos, no campo da Comunicação. Mesmo antes de vir morar no Brasil, as afinidades com o país já existiam, tanto em áreas como a música, o teatro, a literatura e a poesia, quanto no futebol. Em entrevista à revista IHU On-Line, o professor falou, entre outros aspectos, sobre a sua vida no Equador, a mudança para o Brasil e a visão política do seu país de origem. Confira, abaixo, a entrevista:

Infância – Foi uma infância maravilhosa para mim. Primeiro, porque tive a sorte de morar na praia, com um clima entre 18 e 28 graus todo o ano. A minha escola ficava à beira-mar, no Pacífico. Foi uma combinação interessante. Estudei em uma escolinha de capuchinhos muito boa, em termos acadêmicos. Eles tinham um método que conseguiram que eu aprendesse a ler em três meses e meio, que combinava ensino e brincadeira. Dentro das possibilidades lúdicas da criança, fui privilegiado. Viajava-se muito e se circulava muito para explorar lugares. Ainda não existia uma consciência ecológica mais sofisticada, como é hoje, mas se aprendia a ter carinho pela gaivota, pelo caranguejo. Sou o mais velho de oito irmãos, duas mulheres e três homens, o que sempre dá mais responsabilidade, um papel de coordenação. Essa foi a primeira turma. Depois, chegaram duas mulheres e um homem. Com meus irmãos também foi interessante. Os quatro gostavam muito das aventuras, de sair para coletar frutas silvestres, pegar iguanas e brincar com os animais. Tive influência de leitura, aprendi a amar a leitura. Na época, havia escolas masculinas e escolas femininas, mas a minha era mista. Fui um privilegiado nesse sentido.

Vida no Equador – Foi um choque sair da praia e ir morar na capital. Fui para uma cidade na qual já existia essa questão de ficar cada um no seu apartamento e de diferentes níveis sociais, o que impedia a circulação e o intercâmbio de experiências culturais. Havia uma postura educativa conservadora. Eu lembro que tentavam me disciplinar e, às vezes, eu ficava de castigo, aos finais de semana, fazendo intensivos trabalhos físicos. Lembro que não gostava tanto da vida na cidade quanto da educação. Tive a sorte que os jesuítas inventaram a educação liberadora, e chegaram jesuítas de vários países, o que fez mudar completamente a perspectiva. Com isso, me formei em um ambiente mais democrático. A questão acadêmica era da melhor qualidade.

Mudanças e estudos - Mudei de lugar várias vezes na cidade. Fui para bairros que ainda eram novos, onde ainda podia se sair para a montanha e brincar com outros adolescentes, jogar futebol e fazer andinismo. Comecei a ter uma vida social maior. Depois, o colégio em que estive era bom e orientava de acordo com os talentos de cada estudante. Eu gostava muito de história, de poesia, de matemática, de física. Isso em outros lugares era impossível, porque as opções eram direito, medicina ou engenharia. E eles me permitiram trabalhar e gostar do que eu fazia. Consegui passar e ter uma base muito forte, o que me permitiu a continuidade tanto nas Ciências Exatas quanto na Comunicação. Nosso diploma politécnico tinha reconhecimento internacional, pelos professores da URSS, França, Índia, Alemanha e dos Estados Unidos. Era uma época de ditadura e de muita politização. Os policiais, constantemente, ficavam na rua. Eu morava perto da universidade nacional. Éramos adolescentes e, ao mesmo tempo em que estávamos na rua jogando basquete ou futebol, estávamos no meio das manifestações.

Graduação - A nossa universidade (Escola Politécnica Nacional) foi um centro importante de produção de pesquisa e cultura, porque, apesar de ser da área técnica, ela dava uma formação filosófica, antropológica e sociológica até melhor que a dos cursos de Ciências Sociais. O sistema já era de créditos, e os estudantes tinham que aprovar créditos em artes, economia política, sociologia, antropologia e metodologia do trabalho científico. Daí surgiu o meu elo com a Comunicação, porque eu escrevia para o jornal da universidade, fui coordenador do cineclube e, finalmente, fui ator do grupo de teatro da Politécnica e professor na universidade. Talvez seja interessante falar do elo que foi se estabelecendo entre Ciência e Comunicação. Cheguei a ser diretor do Cineclube, que era um centro muito ativo, pois tínhamos um bom orçamento (país petroleiro) e podíamos comprar filmes. O Cineclube me permitiu uma aproximação muito interessante com o cinema. Era cinema-fórum, ou seja, assistia-se ao filme e fazia-se uma reflexão sobre o mesmo. Acho que já nasci cinéfilo. Fugia de casa para ir ao cinema, na minha cidadezinha, na época de criança. Fazia qualquer coisa para ir ao cinema. Entrei também para o rádio. Tínhamos um noticiário na Rádio Continente, às 18h, que foi várias vezes censurado pelo governo ditatorial. Ao mesmo tempo, era muito emocionante, porque tudo o que fazia era reconhecido pela população. Outra coisa muito boa para a minha formação foi o teatro. Seguimos a linha da criação coletiva do teatro livre de Cáli, na Colômbia, que tinha dois dramaturgos importantes, de sobrenome Buenaventura. Com o tempo, fui descobrir que isso também era comunicação. Por um período, fui professor de cálculo, trigonometria e física. Depois de seis anos é que entrei para a comunicação. Tivemos um noticiário com maior audiência, na Rádio Sideral, que tocava música caribenha, latino-americana, blues. Nosso noticiário combinava a alegria do ritmo com um formato distinto, que abordava outras coisas, tanto da vida cotidiana quanto da vida política, da arte e do esporte.

Envolvimento político - Participamos da formulação da Constituição de 1978, que foi muito avançada no contexto internacional. Em 1979, fomos os primeiros a terminar com a ditadura e ensaiar o modelo democrático representativo (na fase pós-ditaduras). A República do Equador teve separação entre a Igreja e o Estado, educação laica e educação das mulheres e divórcio, em 1895, muito antes que a maioria dos nossos países. Em 1977-1978, ainda governava a ditadura, mas o primeiro passo para a redemocratização foi a aprovação de uma nova Constituição. Foi um processo de profundidade política massiva: comunidades indígenas, bairros populares, universidades, cooperativas, sindicatos, escolas, comunidades eclesiais, clubes e grupos culturais refletíamos sobre alternativas de país, auto-governo, ciência, educação, justiça social, solidariedade, racismo e vida cotidiana. Participei da luta contra a ditadura desde os 16 anos. Quando tinha entre 17 e 18 anos, ingressei na universidade e minha formação política tornou-se sistemática, aprendi muito dos mestres e das pessoas simples. Era impressionante ver a valentia das mulheres, com filhos, confrontando a repressão armada. Essas foram as minhas primeiras participações políticas. Depois, cheguei a ser presidente da Federação de Estudantes de Jornalismo do Equador e dirigente político de organizações alternativas.

Casamento – Quando conheci a Maria, já era professor universitário na Faculdade de Comunicação, diretor do Centro de Pesquisas (ICOS), chefe de relações públicas na prefeitura, produtor de TV, jornalista e dirigente político. Ela é de outra cidade, Flávio Alfaro, de outra região, esta era tropical e eu morava na época nos Andes, em Quito. Foi por uma magnífica coincidência e por um engano que a conheci. Lançamos o jornal regional “O Tambor”, fora da capital, numa feira indígena, e o lançamento era uma festa, porque 20% da população comprava o nosso jornal: sendo uma cidade pequena, era de grande circulação. Após o lançamento do jornal, o pessoal queria ir para as festas da capital, porque queria dançar música tropical. Eu não queria ir. Era crítico a essas festas. Me falaram: “El Gran Combo” de Porto Rio vai tocar nas festa; essa é (ou era, não sei) uma orquestra clássica de salsa (música caribenha). Eu adorava o ritmo e decidi ir à festa. Não tinha transporte para a capital. Conseguimos alugar uma Kombi; éramos mais ou menos 20 pessoas. Eles me enganaram para ir, porque não tinha apresentação de nenhuma banda de Porto Rico. E isso foi ótimo, porque conheci a Maria. Depois de um ano de namoro, casamos. Não começamos a namorar imediatamente. Acho que foi um mês e meio de aproximação. Ela também tinha uma tradição cultural de circulação forte. Aos 14 anos, saiu de casa e foi morar fora, com o apoio dos pais. O pai dela acreditava que a mulher tem que ser independente. Ele deu estudos para as filhas para que elas fossem independentes. Nossos dois filhos mais velhos, o Rafael, de 16 anos, e o Emiliano, de 20, nasceram em Quito, no Equador. E a Maitê, de 14 anos, a mais nova, nasceu em São Paulo. Quando o Rafael estava com cinco meses, eu vim para o Brasil, março de 1991.

Vinda para o Brasil – Eu estava na despedida de um amigo brasileiro, que estava voltando para o Brasil, e conheci fazendo teatro popular nas vilas no sul de Quito. Eu trabalhava no Centro de Pesquisas e ele perguntou se eu não gostaria de fazer uma pós-graduação. Ele, então, sugeriu que eu participasse de uma seleção. Era uma coisa difícil, pois eu não sabia português, e teria que aprender para fazer a prova. Eu gostava do futebol e da música do Brasil, que conhecia pelos filmes. Tive a sorte de assistir a um jogo do Pelé, aos sete anos de idade. Foi entre Santos e a Liga Desportiva Universitária. Fiquei maravilhado de assistir ao jogo. Neste momento, me “naturalizei” brasileiro, na questão de futebol. Então, já existiam afinidades muito fortes com o Brasil. Estudei o português por três meses, passei na prova e entrei para o processo classificatório. Fui aceito em cinco universidades, entre elas UFRJ, USP e PUC-SP, e não tinha idéia de como eram as instituições. Perguntei qual era a universidade que deveria escolher e me falaram para escolher a Universidade de São Paulo (USP). Entrei na USP, em 1991, e fui entrando na lógica acadêmica brasileira, que me fascinou já no primeiro ano. Nunca mais voltei a morar no Equador. De 2004 a 2005, morei na Espanha, para fazer o pós-doutorado. Depois de um ano,em 1992, a minha família veio para o Brasil. Fomos abrindo campo em São Paulo. Lembro que colaborava com o Centro de Estudos em Saúde Mental da América Latina, em Perdizes (SP), fazia monitorias culturais e free-lance. Depois, passei a atuar como professor e pesquisador na USP e na Universidade de Santo Amaro. Entrei nos grupos de pesquisa, o que foi muito bom para a minha formação. Desde quando estava no Equador, já participava de grupos intelectuais, tanto na área de Ciências Exatas como na Política, na História e na Comunicação. Em 1987, fundamos um Centro de Pesquisas (ICOS), com influência latino-americana, no qual fiz um trabalho de pesquisa, durante cinco anos, sobre a cobertura internacional dos grandes jornais equatorianos.

Ingresso na Unisinos – Em 1998, na Cátedra Unesco, na Universidade Metodista de São Paulo, havia um evento sobre “Pensamento Comunicacional Latino-Americano”, e, como um dos meus objetos de pesquisa era o teórico Jesús Martín Barbero, sendo que esse ano o seminário estava dedicado ao autor, fui convidado a ministrar uma palestra e apresentar um texto que seria publicado em um livro. No público, estava o Pe. Pedro Gilberto Gomes, que era vice-reitor da Unisinos na época. No final da conferência, ele se aproximou e me convidou para trabalhar na Unisinos. Todos nós queríamos sair de São Paulo, porque a violência era muito forte. Foi por causa do convite do vice-reitor que viemos para o Rio Grande do Sul. O nível daqui é muito bom e as condições de vida, principalmente para a minha família, eram melhores. Conheci a Unisinos em dezembro de 1998. Existia o projeto de criação do doutorado, que começou em março de 1999, e cheguei aqui em junho. Me adaptei rapidamente e os colegas me acolheram muito bem. Sempre existem as adequações burocráticas e culturais, mas a Unisinos tem sido uma casa para mim. Só tenho a agradecer.

Mensagem para a universidade - Que se continue e se aperfeiçoe a postura crítica humanista, que se encontra nos documentos da Associação de Universidades Jesuítas na América Latina (AUSJAL), nas diretrizes gerais dos jesuítas do mundo. É necessário lapidar o compromisso com os setores excluídos, com as classes populares. Do outro lado, que o rigor acadêmico, essa distinção das instituições jesuítas do mundo, seja cultivado de uma forma democrática e aberta, permitindo várias correntes de pensamento. A Unisinos já é uma referência no Brasil e tem presença na comunidade ibero-americana. Espero que ela continue nesse caminho para alcançar melhores níveis de internacionalização, de humanização e sensibilidade, que esteja presente no mundo de uma forma transcendente.

Cultura – Para manter a cultura, a primeira coisa é manter a língua. Minha filha, que é paulista, fala espanhol, porque, em casa, nós só falamos este idioma. Várias vezes organizamos, aqui e em São Paulo, encontros de equatorianos, e se faz a divulgação da música, da literatura e da história. Penso que essa cultura tem origem no Equador, mas é uma cultura latino-americana. Tivemos um fluxo muito alto de exilados para o Equador, principalmente da Argentina, do Chile e do Uruguai. Tenho a marca da América Latina. Não é diferente o que se vê na culinária. Na minha casa, tem comida chilena, cubana, mexicana e gaúcha.

Situação do Equador – O Rafael Correa foi formado com os salesianos e aprendeu a questão do trabalho eclesial de base nas comunidades na província de Cotopáxi, uma das mais pobres do Equador. Nós já tivemos um presidente graduado em Harward, Jamil Mauad, que fez as piores coisas possíveis, desenhou uma política de fundamentalismo de mercado terrível. Então, o lado intelectual não existe apenas numa pessoa que tem um diploma em uma boa universidade. O Rafael Correa tem, sim, uma formação acadêmica boa e forte, além de uma postura democrática, apesar do seu jeito um tanto populista, de confrontar-se, de lidar com os jornalistas sensacionalistas. Como também foi um educador, montou seu ministério com quadros estratégicos, mostrando um significativo compromisso político com transformações profundas. Tem equipes fortes, principalmente nas áreas estratégicas de petróleo, de economia, na área social e na educação. O Rafael Correa tem apoio neste momento, mas precisa mudar uma cultura que está expandida, a cultura do jeitinho, que não é tipicamente brasileira, a cultura da corrupção, a cultura patriarcal-autoritarista. Existem questões culturais que estão permeando o conjunto social, da direita à esquerda, do pobre ao grande empresário. Por outro lado, parece que as pessoas se cansaram de ter uma involução tão significativa no econômico, no social, no educativo, em todos os sentidos. Sou otimista, mas sei o quanto é difícil mudar isso. Hoje, acreditam que um outro mundo é possível e caminham nessa direção.

Instituto Humanitas - Penso que é um centro crucial para garantir o pensamento filosófico crítico livre e renovador na Unisinos. Acompanho suas publicações semanalmente, utilizo seus materiais nas disciplinas e trabalhos de grupos de pesquisa e estudo suas propostas com carinho e fraternidade. Sinto-me unido à sua profunda veia ética e às suas proposições e linhas de pensamento. Desejo para o IHU um futuro frutífero e expansivo, de maior penetração na universidade e na sociedade regional.

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