Edição 365 | 13 Junho 2011

Concentração de metano e gás carbônico ainda é baixa nos rios da Amazônia

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Patricia Fachin

Daniel Melo e Maria de Fátima Fernandes Lamy Rasera comentam pesquisa que analisa impacto de gás carbônico e metano nos rios da Amazônia

Daniel Melo, engenheiro ambiental, e Maria de Fátima Fernandes Lamy Rasera, pesquisadora da Universidade de São Paulo - USP, participam de uma pesquisa que tenta compreender e verificar a quantidade de gás carbônico e metano concentrada nos rios da região amazônica. Segundo Melo, ainda não é possível afirmar qual a quantidade de CO2 depositada nos rios da floresta, mas ele explica que este processo ocorre naturalmente quando folhas, galhos e troncos caem nos rios e “são consecutivamente decompostos pela comunidade aquática”.
De acordo com Maria de Fátima, em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, os resultados do projeto permitirão avaliar a magnitude do fluxo de gás carbônico e metano nos rios da Amazônia. “Este projeto nos ajudará a entender e quantificar de forma mais precisa o papel dos rios no ciclo do carbono e no balanço do mesmo na Amazônia, uma vez que parte do carbono fixado pelas florestas retorna para a atmosfera através da evasão das águas superficiais destes ambientes”, esclarece.

Maria de Fátima Fernandes Lamy Rasera é doutora em Ciências pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo - USP. Daniel Melo é mestrando em Ecologia Aplicada, na mesma instituição.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line - Você realizou uma pesquisa para compreender os motivos que levam os rios da região amazônica a apresentarem um alto nível de CO2. Como foi realizado esse estudo? Que rios foram analisados?

Daniel Melo - O estudo realizado em Caxiuanã está integrado a uma rede de pesquisa da qual fazem parte diversas instituições brasileiras. Desta forma, existe um procedimento executado em vários pontos da Amazônia (rio Solimões, Negro, Madeira, Purus etc.) a partir de uma câmara que é colocada na superfície da água e um analisador de gás CO2, que mede simultaneamente a concentração desse gás.
No caso do Museu Paraense Emílio Goeldi, a área de estudo situa-se na Floresta Nacional de Caxiuanã, nos rios Curuá e Caxiuanã e na baía de Caxiuanã.

IHU On-Line - Que fatores levam os rios da região amazônica a apresentarem alto nível de CO2? Quais as implicações disso para a floresta amazônica e para o meio ambiente de forma geral?

Daniel Melo - O principal fator é o aporte de matéria orgânica proveniente dos ambientes terrestres, em geral nas formas de folhas, galhos e troncos. Esses materiais alcançam o ambiente aquático e são consecutivamente decompostos pela comunidade aquática. Este processo ocorre naturalmente, apenas não tínhamos ideia de sua magnitude.

IHU On-Line - Qual a situação ambiental dos rios amazônicos? Qual é a qualidade da água desses rios?

Daniel Melo - Ressaltamos que nosso estudo ocorre em um ambiente natural com elevado estado de conservação, uma vez que se trata de uma flona. Mas, com base em informações dos demais sítios, podemos afirmar que em geral os rios amazônicos ainda apresentam poucos impactos decorrentes de atividades antrópicas.

IHU On-Line - Como se dá o ciclo de carbono na Amazônia? A bacia hidrográfica da Amazônia interfere no ciclo de carbono?

Maria de Fátima Fernandes Lamy Rasera - De forma resumida, os dados da Rede Beija-Rio - rede de pesquisa de diversas instituições - indicam um balanço próximo a zero de carbono na Amazônia, significando que o montante de carbono absorvido pela floresta é equivalente às cargas e evasões de carbono que ocorrem nos ambientes aquáticos amazônicos.
Em Caxiuanã, os valores de fluxo de CO2 observados nos rios Curuá e Caxiuanã se encontram dentro da faixa de valores de fluxos medidos em outros rios da região Amazônica. Porém, diferentemente dos demais rios estudados na Rede Beija-Rio, onde o fluxo de CO2 é significativamente menor no período de seca, estes rios não apresentam diferenças significativas ao longo do ano e, consequentemente, atuam mais intensamente como emissores de CO2. Isto provavelmente está relacionado ao padrão de precipitação na região de Caxiuanã onde, apesar de apresentar valores de precipitação menores entre os meses de julho a novembro, não se observa um período de estiagem definido.

IHU On-Line - Na pesquisa que realizaram, também evidenciaram alto teor de metano na água dos rios amazônicos. Quais os riscos e efeitos deste produto na água e como ele foi gerado nos rios?

Maria de Fátima Fernandes Lamy Rasera - Vários estudos de fluxo de metano na Amazônia têm sido realizados em lagos e reservatórios devido ao grande potencial de evasão destes ambientes. Porém, até o momento, não se têm dados de medidas de fluxo de metano em rios da Amazônia. Ao longo de todo o período estudado em Caxiuanã, verificaram-se concentrações de metano dissolvido nos rios superiores ao valor esperado para o equilíbrio com a atmosfera, indicando que estes estão também emitindo metano para a atmosfera.
Dos três rios estudados, o rio Curuá é o que apresenta as maiores concentrações de metano, com valores similares aos observadas nos reservatórios de Tucuruí, Samuel e Balbina. Isto ocorre devido às suas características similares a de lagos, como pontuado acima. Estes dados salientam a importância da inclusão dos fluxos de metano de rios nos estudos de fluxo de gases destes ambientes devido ao grande potencial de aquecimento do metano. Portanto, um próximo passo será calcular o fluxo de metano nestes ambientes, a partir dos dados de concentração do gás na água e no ar e do coeficiente de troca gasosa obtido nas medidas de fluxo com a câmara. Ainda em andamento, o projeto está produzindo resultados que nos permitirão não somente avaliar a real magnitude do fluxo destes gases (CO2 e CH4) nos rios da Amazônia, como também uma melhor compreensão da variabilidade das águas em várias escalas temporais e espaciais. Além disso, este projeto nos ajudará a entender e quantificar de forma mais precisa o papel dos rios no ciclo do carbono e no balanço dele próprio na Amazônia, uma vez que parte do carbono fixado pelas florestas retorna para a atmosfera através da evasão das águas superficiais destes ambientes.
Desta forma, existe um procedimento executado em vários pontos da Amazônia (rio Solimões, Negro, Madeira, Purus etc.) a partir de uma câmara que é colocada na superfície da água e um analisador de gás CO2 que mede simultaneamente a concentração desse gás. No caso do Museu Paraense Emílio Goeldi, a área de estudo situa-se na Floresta Nacional de Caxiuanã, nos rios Curuá e Caxiuanã e na baía de Caxiuanã.

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