Edição 236 | 17 Setembro 2007

Hidrelétricas: “Não há fonte alternativa que vença essa opção”

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As hidroelétricas são convenientes, pois duram muito tempo e conseguem gerar energia todos os dias, afirma Roberto D’Araujo. “Há exemplos de hidroelétricas construídas na década de 20, do século passado e que geram energia do mesmo modo quando foram inauguradas”. Apesar das críticas, ele ressalta que “a energia hidroelétrica é a energia renovável de grande escala no mundo”.


Sobre a maior inclusão de energias renováveis na matriz energética brasileira, D’Araujo diz que “há um romantismo na questão”. Para ele, essas fontes não “geram energia de forma permanente”.  E destaca que qualquer fonte energética polui, até mesmo a energia solar. Essas e outras declarações foram concedidas à IHU On-Line, por e-mail.

Roberto D’Araujo é engenheiro eletricista, mestre em Engenharia de Sistemas e Controles, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). D’Araujo foi chefe do Departamento de Estudos Energéticos e de Mercados Furnas Centrais Elétricas, e diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico, entre 1999 e 2004. Atualmente, é professor no MBA da COPPE área de Petróleo e do IUPERJ Escola de Políticas Públicas.

IHU On-Line - O senhor fala que o Brasil pode ser a maior potência hidrelétrica do mundo. Que vantagens essa atitude traz para o País?
Roberto D’Araujo -
Segundo dados da F.A.O. (Food and Agriculture Organization of the United Nations - Review of World Water Resources by Country, Rome, 2003), o Brasil possui 18% dos recursos hídricos do planeta. Mesmo se descontarmos o Rio Amazonas, que nasce fora do território nacional, o Brasil tem 12%. A Rússia é a segunda colocada. Cerca de 60% do volume de água que correm nos rios estão concentrados em apenas 10 países. Se energia hidráulica fosse petróleo, nós seríamos os árabes.

A vantagem é que, apesar das críticas, a energia hidroelétrica é a energia renovável de grande escala no mundo.

O que os críticos não consideram é que hidráulicas duram muito tempo. No Brasil, sem falar nas pequenas usinas, há exemplos de hidroelétricas construídas na década de vinte do século passado e que geram energia do mesmo modo quando foram inauguradas. São 90 anos gerando energia todos os dias. Portanto, sob o conceito de serviço pelo custo, o consumidor brasileiro já teria energia de diversas hidroelétricas totalmente amortizadas. O sistema mercantil, que associa um tempo máximo de concessão de 30 anos, não considera essa extensa vida útil. A privatização, feita principalmente para arrecadar recursos para abater a dívida pública, vendeu usinas sem considerar o que já tinha sido amortizado pelo consumidor. Foi essa mudança (não adotada no Canadá e Estados Unidos, por exemplo) que fez com que perdêssemos a indiscutível vantagem do nosso parque hidroelétrico.

IHU On-Line – O Brasil precisa de tantas hidrelétricas?
Roberto D’Araujo -
Respondo com outra pergunta. O Brasil precisa de mais energia elétrica? Para aqueles que acham que não precisa, essas 15 hidroelétricas do PAC não servem para nada. Para aqueles que acham que o País precisa produzir mais energia, a pergunta deve ser: se não forem hidroelétricas, quais são as opções? Penso que, antes de condenar as hidroelétricas, é preciso saber quais são as opções. Nada é melhor do que a conservação de energia e melhorar o rendimento no seu uso. Não há fonte alternativa que vença essa opção. Mas, se essa política não puder ser adotada, ou porque exige um altíssimo grau de envolvimento da própria população, ou porque exige do governo uma verdadeira política industrial, é bom se preparar para debater as opções.

IHU On-Line - Alguns especialistas afirmam que as hidrelétricas geram muita perda de energia. Mesmo assim, o governo investe e apóia a construção de hidrelétricas. Por que não se investe em outras fontes renováveis?
Roberto D’Araujo -
Desconfiem de especialistas que afirmam isso. Energia Hidráulica nada mais é do que energia solar + gravidade. O ciclo hidrológico da terra, que faz com que a água se evapore e forme nuvens que precipitarão chuvas sobre os continentes, é fruto da energia solar. A geração de eletricidade é simplesmente o aproveitamento da diferença de potencial de um volume d’água que está acima do nível do mar. O rendimento da transformação dessa energia é da ordem de 90%. A melhor das usinas térmicas, a gás, ciclo combinado, não conseguem atingir 60% de rendimento. Transmissão em alta voltagem perde no máximo 4%. As perdas reais estão nas redes de baixa tensão.

Há um romantismo sobre as outras fontes renováveis, a eólica, por exemplo. Contudo, basta refletir um pouco para perceber que esse tipo de fonte, por não gerar de forma permanente, exige um “backup”, alguém tem que gerar quando não venta. Se o substituto for uma térmica, onde fica a renovabilidade?

IHU On-Line - Que condições ambientais devem ser impostas para as hidrelétricas?
Roberto D’Araujo -
Qualquer fonte energética polui. Mesmo a energia solar, tão elogiada, polui por exigir a fabricação de materiais extremamente poluentes usados nos painéis solares.
Evidentemente, a construção de uma hidroelétrica causa problemas ambientais, que se não forem cuidados serão muito graves. Entretanto, há benefícios que não são computados. Por exemplo, a cidade de Cuiabá, antes da construção da usina de Manso, sofria de enchentes que, além de prejuízos materiais, matavam pessoas. Depois da construção da usina, o controle de cheias se tornou um subproduto da usina gratuito. Ninguém paga por esse serviço porque a tarifa é suficiente para custear essa vantagem. Compensações a estragos ambientais inevitáveis poderiam ser feitas desde que a usina não fosse considerada apenas uma fábrica de kWh. Infelizmente, o modelo que trata a energia apenas como uma mercadoria nos coloca esse dilema, agravando os conflitos nos projetos futuros. Não sei como serão negociadas as mitigações em projetos cujo único interesse do investidor é a tarifa de energia.

IHU On-Line - O senhor já criticou o modelo no setor elétrico e defendeu que a Eletrobrás fosse a única compradora de energia. O senhor ainda defende essa idéia? Quais os argumentos que sustentam essa posição? Que vantagens essa medida traz para o consumidor?
Roberto D’Araujo -
Em primeiro lugar é importante lembrar que defendi essa posição quando se estava discutindo as bases do modelo que iria substituir o que causou o racionamento de 2001. Hoje, seria fora de propósito defendê-la, dada a opção adotada pelo governo.  Em minha opinião, o modelo atual é muito melhor do que o anterior. Mas, mesmo assim, posso explicar porque isso seria melhor para o consumidor.

Existem sistemas que se configuram como monopólios naturais, ou seja, têm características que fazem com que surjam ganhos de eficiência se forem explorados por uma única empresa. O sistema de geração-transmissão brasileiro é um deles. Tanto que, para implantar o sistema mercantil, foi preciso fazer uma complicadíssima adaptação. Por exemplo: uma usina no Sistema Inglês vende a sua própria energia. Ou seja, existe uma ligação perfeita entre produção e remuneração. No Brasil, uma usina não vende sua própria energia. Ela vende uma cota da produção total do sistema. A parcela que cabe a ela é calculada fazendo-se uma simulação de todo o sistema, com e sem a usina, para saber a influência que ela tem na produção total. Essa diferença não é o que ela gera. Pode ser gerada por outro. É estranho e complicado, mas verdade.

Foi impossível adaptar a concepção mercantil sem adotar um Operador Nacional que opera as usinas como se todas fossem de sua propriedade. As regras são rígidas e um dono de usina, que desobedeça a uma instrução do ONS , pode levar uma pesada multa. Ora, o que é o operador nacional senão o monopolista? E o que faz a CCEE, Câmara de Comercialização? Ela compra e repassa toda a energia às distribuidoras. Ou seja, faz o que a Eletrobrás poderia fazer na proposta desprezada. Além disso, quantos órgãos hoje são necessários para fazer a coordenação que era feita pela Eletrobrás? Isso não custa nada?

A grande diferença é que não apenas eu mas um grupo de técnicos sugeriu que os investidores, donos das usinas, recebessem uma receita constante, como se fosse um aluguel ou um “leasing” de sua usina. Ou seja, a usina é dele, mas a água que gera a energia é do sistema. Isso eliminaria uma séria de absurdos que ocorreram no mercado de curto prazo e que seria difícil explicar em pouco espaço.

Monopólios naturais não devem ser desmontados, sob pena de se perder as vantagens inerentes a ele. Devem sim ser fortemente regulados para transferirem essas vantagens à sociedade. Essa seria a vantagem do consumidor.

IHU On-Line - Numa entrevista, o senhor disse que nós temos uma energia barata e questiona as preocupações com as fontes alternativas, pois elas encarecem o produto. Garantir energia mais barata é mais importante do que se preocupar com os impactos ambientais que essas fontes podem gerar?
Roberto D’Araujo -
Eu devo ter dito que nós poderíamos ter energia barata. Hoje temos uma das mais caras do mundo! Quem tiver curiosidade procure o documento “Key World” na página da Agência Internacional de Energia (www.iea.org). Lá se encontram as tarifas residenciais e industriais dos países da OCDE. Depois, entrem na página da ANEEL (www.aneel.gov.br) e peguem a tarifa média no Brasil. O número que vocês vão encontrar é sem impostos e a tabela da IEA é com impostos. Se usarem 1 US$ = R$ 2, irão descobrir que o Brasil, sem os impostos, paga mais do que a França com impostos! O Brasil, sem impostos, paga quase o dobro do que o Canadá, país com muitas hidroelétricas e que não privatizou suas estatais de energia e nem adota o modelo de mercado (vide Hydro-Quebec e British Columbia Hydro).

Não sou contra as fontes alternativas. Acho apenas que há uma visão fantasiosa sobre elas que esquece os custos. Se é para pensarmos na expansão apenas com “alternativas”, é bom ir pensando em quem vai pagar os subsídios necessários.

Ao invés disso, o que deveríamos estar discutindo é muito mais o uso que se faz da energia do que o que a produz.

É bom não esquecer que o consumo médio residencial brasileiro não passa de 140 kWh/mês. Algumas capitais brasileiras, Fortaleza, por exemplo, ostenta o vergonhoso índice de que 20% dos domicílios não têm geladeira! Imaginem toda essa gente com uma geladeira, item mínimo de conforto no século XXI? Entretanto, uma geladeira fabricada no Brasil consome muito mais energia do que uma americana. E por quê? Porque o Brasil, ao invés de exigir dos fabricantes o uso de compressores eficientes, prefere rotulá-los de A,B,C etc . Os Estados Unidos, ao contrário, definiu um item mínimo de eficiência (revisto de tempos em tempos) e proibiu aparelhos com índices abaixo desse mínimo. Aqui, a geladeira com a pior “nota” é geralmente a mais barata e é adquirida pelo mais pobre. Esse é apenas um exemplo sobre ineficiência no uso da energia.

Além disso, temos um estilo de economia exportadora de produtos eletro-intensivos. Portanto, o padrão de consumo é subproduto do debate sobre que estilo de crescimento queremos, e não o contrário.

IHU On-Line - A idéia de construir Angra IIII é equivocada?
Roberto D’Araujo -
Se nada for feito para se alterar o nosso padrão eletrointensivo, a opção nuclear é uma das poucas que não geram gás de efeito estufa. Só que, com o que se está prevendo gastar em Angra III, seria possível construir usinas hidráulicas muito mais baratas e com muito mais cuidado ambiental. Mais uma vez a pergunta: quem paga?

IHU On-Line - Como o senhor percebe as construções de PCHs? Elas podem ser uma alternativa para o problema energético brasileiro? 
Roberto D’Araujo -
Se a única vantagem de uma usina continuar a ser medida somente pela energia que ela produz e a desvantagem pela área alagada, lamento informar que o índice MW/km2 é bem melhor para grandes hidráulicas do que para PCH’s. Novamente, a PCH parece ganhar uma simpatia por ser pequena, quando, em média , além de causar mais problemas ambientais por MW, pode ter uma apropriação que socializa os prejuízos e privatiza os benefícios.

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