O envolvimento da sociedade em prol do Cerrado

César Victor do Espírito Santo alerta que nas últimas quatro décadas houve um advento da expansão da fronteira agrícola no Brasil e que o Cerrado passou a ser um local de grande importância no cenário nacional e mundial em termos de produção agrícola e pecuária

Por: Thamiris Magalhães e Graziela Wolfart

“O Cerrado ainda é visto como a grande fronteira agrícola do Brasil e, como somos um país de extensão continental, isso acaba tendo uma repercussão internacional. Então, o Brasil hoje é um dos maiores produtores de soja, é o maior exportador mundial de carne, é um dos maiores produtores de ferro gusa e essas matérias-primas são produzidas em função da exploração do Cerrado”, constata o engenheiro florestal César Victor do Espírito Santo. Ele afirma, na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, que o Cerrado, até a década de 1960, “era muito pouco utilizado, até mesmo pela ocupação estar mais concentrada em outras áreas do país e pelo fato de o bioma ter algumas limitações. Hoje, passou a ser um local de grande importância no cenário nacional e mundial em termos de produção agrícola e pecuária”.

César Victor do Espírito Santo é engenheiro florestal formado pela Universidade de Brasília – UnB. Atualmente é o superintendente executivo de uma das principais ONGs ambientalistas do país, a Fundação Pró-Natureza – Funatura, e é representante do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais na Comissão Nacional de Biodiversidade. Na Funatura, além de diretor executivo é o coordenador do Programa Grande Sertão Veredas desenvolvido pela Fundação na região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Podemos afirmar que existem áreas do Cerrado que se encontram intactas?

César Victor do Espírito Santo – Totalmente intactas é difícil, mas existem no bioma áreas ainda bastante preservadas e elas estão principalmente nas Unidades de Conservação de Proteção Integral, em algumas áreas indígenas e em pouquíssimas áreas privadas. No entanto, é raro existir áreas totalmente intactas.

IHU On-Line – Quais são os principais problemas ambientais que o Cerrado enfrenta?

César Victor do Espírito Santo – O principal problema que verificamos é a conversão dos ecossistemas naturais do Cerrado em grandes plantações, tanto agrícolas como pastagens, ou seja, a conversão da vegetação nativa em monoculturas. E isso traz problemas sérios em termos de perda da biodiversidade e da poluição de águas, porque o uso intensivo de agrotóxicos compromete a qualidade da água em vários aspectos, caso não sejam utilizados de forma adequada. Além disso, o próprio solo também fica comprometido. Outro aspecto refere-se à poluição atmosférica. Há ainda a utilização de queimadas para limpeza de terreno. O fogo se alastra em áreas que não deveria e essa fumaça traz sérios problemas em alguns locais. Têm cidades que sofrem com inúmeros problemas em função da fumaça durante vários dias na época da seca. No Cerrado, é comum entre os criadores de gado na pastagem natural, por exemplo, fazer uso do fogo para renovação do pasto. Então, esse já é um problema em si, além da fumaça, que acaba trazendo problemas de poluição.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o impacto ambiental e social que o cerrado vem sofrendo nas últimas quatro décadas?

César Victor do Espírito Santo – Nas últimas quatro décadas houve realmente um advento da expansão da fronteira agrícola no Brasil. O Cerrado, até a década de 1960, era muito pouco utilizado, até mesmo pela ocupação estar mais concentrada em outras áreas do país e pelo fato de o bioma ter algumas limitações. Hoje, passou a ser um local de grande importância no cenário nacional e mundial em termos de produção agrícola e pecuária. Esse fato levou a conversões da vegetação nativa do bioma em grandes monocultivos, como dito anteriormente, e isso gerou os impactos ambientais aos quais fiz referência, como a perda de biodiversidade, de mananciais, a poluição, a seca de várias nascentes, além da questão social também, porque muitas comunidades tradicionais que viviam da terra acabaram sendo levadas a sair desses lugares ou a se adaptarem ao novo modelo, que é o da agricultura mecanizada e de exportação. Tudo isso acaba gerando menos emprego do que se estivesse na forma de agricultura familiar.

IHU On-Line – Por que afirma que a inserção do Cerrado na economia nacional e mundial traz prejuízos consideráveis para o conjunto da sociedade e o meio ambiente?

César Victor do Espírito Santo – Na verdade, digo que o Cerrado ainda é visto como a grande fronteira agrícola do Brasil e, como somos um país de extensão continental, isso acaba tendo uma repercussão internacional. Então, o Brasil hoje é um dos maiores produtores de soja, é o maior exportador mundial de carne, é um dos maiores produtores de ferro gusa e essas matérias-primas são produzidas em função da exploração do Cerrado. Quando se fala que essa inserção do Cerrado na economia traz impactos, tanto ambientais como sociais, isso acontece de forma muito rápida. Em quatro décadas, foi destruída mais da metade do Cerrado, o que não aconteceu com nenhum outro bioma. Além do aspecto da biodiversidade e da riqueza do solo, temos a questão dos recursos hídricos. O Cerrado está em uma região central do Brasil, onde existem muitas nascentes e as principais bacias hidrográficas brasileiras. Essa água toda é muito importante para a agricultura, para o ser humano e para a própria manutenção dos ecossistemas. Então, temos que tratar o Cerrado de forma muito cautelosa. Por isso defendo o Zoneamento Ecológico Econômico em todo o Brasil. Mas que seja feito de forma participativa, envolvendo diferentes segmentos da sociedade, como academia, governo, sociedade civil organizada, produtores e representantes dos trabalhadores, para se tentar discutir e colocar de forma interessante o zoneamento, o ordenamento da ocupação do território e os serviços ambientais.

IHU On-Line – De que maneira a criação de novas Unidades de Conservação - UCs pode contribuir para evitar o desmatamento no bioma?

César Victor do Espírito Santo – As Unidades de Conservação - UCs são de extrema importância para o país. Quando falamos em UCs, consideramos não só as da categoria de proteção integral, mas também aquelas do grupo de uso sustentável, que são as reservas extrativistas, reservas de movimento sustentável e as áreas de proteção ambiental. Então, em seu conjunto, é muito importante que essas unidades sejam criadas e debatidas com a sociedade. É preciso entender a importância dessas Unidades de Conservação. É relevante que a população realmente esteja bem informada, possa visitar essas áreas, para poder valorizar o patrimônio que possui. O Brasil é o detentor de maior riqueza da biodiversidade. Precisamos entender isso, ajudar a definir estratégias e políticas públicas, votar em candidatos que têm essa preocupação, porque será uma lástima se nós não nos preocuparmos agora com isso, uma vez que quem irá sofrer são as futuras gerações.

IHU On-Line – Frequentemente a questão do desmatamento está associada à imagem da Amazônia. No entanto, o Cerrado também vem sofrendo com o problema há anos. Por que, então, muitas pessoas ainda desconhecem essa problemática no bioma?

César Victor do Espírito Santo – Realmente, a Amazônia tem uma importância muito grande no cenário internacional. É uma floresta de dimensões continentais e, de fato, é de extrema importância não só para o país como para toda a humanidade. No entanto, o Cerrado também tem uma relevância muito grande para o nosso país, mas também para o mundo, porque o Brasil é um país muito grande. Então, alterações drásticas no Cerrado podem provocar alterações em termos climáticos de forma geral. Eu diria que a biodiversidade do Cerrado é comparada à da Amazônia. Lógico que a Amazônia é maior, tem maior número de espécies, mas o Cerrado é um bioma muito especial e interessante em vários aspectos. Por isso o bioma deve ser tão valorizado quanto a Amazônia. Infelizmente, a própria população brasileira não considera o Cerrado como deveria. Muitas vezes porque desconhecem e, aparentemente, as pessoas avaliam o Cerrado como sendo um bioma mais pobre e mais feio.

IHU On-Line – Quais são as monoculturas existentes no Cerrado e quais os principais impactos ambientais provocados por elas?

César Victor do Espírito Santo – As principais monoculturas que estão trazendo impactos são as de soja, algodão e milho. São todas monoculturas muito importantes para a sociedade. No entanto, para que o processo funcione de forma ordenada, o caminho seria trabalhar com a questão do zoneamento. Além desses monocultivos agrícolas, tem a questão da pecuária, visto que grandes áreas são convertidas em pastagens para a produção de carne. Outro problema é o monocultivo de eucalipto , que está sendo expandido para a área do Cerrado de forma desordenada. Além disso, o bioma ainda vem sendo explorado para a produção de carvão, o que é lamentável.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

César Victor do Espírito Santo – Gostaria de ressaltar a importância de que precisamos fortalecer os fóruns de discussão sobre o Cerrado. Existe no Ministério do Meio Ambiente a Comissão Nacional do Cerrado, que ainda tem um papel muito secundário. Um dos objetivos dessa Comissão é propor políticas públicas mais interessantes. Então, é importante que o governo fortaleça os canais de definição de políticas públicas, para promover a participação, além do governo, da sociedade civil organizada, da academia, do setor empresarial, etc. Têm frutos do Cerrado, por exemplo, que são importantes para a produção de alimentos e remédios. Isso precisa ser considerado, além da questão do turismo e do ecoturismo. No Cerrado existem populações tradicionais que guardam tradições culturais muito ricas e que precisam ser preservadas também. Logo, é relevante trabalhar a cultura junto com a questão ambiental. São grandes desafios que precisam ser considerados.

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