Edição 382 | 28 Novembro 2011

Soja do Cerrado: mercado promissor de exportação do Brasil?

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Thamiris Magalhães

Quando o “pai da soja no Brasil” iniciou sua pesquisa, ainda na década de 1960, o Brasil inteiro não produzia 500 mil toneladas do grão. Hoje, existem propriedades no Mato Grosso que plantam mais de 100 mil hectares

A soja do Cerrado tem exercido papel fundamental de exportação para o Brasil. “Quando comecei a trabalhar com a soja, não poderia imaginar que se tornaria a cultura mais importante de exportação do país. Hoje, temos metade da nossa produção de grãos no sul e outra metade no Brasil central. Isso dá uma estabilidade enorme ao país. Nós não temos tido grandes quebras de safras nos últimos anos porque nunca irá faltar água no Brasil inteiro”, declara Romeu Afonso de Souza Kiihl, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Para ele, atualmente se pode plantar soja do Maranhão ao Rio Grande do Sul e da Bahia a Rondônia. “O Brasil central, hoje, é responsável por mais da metade da soja que produzimos no país. Estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Bahia são ou serão grandes áreas produtoras de grãos, fibras e carne. Além disso, vislumbro, em médio prazo, a integração pecuária e agricultura, que nos tornará imbatíveis na produção desses produtos, porque em alguns anos se faz pastagem e, em outros, agricultura. Esse sistema é maravilhoso”, afirma. E acrescenta: “vejo um futuro brilhante para o Brasil na área de agricultura, pecuária e silvicultura. Nós vamos ser um dos melhores do mundo”.

Romeu Afonso de Souza Kiihl possui graduação em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, mestrado em Melhoramento Vegetal pela Mississippi State University e doutorado em Agronomia Vegetal pela mesma instituição. Atualmente é Diretor Científico e Pesquisador da TMG Tropical Melhoramento e Genética Ltda. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em melhoramento vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: fotoperiodismo, soja e resistência a doenças. Recebeu os títulos de “Pai da soja no Brasil”, “pioneiro da agropecuária do Brasil” e “desbravador da soja no Cerrado”. Foi escolhido pela revista Veja como um dos 50 brasileiros que mudaram a regra do jogo e ajudaram a criar um novo mundo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor conseguiu ser o desenvolvedor de cultivos de soja adaptadas à região do Cerrado, uma vez que as terras eram consideradas inadequadas para a agricultura?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – É simplesmente uma combinação da pessoa certa, no lugar certo, no momento certo. Tive a felicidade de ter trabalhado no Instituto Agronômico de Campinas e lá conheci alguns trabalhos que estavam sendo iniciados, tentando desenvolver a soja para o plantio nas entre safras do arroz no Vale do Paraíba. E quando presenciei esses ensaios, tinha feito a pós-graduação nos Estados Unidos com o maior pesquisador na área de melhoramento de todos os tempos, chamado Edgar Emerson Hartwig. Então, fiz a pós-graduação com ele e tive um treinamento muito bom em fotoperiodismo. Isso em 1968. Quando conheci os trabalhos que os meus colegas agrônomos estavam desenvolvendo no Vale do Paraíba no inverno, percebi que eles estavam pesquisando uma soja chamada “Santa Maria”, que crescia em dias curtos. Então, disse para eles que poderia fazer melhor que aquilo. No ano seguinte, levei muitas populações para o Vale do Paraíba e lá nós selecionamos uma série de linhagens que deram origem às primeiras sojas adaptadas às médias latitudes. A soja é originária de uma região, na China, com 40º, 45º de latitude. E ela se desenvolveu inicialmente no mundo em latitudes semelhantes. Então, a adaptação foi fácil. Para o Brasil, usamos uma característica que, na época, chamávamos de florescimento tardio em dias curtos. Fiz minha tese de doutorado nesse assunto. Passei a entender como era realizado o controle genético. Nós conseguiríamos manipular esses genes para desenvolver soja para baixas latitudes, inclusive a 0º. Hoje, chamamos tal característica de período juvenil longo (é o que nós chamávamos nos anos de 1960 de florescimento tardio em dias curtos). Com isso foi possível adaptar a soja do Rio Grande do Sul ao Maranhão, da Bahia a Rondônia. Então, foi algo extremamente simples. Saindo do Instituto Agronômico de Campinas fui para o IAPAR e depois para a Embrapa, onde tive a oportunidade de interagir com todo o sistema de pesquisa no Brasil.

IHU On-Line – Qual foi o resultado de seu trabalho intenso com relação à soja?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – Conseguimos desenvolver variedades para qualquer lugar do Brasil. Localizei-me em Londrina, no Centro Nacional de Pesquisa de Soja, que hoje se chama Embrapa Soja. E, através de uma combinação de épocas de semeaduras, sendo que começamos a semear em setembro e indo até novembro, selecionávamos tipos para cada região do Brasil. Além disso, tínhamos colaboradores no Mato Grosso, Goiás, Bahia e Maranhão que faziam a seleção final em cada região. Por exemplo, participei da criação de boa parte das variedades adaptadas às baixas latitudes do Maranhão e Piauí, sem nunca ter estado lá. Mas sabia como seria o comportamento devido ao conhecimento do fotoperiodismo e dos genes que controlavam as características.

IHU On-Line – Como o senhor vê o fato de sua descoberta ter revolucionado a agricultura no Brasil?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – Trabalho com soja desde dezembro de 1965, que foi quando me formei. Mas inicialmente queria trabalhar com arroz. À época, nem conhecia a soja, na verdade. O caso é que, posteriormente, tive a oportunidade de ser convidado para trabalhar no setor de leguminosas no Instituto Agronômico de Campinas, com soja, e pensei que era uma planta interessante de ser trabalhada, até mesmo por ser autógama, ou seja, tudo o que eu pensava em arroz, eu poderia utilizar na soja também. Então, fui trabalhar com soja. E, quando comecei, não poderia imaginar que se tornaria a cultura mais importante de exportação do Brasil. Quando iniciei a pesquisa, o Brasil inteiro não produzia 500 mil toneladas. O estado de São Paulo, onde eu trabalhava, plantava 20 mil hectares apenas. Hoje, existem propriedades no Mato Grosso que plantam mais de 100 mil hectares.

IHU On-Line – O senhor acredita que o Brasil tem tecnologia suficiente para cultivar soja em qualquer lugar do país e em qualquer época do ano?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – As coisas não são assim. Nós fazemos uma variedade para otimizar o uso das condições climáticas. De modo geral, a soja é feita para ser plantada em outubro, novembro e ser colhida em fevereiro, março e abril. Há algumas regiões do Brasil central que muitas vezes não se consegue plantar tão cedo, devido à chuva que começa mais tarde.

IHU On-Line – De que maneira o Brasil contribui com a produção de grãos, como soja, milho, arroz e feijão, carne bovina e leite que saem do Cerrado?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – Existem algumas coisas no Brasil que, muitas vezes, nem lembramos mais. Hoje, temos metade da nossa produção de grãos no sul e outra metade no Brasil central. Isso dá uma estabilidade enorme ao país. Nós não temos tido grandes quebras de safras nos últimos anos porque nunca irá faltar água no Brasil inteiro. Hoje, podemos plantar soja do Maranhão ao Rio Grande do Sul e da Bahia a Rondônia. O Brasil central, hoje, é responsável por mais da metade da soja que produzimos no país. Estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Bahia serão grandes áreas produtoras de grãos, fibras e carne. Além disso, vislumbro, em médio prazo, a integração pecuária e agricultura, que nos tornará imbatíveis na produção desses produtos, porque em alguns anos se faz pastagem e, em outros, agricultura. Esse sistema é maravilhoso.

Ademais, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa colocou um centro de pesquisa no norte do Mato Grosso, em que serão realizadas pesquisas na área de silvoagropastoril, que é a integração de agricultura, pecuária e floresta. Vejo um futuro brilhante para o Brasil na área de agricultura, pecuária e florestas. Nós vamos ser um dos melhores do mundo.

IHU On-Line – De que maneira o melhoramento de solos e a fixação biológica de nitrogênio contribuiu para a produtividade da soja no solo nativo do bioma?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – A soja tem a grande qualidade de ser uma leguminosa. E as leguminosas têm capacidade de estabelecer uma simbiose com uma bactéria e através dessa simbiose ela fixa nitrogênio do ar.

IHU On-Line – Qual sua expectativa em relação ao futuro do país?

Romeu Afonso de Souza Kiihl – Sou otimista com relação ao nosso futuro. Gostaria de afirmar que a soja é uma cultura extremamente interessante para o sistema de produção, pelo fato de ser uma leguminosa e, por isso, fixar nitrogênio. Ademais, a filosofia dos centros de pesquisa de soja no Brasil tem como meta agredir o mínimo possível o meio ambiente. Então, ainda nos anos 1970, a Embrapa Soja montou um sistema de manejo integrado, em que fazíamos o controle mais racional possível das pragas. Sempre buscamos utilizar esse mesmo sistema para desenvolver variedades resistentes a doenças e pragas. Hoje, grande parte dos programas trabalha fortemente para resistência a ferrugem e a doenças de modo geral. Logo, a preocupação dos melhoristas de soja é ter um sistema o mais limpo possível, que menos agrida o meio ambiente. Essas coisas são tão naturais para nós que, muitas vezes, esquecemos de falar.

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