Edição 365 | 13 Junho 2011

“Utopia X irracionalidade”. O desafio de conservar as florestas brasileiras

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Patricia Fachin

A expansão da fronteira agrícola é o grande vilão do desmatamento florestal, diz professor da Universidade Federal Rural da Amazônia, Fernando Jardim. “É um crime substituir uma floresta por uma cultura de soja ou outro cultivo agrícola qualquer, quando existem muitas áreas mais propícias para essas culturas”, argumenta

As florestas não foram feitas para serem contempladas e tampouco para serem destruídas pela irracionalidade do homem. É possível conciliar a produção de bens e serviços ambientais, “mantendo a ‘floresta em pé’”, enfatiza o pesquisador em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. “É impossível manter intocável a floresta, quando a sociedade depende de inúmeros produtos que ela fornece e não acredito que as florestas tenham sido criadas para mera contemplação pela sociedade. Mas daí a considerá-la como um obstáculo que deve ser removido em favor do desenvolvimento vai muito longe”, pondera.
Engenheiro florestal há mais de 30 anos, Fernando Jardim diz que para proteger as florestas é preciso conservar ao invés de preservar. Para ele, este conceito é “mais viável sob todos os aspectos, pois permite o uso sustentável e contínuo das florestas, mantendo as suas funções econômicas, ambientais e sociais”. Na entrevista a seguir, ele também comenta as mudanças no Código Florestal Brasileiro, aprovado pela Câmara dos Deputados e a alteração textual do artigo que se refere às Áreas de Preservação Permanente – APPs. “Permitir plantio em APP é descaracterizá-la em seu conceito – preservação”, menciona.

Fernando Cristovam da Silva Jardim graduou-se em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural da Amazônia - UFRA (antiga FCAP), cursou mestrado em Manejo Florestal pelo convênio INPA/FUA e doutorado em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. Foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, no período 1980-1995. De 1997 a 2000 coordenou o curso de mestrado em Ciências Florestais da UFRA, foi Pró-Reitor de Planejamento e Gestão desta instituição no período de 2000 a 2005, e atualmente atua como docente.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a atual situação das florestas brasileiras? Ainda é possível regenerá-las?

Fernando Jardim - As florestas brasileiras, assim entendidas a Mata Atlântica , a Amazônia  e os cerrados , apresentam diferenciados graus de fragmentação, com quase total destruição da Mata Atlântica. A Amazônia ainda apresenta grande parte de suas florestas não perturbadas, principalmente na chamada Amazônia Ocidental, mais por falta de colonização e ocupação humana do que por ações preservacionistas. A resiliência ou capacidade de regeneração natural dessas florestas é muito grande, mas é preciso que lhes seja dado tempo para isso.

IHU On-Line – Hoje, dá-se muita atenção às florestas tropicais. Elas são mais importantes que outros tipos de florestas?

Fernando Jardim - Não creio! Cada floresta tem sua importância na região onde ocorre porque é consequência dos fatores de formação dessa região – clima, solo etc. – com os quais interage numa via de mão dupla. No caso da Amazônia, a sua importância global é mais determinada pela sua extensão territorial – é um continente!

IHU On-Line - A Amazônia, caso não seja preservada, pode ter o mesmo destino da Mata Atlântica?

Fernando Jardim - Preservação é um conceito difícil de implementar quando se trata da Amazônia como um todo, penso até que é uma utopia. É possível preservar pequenas áreas – as Áreas de Preservação Permanente - APPs por exemplo. O termo conservação é muito mais viável sob todos os aspectos, pois permite o uso sustentável e contínuo das florestas, mantendo as suas funções econômicas, ambientais e sociais. Eu não acredito que possa acontecer o que aconteceu com a Mata Atlântica por causa do nível de consciência atual da sociedade, muito diferente do século passado. A sociedade, em termos gerais, salvadas as terríveis e maléficas exceções, tem grande compreensão do papel das florestas como fornecedoras de bens e serviços ambientais, principalmente na questão climática.

IHU On-Line - Que atividade tem causado mais impacto nas florestas?

Fernando Jardim - Essa é uma questão interessante, pois me permite expor o que penso acerca do papel do setor florestal nesse contexto. A exploração florestal pura e simples “mal arranha” as florestas, quando comparada com outros usos do ecossistema florestal como a expansão da fronteira agrícola, expansão urbana ou a mineração. Mesmo a chamada exploração florestal convencional, a despeito de impactos ecológicos sobre a população das espécies arbóreas, tem pouco impacto em termos ambientais. Como já mencionei, a floresta tem um grande poder de resiliência, que lhe permite em poucos anos se recuperar dos danos causados pela exploração madeireira. Já existem vários exemplos disso. O grande vilão do desmatamento florestal é a expansão da fronteira agrícola. É um crime substituir uma floresta por uma cultura de soja ou outro cultivo agrícola qualquer, quando existem muitas áreas mais propícias para essas culturas como as várzeas. Nada que um zoneamento ecológico-econômico não resolva!

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