Edição 382 | 28 Novembro 2011

Flora do Cerrado: caminho de descobertas

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Thamiris Magalhães

“Sem dúvida nenhuma o Brasil, pela posição estratégica que ocupa, vem ao longo de sua história sendo alvo da biopirataria. Em alguns casos, nem temos acesso ou consciência disso”, afirma Marilda da Conceição Ribeiro e Barros

O Cerrado tem influência nacional e internacional em vários setores. Um deles, pouco conhecido e explorado, é a flora. Só para se ter uma ideia, são catalogadas para o Brasil aproximadamente 50 mil espécies vegetais, “isso representa 1/7 das espécies de plantas existentes no mundo. E, entre elas, sete mil estão distribuídas nas fisionomias do bioma Cerrado. Para o mundo, representa o reconhecimento de que, de fato, o Brasil é um país importante e estratégico. Tem características ambientais que o assinalam assim”, é o que diz a pesquisadora Marilda da Conceição Ribeiro e Barros, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ela, a flora do Cerrado é reconhecida por vários pesquisadores nacionais e internacionais como um grande celeiro na oferta de bioprodutos com aplicações em quase todos os setores da economia de modo direto e indireto. “Este recurso genético da nossa biodiversidade tem despertado interesse mundial por esse rico recurso biológico”.

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros possui graduação e mestrado em Engenharia Agronômica e doutorado pela Universidade Federal de Goiás – UFG. Tem experiência na área de agronomia, com ênfase em morfoanatomia, fisiologia e farmacognosia de plantas nativas do Cerrado, atuando principalmente nos seguintes temas: morfologia da germinação, germinação de sementes, crescimento e desenvolvimento de plantas do bioma Cerrado, armazenamento de sementes nativas do Cerrado, Paepalanthus speciosus Koern, dormência de sementes, plantas medicinais, atividade biológica de Apeiba tibourbou Aubl e biojoias de frutos e sementes; também em macro e micropaisagismo, e planejamento urbano e ambiental. Atualmente é coordenadora do Laboratório de Sementes do Instituto do Trópico Subúmido - ITS da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC Goiás.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais estudos e descobertas que você tem realizado em relação à flora do Cerrado?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Na área da fisiologia vegetal, temos realizado alguns estudos sobre “superação de dormência de sementes nativas do bioma cerrado” em Terminalia argentea; Paepalanthus speciosus Koern; Sterculia striata; Apeiba tibourbou Aubl; algumas espécies do gênero Vellosia, entre outras espécies.
Na área da fisiologia do crescimento, “avaliação da morfologia do crescimento em Paepalanthus speciosus Koern (Eriocaulaceae); Apeiba tibourbou Aubl; Vellosia flavicans Mart (Vellosiaceae)”. Nosso trabalho com germinação e crescimento inicial de Paepalanthus speciosus Koern mostrou que esta espécie nativa das formações rupestres do bioma Cerrado é passível de ser cultivada e multiplicada para uso em paisagismo. Através dos estudos de crescimento inicial com a espécie Vellosia flavicans, também foi possível concluir que, apesar de seu crescimento ser muito lento, é outra opção de espécie ornamental de grande valor paisagístico. Tais resultados vêm na contramão às previsões sombrias do círculo vicioso praticado por algumas comunidades locais que trabalham de modo desorganizado a prática de exploração predatória, com manejo inadequado, que podem a médio e longo prazo levar à extinção de populações deste contingente de plantas notadamente conhecidas por sempre-vivas.

IHU On-Line – De que maneira as espécies da flora nacional podem ser uma boa opção para a geração de emprego e renda no bioma?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Temos distribuídos nos biomas brasileiros espécies de vegetal que vêm ao longo do tempo sendo usadas por várias comunidades que se organizam num ciclo virtuoso, em cadeias produtivas na exploração sustentável dos produtos da biodiversidade brasileira. O governo federal criou recentemente um programa para dar apoio a esses grupos organizados através do “Plano Nacional de Promoção da Cadeia de Produtos da Sociobiodiversidade” – PNPSB. Desse modo, vários frutos são trabalhados por tais comunidades, como a castanha do Brasil (castanha do Pará) – Amazônia, o babaçu – zona de transição entre Amazônia, Cerrado e Caatinga. Mais recentemente foram agregados a andiroba, carnaúba, o pequi, o açaí, a borracha, o buriti, a copaíba e a piaçava.
Assim, a organização da produção local dos produtos da flora brasileira, através da exploração autossustentada que tenha como fundo uma identidade socioambiental-econômica, sem dúvida pode e deve ser explorada tendo como resultado a geração de renda através da ocupação da mão de obra local e o estabelecimento de mercados sustentáveis.

IHU On-Line – Algumas espécies florais nativas do Cerrado podem ter uso ornamental?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Sem dúvida, uma grande quantidade de espécies da flora do bioma Cerrado pode ser empregada nas práticas paisagísticas e ornamentais, por serem já adaptadas às condições climáticas locais. Os estudos devem ser desenvolvidos na correção do solo sob o viés da sua física e fertilidade do solo, das regas, quantidade e intensidade de luminosidade principalmente. Dessa forma, grande parte das espécies poderá ser utilizada no paisagismo urbano, residencial, de praças públicas, entre outras.
Nesse perfil, várias espécies já vêm sendo utilizadas, a exemplo das arbóreas na prática da arborização urbana. É necessário avançar na pesquisa de domesticação de espécies ornamentais de pequeno porte como os arbustos, herbáceas, trepadeiras e forrageiras. Nesses grupos, temos espécies de grande valor estético como orquídeas, cactáceas, paepalanthus, leguminosas e capins, por exemplo.

IHU On-Line – Você afirma que o Brasil é um dos países com maior biodiversidade mundial. Quantas são as espécies vegetais brasileiras e quantas estão distribuídas no Cerrado? O que este número representa em nível mundial?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – São catalogadas para o Brasil aproximadamente 50 mil espécies vegetais, isso representa 1/7 das espécies de plantas existentes no mundo. E, entre elas, sete mil estão distribuídas nas fisionomias do bioma Cerrado. Para o mundo isso representa o reconhecimento de que, de fato, o Brasil é um país importante e estratégico. Tem características ambientais que o assinalam assim. Sua flora é reconhecida por vários pesquisadores nacionais e internacionais como um grande celeiro na oferta de bioprodutos com aplicações em quase todos os setores da economia de modo direto e indireto.
O recurso genético da nossa biodiversidade tem despertado interesse mundial por esse rico recurso biológico. As bioindústrias comercializam em torno de 22 bilhões de dólares em produtos naturais e 200 bilhões em cosméticos e perfumaria. O Brasil tem exportado em torno de 44 milhões de dólares em óleos cítricos e apenas 4,8 milhões em óleos não cítricos, e isso abre uma perspectiva imensa para alternativas da nossa flora.

IHU On-Line – Como tem ocorrido a pesquisa científica no Brasil com relação às plantas do Cerrado? Esses trabalhos podem originar produtos que beneficiem a população de modo geral?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Apesar da dedicação, empenho e compromisso de alguns estudiosos, uma pesquisa que gere um produto final requer altas cifras e tempo que pode durar em média dez anos de trabalho árduo e, de certo modo, muitas vezes é engendrado por multidisciplinares em uma arquitetura de envolvimento das várias ciências de modo racional e estratégico na elaboração de um produto. O impulso atual deve ser realizado de modo a equacionar as ciências envolvidas desde a pesquisa básica até a pesquisa aplicada, isto é, até a comercialização, satisfação e segurança do consumidor final.

IHU On-Line – De que forma essas descobertas podem auxiliar na alimentação?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Sabemos que uma das primeiras necessidades do ser humano é a alimentação. Proteínas, carboidratos, lipídeos, vitaminas e sais minerais. Tudo isso temos em abundância e em variedade em nossa biodiversidade vegetal e de fauna.

IHU On-Line – Acredita que a apresentação de novos produtos que se destaquem dos comercializados pode encontrar mercado promissor para o Brasil?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Somos adeptos às novidades. E novidades geradas através de um modo de produção socioambiental-econômico justo e equilibrado formam, sem dúvida, uma opção de escolha forte para a maioria dos consumidores conscientes.

IHU On-Line – Todo esse recurso da flora do Cerrado brasileiro vem sendo alvo de interesses de outros países?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Não faz muito tempo o Japão tentou patentear produtos originados de nossa flora. Um caso que gerou grande polêmica foi o do cupuaçu que ainda exigia exclusividade ao uso do nome “cupuaçu”. Através da intervenção do governo federal, a patente foi repatriada. Mas sem dúvida nenhuma o Brasil, pela posição estratégica que ocupa, vem ao longo de sua história sendo alvo da biopirataria. Em alguns casos, nem temos acesso ou consciência disso.

IHU On-Line – Acredita que o Brasil tem chances de ser líder na pesquisa sobre bioindústria? O que falta?

Marilda da Conceição Ribeiro e Barros – Sim. O Brasil tem tudo o que se precisa, se equacionadas as variáveis da valorosa biodiversidade, territorialidade continental, com diversos bioclimas; solo, água e um povo inteligente que se bem orientado vai à luta e produz, em um sistema de pesquisa e produção, para sermos também nesse setor uma superpotência.
No entanto, esse aspecto do desenvolvimento brasileiro ainda está engatinhando. Devemos ressaltar os esforços medidos pelos pesquisadores que sonham com tal perspectiva e por isso lutam diuturnamente na intenção de darem suas contribuições nessa construção intelectual no Brasil.
O que falta em nosso país é o reconhecimento pelo setor produtivo-estratégico dessa sua vocação e capacidade de produção. Além disso, precisamos estabelecer parcerias entre as universidades e institutos de pesquisas com o setor produtivo para que as pesquisas resultem em produtos e para que esses produtos gerem riquezas que provoquem divisas ao país. Desse modo, a iniciativa privada tem uma capacidade de suporte logístico com laboratórios e equipamentos de última geração que podem suportar as pesquisas de ponta das universidades e institutos. A meu ver, as dissertações e teses devem ter este peso científico como resultado final. O Brasil ainda é minoria na detenção de patentes que sejam oriundas da produção intelectual. O país deve o quanto antes rever sua posição importante, decisiva e valiosa nesse setor que, sem dúvida, o diferencia das outras nações.

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