Cerrado: "dor fantasma" da biodiversidade brasileira

“Enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver raízes estrangeiras, a possibilidade de criação de um programa racional de desenvolvimento será nula”, avalia o docente Altair Sales Barbosa

Por: Thamiris Magalhães

Em pleno século XXI, encontra-se em suspenso o destino do Cerrado. “Se as próximas décadas trarão sua ruína ou salvação, ainda não se pode dizer”, é o que analisa o professor Altair Sales Barbosa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E continua: “embora sejam grandes as lacunas no nosso conhecimento, dispomos de informações suficientes para impedirmos uma degradação irreversível. O que se pode afirmar é que, enquanto o desejo de explorar o Cerrado tiver raízes estrangeiras, a possibilidade de criação de um programa racional de desenvolvimento será nula”, diz.
Por essas razões, continua, “a situação do Cerrado atualmente se assemelha ao fenômeno conhecido em Neurologia como ‘dor fantasma’”. Segundo o pesquisador, as pessoas que são vítimas desse mal sofrem um duplo infortúnio. “Elas perderam uma extremidade ou parte dela. E sofrem dores às vezes muito intensas que sentem como provenientes do membro que já não têm mais. As discussões sobre o Cerrado se assemelham a tal situação, porque estamos sentindo as dores da perda de um ambiente que não existe mais na plenitude de sua biodiversidade”.

Altair Sales Barbosa possui graduação em Antropologia pela Universidade Católica de Chile e doutorado em Arqueologia Pré Histórica – Smithsonian Institution National Museum Of Natural History. Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC Goiás e diretor do Instituto do Trópico Subúmido, que funciona nessa instituição. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Arqueologia, atuando principalmente nos seguintes temas: arqueologia, cerrado, antropologia, meio ambiente e folclore.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No que consiste o bioma Cerrado? Como podemos conceituá-lo corretamente?

Altair Sales Barbosa – O professor Aziz Ab’Saber  classifica o Cerrado como um domínio morfoclimático e fitogeográfico. Entretanto, o mais correto é correlacionar os diversos fatores que compõem sua biocenose e defini-la como um sistema biogeográfíco. Um sistema que abrange áreas planálticas é o Planalto Central brasileiro, com altitude média de 650 metros, clima tropical subúmido de duas estações, uma seca outra chuvosa, solos variados e um quadro florístico e faunístico extremamente diversificado e interdependente.

IHU On-Line – Qual a importância que o Cerrado exerce na fixação das populações indígenas? O senhor possui dados de quantos povos vivem atualmente no bioma?

Altair Sales Barbosa – O Cerrado exerce papel fundamental na vida das populações pré-históricas que iniciaram o povoamento das áreas interioranas do continente sul-americano. Na região dos cerrados, essas populações desenvolveram importantes processos culturais que moldaram estilos de sociedades bem definidas, em que a economia de caça e coleta imprimiu modelos de organização espacial e social com características peculiares. Os processos culturais indígenas, que se seguiram a esse modelo, trouxeram pouca modificação à fisionomia sociocultural e, embora ocorresse o advento da agricultura incipiente, exercida nas manchas de solo de boa fertilidade natural existentes no domínio dos cerrados, a caça e a coleta, em particular a vegetal, ainda constituíam fatores decisivos na economia dessas sociedades.
Sem considerar a área do Parque Nacional do Xingu que, mesmo possuindo alguns elementos do Sistema dos Cerrados, é integrante do Domínio Equatorial Amazônico, ou Trópico Úmido, e sem considerar também alguns povos que vivem em áreas disjuntas de Cerrado como os pareci e nambikwara, a área contínua do Sistema dos Cerrados, dos Chapadões Centrais do Brasil, apresenta uma população indígena atual de aproximadamente 44.118 habitantes, distribuídos principalmente em terras do Maranhão, Tocantins, Goiás e Mato Grosso do Sul. Essa população engloba 26 povos de características culturais diferenciadas, cuja situação atual e fragmentação demográfica não refletem a importância que o espaço geográfico dos Cerrados teve na sua fixação durante longos períodos, nem a verdadeira história da ocupação deste espaço por tal população.

Mudanças

A partir do século XVIII, o panorama regional começou a sofrer sensíveis modificações, com o incremento da colonização que se embrenha pelo interior do país em busca de ouro, pedras preciosas e índios escravos. Nesse contexto, e a partir dessa data, surgiram os primeiros aglomerados urbanos, e a exploração mais intensa dos recursos minerais que começava a se incrementar já provoca os primeiros sinais de degradação. Findo o ciclo da mineração, a região dos cerrados permaneceu economicamente dedicada à criação extensiva de gado e à agricultura de subsistência.
Alguns desses modelos econômicos ainda subexistem em espaços localizados até os dias atuais, e outros modelos mais simples, baseados no extrativismo, são adotados por populações caboclas, habitantes atuais de espaços definidos.

O isolamento que a região manteve em relação às áreas mais populosas e economicamente dinâmicas do Brasil, até meados da década de 1960, fez com que este quadro permanecesse basicamente inalterado, fato que a implantação de Brasília alterou consideravelmente, desestruturando os sistemas sociais implantados e causando entropias de ordem biológica.
O potencial agrícola que os cerrados demonstram, associado ao fato de ser uma das últimas reservas da terra capaz de suportar, de modo imediato, a produção de cercais, a formação de pastagens e o desenvolvimento das técnicas modernas de cultivo, tem atraído recentemente grandes investimentos e criado modificações significativas, do ponto de vista da infraestrutura de suporte. O fato da não existência de uma política global para a agricultura tem provocado o êxodo rural e o crescimento desordenado dos núcleos urbanos. Todos esses fatores, em seu conjunto, têm provocado situações nocivas ao meio ambiente natural e social.

IHU On-Line – Como se caracteriza a área do Sistema Biogeográfico do Cerrado?

Altair Sales Barbosa – O Sistema Biogeográfico dos Cerrados é limitado por uma série de complexas formas vegetacionais intermediárias que adquirem contornos específicos em direção à caatinga e outras configurações, em direção à floresta amazônica úmida.
Esse sistema não pode ser tomado como uma unidade homogênea, pois ostenta em seu domínio uma série de ambientes diversificados entre si, pelo caráter fisionômico e pela composição vegetal e animal. Esses ambientes constituem os seus subsistemas. Sua compreensão é de fundamental importância para se entender o sistema como um todo e o caráter da biodiversidade que ostenta. O sistema biogeográfico é composto por seis subsistemas interatuantes, caracterizados pela fisionomia e composição vegetal e animal, além de outros fatores, que apresentam a seguinte organização: Subsistema dos Campos, Subsistema do Cerrado, Subsistema do Cerradão, Subsistema das Matas, Subsistema das Matas Ciliares e Subsistemas das Veredas e Ambientes Alagadiços.

Subsistema dos Campos
Ocupa as partes mais elevadas do sistema, apresenta morfologia plana regionalmente denominada chapadões ou campinas.

Subsistema do Cerrado
Constitui a paisagem dominante do sistema. Ostenta um estrato gramíneo diferenciado do campo pela ocorrência de árvores de pequeno porte e aspecto tortuoso, o que se explica pela teoria do escleromorfismo oligotrófico.

Subsistema do Cerradão
É, fisionomicamente, mais vigoroso que o Subsistema do Cerrado. As árvores atingem de 10 a 15 metros de altura e os solos demonstram maior fertilidade natural. Não há um estrato gramíneo forte como no Cerrado e as árvores são mais encopadas.

Subsistema das Matas
Ocorre em manchas de solo de boa fertilidade natural que, às vezes, adquirem a configuração de ilhas, meio a uma paisagem dominante de Cerrado, conhecidas por capões e podem formar áreas extensas, compactas e homogêneas.

Subsistema das Matas Ciliares
Ocorre nas cabeceiras dos pequenos córregos e rios acompanhando-os pelas suas margens em estreitas faixas.

Subsistema das Veredas e Ambientes Alagadiços
As cabeceiras de alguns córregos e rios são, às vezes, caracterizados por ambientes alagadiços, decorrentes do afloramento do lençol de água ou ainda em virtude de características impermeabilizantes do solo. Nesse local, são muito frequentes as veredas, que são paisagens nas quais predominam os coqueiros buriti e buritirana que, geralmente, distribuem-se acompanhando os cursos d’água até a parte média de alguns rios, formando uma paisagem muito bonita.

Heterogeneidade
Essa diversidade de ambiente é um fator muito importante para a diversificação faunística, permitindo a ocorrência de animais adaptados a ambientes secos e, também, a ambientes úmidos. Da mesma forma, propicia tanto a ocorrência de formas adaptadas a áreas ensolaradas e abertas como favorece a ocorrência de formas umbrófilas. Esses fatores atribuem ao Sistema Biogeográfico um caráter singular, distinguindo-o pela variedade de formas vegetais e animais.


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