Novos potenciais para a matriz energética

Apostar em energia eólica, solar e nos biocombustíveis é fundamental para acrescentar alternativas de potencial energético, “evitando futuros impactos que novos empreendimentos hidrelétricos de grande escala possam provocar”. A opinião é do engenheiro Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energia do Greenpeace Brasil. Para que aumente o percentual de energias renováveis na matriz energética nacional, Baitelo afirma que “é necessário um novo marco legal no País, evoluindo da escala piloto atual (Proinfa) para uma lei com metas mais ousadas, que estabeleça outros parâmetros para a formação de preços de fontes energéticas”.

Por: IHU Online



Ricardo Baitelo é graduado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Na mesma universidade, concluiu o mestrado na área de eficiência energética.
Baitelo já foi entrevistado pela IHU On-Line, em 4-6-2007. A entrevista Revolução energética. A proposta do Greenpeace está disponível no sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu). Confira outras declarações na entrevista a seguir, realizada por e-mail.

IHU On-Line - O governo brasileiro optou pela construção da usina nuclear Angra III, e os investimentos em outras fontes energéticas ficaram de lado. O que essa atitude representará para o Brasil no futuro?
Ricardo Baitelo -
A construção de Angra III sinaliza a retomada do programa nuclear brasileiro e a opção por uma forma de geração energética cara, poluente e extremamente perigosa em oposição a investimentos em energias e tecnologias renováveis muito mais baratas e promissoras.

IHU On-Line - O que significaria e representariam a construção de quatro usinas nucleares no Brasil, até 2030?
Ricardo Baitelo -
Representaria um enorme dispêndio de investimentos e o acúmulo de grande quantidade de resíduos radioativos, que até agora não tem destino em nenhum tipo de depósito permanente no Brasil.

IHU On-Line – Qual é o modelo de matriz energética que garantirá o desenvolvimento a longo prazo para o país e a segurança energética?
Ricardo Baitelo -
Um modelo, de acordo com o nosso relatório [r]evolução energética, que aposta nas tecnologias eólica e solar, na próxima geração de biocombustíveis pela via celulósica (que não implicarão nos impactos ambientais e sociais atualmente presentes) e, principalmente, na eficiência energética como ferramenta fundamental para o melhor gerenciamento (incluindo transmissão e uso final) da energia já gerada atualmente.

IHU On-Line - Fontes alternativas para compor a matriz energética brasileira irão superar a economia das usinas hidrelétricas?
Ricardo Baitelo -
A idéia das alternativas não é de substituir a geração hidrelétrica preponderante no sistema nacional, mas sim de acrescentar alternativas de potencial energético, evitando futuros impactos que novos empreendimentos hidrelétricos de grande escala possam provocar. Os mercados de energia eólica e solar vêm apresentando crescimentos anuais de até 30% e certamente contribuirão para o crescimento econômico nacional e para a geração de empregos.
 
IHU On-Line - Num país como o Brasil, onde o consumo de energia é muito elevado, inovações como energia eólica e solares serão eficientes? 
Ricardo Baitelo -
Estas energias são eficientes, considerando seu enorme potencial em território nacional e sua aplicação. A energia eólica pode complementar a geração hidrelétrica nos períodos secos, e a energia solar tem uma função importantíssima no atendimento a comunidades isoladas do sistema elétrico.

IHU On-Line - Que vantagens a energia descentralizada poderá gerar para a sociedade? Essa possibilidade fará parte do futuro brasileiro?
Ricardo Baitelo -
A energia descentralizada tem a grande vantagem de trazer energia a locais onde a chegada da rede elétrica é técnica e/ou economicamente inviável e reduz consideravelmente as perdas de transmissão de energia, ao gerar eletricidade mais perto do local de uso.

IHU On-Line - O que a quarta edição do relatório Geração Solar, lançado pelo Greenpeace e a Associação da Indústria Fotovoltaica Européia (AIFE), propõe para aumentar a utilização de energia solar?
Ricardo Baitelo -
O relatório conclama os governos a investirem em energia fotovoltaica  através de programas que considerem a adoção de tarifas feed-in, que garantam um preço fixo e subsidiado à energia solar disponibilizada à rede elétrica. Este tipo de mecanismo tem sido decisivo para o desenvolvimento do mercado solar, que hoje movimenta mais de 9 bilhões de euros no mundo e pode movimentar até 300 bilhões de euros em 2030.

IHU On-Line - Um dos slogans da revolução energética diz que, para prevenir as mudanças climáticas, precisamos de uma revolução na política energética e uma evolução na maneira como usamos a energia. Que mudanças o Greenpeace propõe para mudar a política energética?
Ricardo Baitelo -
O Greenpeace propõe, como medidas principais, a eliminação gradual de subsídios às fontes mais poluentes de energia, como carvão, diesel e energia nuclear e a internalização de seus impactos socioambientais; a definição de metas obrigatórias de participação de energias renováveis na matriz elétrica brasileira; a garantia de acesso prioritário a essas energias na matriz e retorno definido para os investidores destes setores;  o estabelecimento de padrões mais rigorosos de eficiência energética e metas mais ambiciosas para programas governamentais de eficiência energética, uso racional e combate ao desperdício.

Para que as novas fontes renováveis tenham uma maior representatividade na matriz elétrica nacional, é necessário um novo marco legal no país, evoluindo da escala piloto atual (Proinfa) para uma lei com metas mais ousadas, que estabeleça outros parâmetros para a formação de preços de fontes energéticas.

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