Edição 322 | 22 Março 2010

Terceira etapa de desenvolvimento. Eis o desafio brasileiro

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Patrícia Fachin

Segundo o jornalista Luis Nassif, o país precisa entrar na terceira etapa do desenvolvimento brasileiro, que consiste na necessidade de o Estado possuir uma visão estratégica

O modelo econômico brasileiro se baseia no mercado de massa, o qual, na opinião do jornalista Luis Nassif, “tem permitido às empresas brasileiras se capitalizarem e passarem a atuar no exterior”. Na entrevista que segue, concedida, com exclusividade, por telefone, para a IHU On-Line, ele analisa a internacionalização das empresas brasileiras e afirma que “elas se lançam para o exterior sem estarem subordinadas a uma visão de país”. Nesse processo, menciona, o BNDES e o Estado deveriam atuar como reguladores, exigindo, por exemplo, que “a partir do momento em que um grupo nacional começa a atuar no exterior, ele deve estimular a penetração de produtos das pequenas e médias empresas, além de levar os fornecedores brasileiros para o mercado internacional, de modo que eles também consigam crescer lá”. Falta, no Brasil, segundo ele, uma visão estratégica de desenvolvimento. “Quando se tem uma visão estratégica bem montada, é possível saber qual é o papel do Estado, a função da grande empresa, da associação empresarial, dos sindicatos, da pequena e média empresa. Essa amarração só pode ser feita quando se tem um plano que integra todos esses planos”. Na opinião do jornalista, um dos motivos que justifica a atual condução do Estado na política econômica é o fato de os grupos acadêmicos que ascendem à política econômica terem uma visão de país que, às vezes, é incompleta. Ele explica: “Não se mudou essa lógica, ainda, porque a pequena e média empresa não fazem parte do jogo político (...), os nossos economistas ainda não entenderam essa visão integrada. Ainda persiste aquela visão anacrônica de que focar na grande empresa financeira ou industrial é suficiente para o crescimento do país”.

Luis Nassif é jornalista e diretor superintendente da Agência Dinheiro Vivo. Além disso, desempenha as funções de comentarista econômico da TV Cultura, é membro do Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Conselho de Economia da FIESP. É autor de Os cabeças-de-planilha: como o pensamento econômico da era FHC repetiu os equívocos de Rui Barbosa (Ed. Ediouro, 2007) e também atualiza, diariamente, um blog na Internet: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O capitalismo brasileiro está sendo reorganizado? Que fatores demonstram isso?

Luis Nassif – Os principais aspectos dessa mudança são: primeiro, a emergência de uma nova classe social de consumo, ou seja, a entrada da classe C e D no mercado. Isso criou uma nova base de consumidores e foi essencial para o país poder superar com menos trauma a crise internacional. O segundo aspecto é a interiorização do desenvolvimento: pela primeira vez, as regiões de dinâmica de crescimento estão se situando no interior do norte, nordeste, centro-oste e cidades médias do sudeste. O terceiro diz respeito à internacionalização das empresas brasileiras: muitas organizações estão se tornando multinacionais. O quarto aspecto está relacionado ao mercado de capitais e aos sistemas de capitalização, de formação de poupança para o mercado de capitais. Aí entram os fundos de pensão e de investimentos. O quinto aspecto é a questão da bioenergia, que deve ser o grande fator de inovação tecnológica das próximas décadas, e que permitirá ao Brasil entrar, pela primeira vez, numa onda tecnológica global em condições de competir e de liderar.

IHU On-Line – A partir disso o Brasil está consolidando que perfil de modelo econômico?

Luis Nassif – O Brasil está consolidando uma fase do atual modelo econômico, mas com muitas vulnerabilidades. O modelo econômico se baseia fundamentalmente na questão do grande mercado de massa, o qual tem permitido às empresas brasileiras se capitalizarem e passarem a atuar no exterior. Ele não se completa porque tem alguns vícios que não foram corrigidos ao longo dos anos. Um deles consiste na permissão da conglomeração das empresas brasileiras. Ou seja, elas atuam no mercado interno, conglomerizam-se, derrubam a concorrência, os fornecedores, e com isso, conseguem aumentar a sua taxa de lucro. A partir daí, elas se lançam para o exterior sem estarem subordinadas a uma visão de país. Em que consiste uma visão de país, nesse sentido? Consiste em uma empresa nacional atuar no exterior e, assim, conseguir vender mais, gerar mais empregos internos, fortalecer a cadeia produtiva. Mas isso não está acontecendo.

Apoio nacional, benefício internacional

As empresas passam a atuar no exterior graças ao impulso que recebem do mercado interno. Entretanto, compram empresas no mercado externo e geram empregos e crescimento nos países onde atuam e não no Brasil. Então, há “uma perna capenga” nesse processo, que foi inaugurado no governo Fernando Henrique Cardoso, quando ele privilegiava esses novos grupos financistas que entravam no mercado e adquiriam empresas. Agora, o BNDES está fazendo isso com frigoríficos e outras empresas. Essa política pode ser boa para as empresas, mas, para o país, não é. Veja o caso das empresas globais de laranja: criamos empresas que controlam o mercado mundial de suco de laranja, mas o que acontece com os fornecedores brasileiros? São esmagados, porque existe um sistema de cartel. Por isso, essa riqueza das empresas não melhora em nada a situação interna. Faltam ações para completar esse ciclo de usar o mercado interno para alavancar as vendas do Brasil para o mercado externo.

IHU On-Line – Que ações seriam necessárias?

Luis Nassif – O BNDES e o Estado deveriam exigir um compromisso dessas empresas e fazer um acordo com elas. A partir do momento em que um grupo nacional começa a atuar no exterior, ele deve estimular a penetração de produtos das pequenas e médias empresas, além de levar os fornecedores brasileiros para o mercado internacional, de modo que eles também consigam crescer lá. Ainda não temos essa visão do interesse nacional. Existem duas maneiras de analisar a compra de várias empresas no exterior por uma organização nacional: às vezes, uma organização adquire uma empresa, mas está de olho no mercado desta instituição, no sentido de aumentar as exportações. Isso é bom para o Brasil. Mas também existe outro modelo, que consiste em comprar uma organização no exterior e produzir apenas lá, porque é mais barato. Isso atrapalha a produção interna. Dessa maneira, não basta para um país ter empresas multinacionais. Elas precisam estar subordinadas a uma estratégia de país.

IHU On-Line – E a que o senhor atribui essa falta de valorização nacional? O que é preciso para tornar real esse projeto?

Luis Nassif – A uma falta de visão estratégica. Nós saímos do período FHC e do primeiro governo Lula, onde qualquer intervenção do Estado era vista como maléfica. Isso era algo imbecilizante porque qualquer país do mundo, para virar potência, precisa de uma visão estratégica coordenadora do Estado. No Brasil, se começou a recuperar o papel do Estado com o Programa de Aceleração do Crescimento - PAC e com ações que ajudaram a minimizar a crise. Agora, o país precisa entrar na terceira etapa do desenvolvimento brasileiro, que consiste na necessidade de o Estado possuir uma visão estratégica. A segunda etapa, a qual me referi no início desta resposta, constitui quase que uma visão defensiva. Foram feitos alguns ajustes para melhorar a eficiência dos investimentos; o PAC permite melhorar os gargalos, mas ainda falta o ponto central, ou seja, a visão estratégica. Quando se tem uma visão estratégica bem montada, é possível saber qual é o papel do Estado, a função da grande empresa, da associação empresarial, dos sindicatos, da pequena e média empresa. Essa amarração só pode ser feita quando se tem um plano que integre todos esses planos. O discurso do presidente Lula, no último ano, vem nessa direção. Essa visão é correta. Temos de ter todos esses fatores atuando ao mesmo tempo. Não se pode fazer como fez Fernando Henrique Cardoso, ou como faz o BNDES hoje, que acreditam que basta dar apoio para as grandes empresas nacionais, e elas conduzirão o processo de desenvolvimento.

IHU On-Line – O BNDES desempenhará que papel nessa terceira etapa?

Luis Nassif – O BNDES será, nesse processo, o ponto desse lançamento desenvolvimentista. Hoje, a visão do Banco ficou muito focada em jogar bastante dinheiro para grandes empresas, com o objetivo de criar multinacionais brasileiras. Quando ele dá um montante monumental para os frigoríficos, o que ele pretende? O que o Brasil ganha com isso? O país só pode ganhar algo se esse processo significar aumento das exportações para o mercado internacional, se for possível criar mercado para outros produtos, se fortalecer o produtor brasileiro, para que ele consiga ter mais renda. Mas essa contrapartida não se exige. Então, o BNDES vai ter de, num determinado momento, trabalhar não apenas com essa visão da superempresa. Essas organizações são um meio para se atingir o desenvolvimento, mas o BNDES as transformou num fim.

IHU On-Line - O Banco Central já anunciou que irá aumentar, em breve, as taxas de juros. O que isso significa na atual conjuntura e como impacta nessa visão de plano estratégico a que o senhor se refere?

Luis Nassif – Os efeitos disso não aparecem de imediato e só atrasam os planos de investimentos das empresas. Quando uma organização tem uma expectativa de crescimento do consumo, ela faz um investimento e, na medida em que ele aumenta, cresce também o consumo, sem pressão inflacionária. Então, cada vez que o Banco Central anuncia que irá mudar a taxa de juros, todas as empresas “brecam” e se continua com esse processo de dinheiro que sai do orçamento para a dívida pública, o qual poderia ser aplicado em infraestrutura. Esse sistema do Banco Central é escandaloso, porque, em qualquer hipótese, eles ficam esperando a primeira oportunidade para inventar um álibi para reajustar os juros. Quando veio a crise, com a economia em baixa, a tendência seria o Banco Central reduzir os juros, mas ele os manteve. E quando a economia começa a se recuperar, ele aumenta os juros. Então, isso é algo maluco. Esse é um ponto que o próximo presidente terá de encarar: tirar esse poder absurdo do Banco Central de praticamente definir a política econômica.

IHU On-Line – Especula-se a criação do projeto Ômega no Brasil. Tal programa segue a lógica da internacionalização das empresas?

Luis Nassif – Ter um grande mercado de capitais é importante. No entanto, o ponto central é o seguinte: o mercado de capitais é um meio, não um fim. Pedro Malan,  por exemplo, no passado, desestimulou a Bolsa de Valores brasileira e estimulou a americana. Isso não significou aumento de nada internamente. Então, os desdobramentos da internacionalização de capitais devem ser pensados, tendo em vista esse objetivo: precisamos de capital no país. Então, se essa internacionalização das bolsas significar possibilidade do capital brasileiro e da poupança interna irem para outros países, isso pode ser negativo. Por outro lado, o mercado de capitais tende a desempenhar um papel relevante. Então, é preciso ter cuidado para não deixar isso apenas por conta do mercado de capitais, porque ele vai querer aquilo que for mais rentável, o que, necessariamente, pode não ser o mais lucrativo para o país. Então, o governo e o Ministério da Fazenda têm de entrar mais pesadamente nessa discussão, para que isso signifique trazer poupança para o país.

IHU On-Line – Trata-se do Estado regulador?

Luis Nassif – Esse é o ponto. O interesse das empresas é conseguir dinheiro barato, comprar empresas em todos os lugares, aumentar a rentabilidade. Então, se houver coincidência entre o interesse das empresas com os do Brasil, ótimo. Se não houver, elas vão pensar apenas nas suas vantagens. Isso não é crítica, faz parte da lógica de qualquer empresa. Então, o Estado e o BNDES, na condição de que estão escolhendo setores para serem os vitoriosos da frente, têm a obrigação de atuar também através do planejamento das empresas e exigir que elas cumpram determinados compromissos. Essa é uma medida imposta em qualquer país civilizado. Isso não é interferência indevida; é papel regulador do Estado. Infelizmente, isso não está sendo feito.  

IHU On-Line – Por que o Estado tem dificuldade de atuar como regulador?

Luis Nassif – Porque esses grupos acadêmicos que ascendem à política econômica têm uma visão de país que, às vezes, é incompleta. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, é muito preparado. Mas a visão dele é a mesma da Unicamp, ou seja, fortalecer os grandes grupos industriais brasileiros. A visão dos economistas da PUC-Rio é fortalecer os grandes grupos financeiros brasileiros. Onde entra, nesse jogo, a pequena e média empresa, a cadeia produtiva de cada setor? Não se mudou essa lógica, ainda, porque a pequena e média empresa não fazem parte do jogo político. Toda a formação desses institutos só consegue entender aquele Brasil que existia na década de 60, que era um país subindustrializado. Naquele contexto, a grande empresa era importante porque representava modernização, tecnologia. Hoje, o país é complexo. Existem diversas cadeias produtivas em todos os lugares. Então, os nossos economistas ainda não entenderam essa visão integrada. Ainda persiste aquela visão anacrônica de que focar na grande empresa financeira ou industrial é suficiente para o crescimento do país.

IHU On-Line – Que papel o PAC joga nessa reorganização do capitalismo?

Luis Nassif – O aspecto mais importante do PAC é pouco difundido. O Brasil, durante 30 anos, desaprendeu a gastar, inclusive o gasto público passou a ser sinônimo de desperdício. Então, nesse período todo, o dinheiro que sobrava do orçamento era usado para alguma obra, que não tinha continuidade. Assim, o primeiro passo importante do PAC consistiu em reorganizar os investimentos do país. Isso significa reconstruir projetos. O segundo ponto importante é que ele está definindo um modo de administração federativa do país. O grande diferencial do PAC, diante dos outros planos, é a articulação entre União, estados e municípios. Todos os governantes repartem os bônus políticos também. Esse é um ponto fundamental para conseguir a adesão dos políticos no projeto. Os políticos se movem de acordo com aquilo que dá projeção política para eles. Então, essa articulação entre União, estados e municípios, que só havia no Sistema Único de Saúde – SUS, foi estendida para a parte de investimentos. Esse é o grande ganho que o país tem, porque este projeto está sendo feito acima dos partidos políticos e cria um clima de colaboração entre as três instâncias.  

IHU On-Line - Como o senhor percebe as reivindicações em torno da redução da jornada de trabalho para 40 horas? A centralização do capitalismo brasileiro pode gerar limites em torno desse debate?

Luis Nassif - Esse é um debate complicado. Não sou a favor. Sou favorável à estimulação de sistemas de participação dos trabalhadores nos resultados da empresa, criando uma solidariedade com a instituição. Um dos grandes problemas que se tem hoje para o crescimento brasileiro é o fato de a atividade produtiva da pequena e média empresa estar muito amarrada à falta de acesso ao capital de giro e à tributação elevada. Se essas empresas já têm um orçamento espremido, aumentar o custo da folha significaria fazer uma substituição do pessoal que ganha mais para o que ganha menos e mecanizar funções. Esse é um processo centralizador que atinge só a pequena e média empresa. As grandes organizações são intensivas em capital. Para mim, essas medidas artificiais não são eficazes.

IHU On-Line - Que projeto o senhor vislumbra para o Brasil nos próximos cinco anos?

Luis Nassif – A grande mudança, que já está em curso e irá se completar, será o fim do monopólio da opinião de temas nacionais pela grande imprensa. Está havendo um burburinho de criação de organizações sociais. Esse é um negócio revitalizador fantástico, que se expressa nas conferências de mídia, de cultura. A Internet, rompendo com esse monopólio de mídia, e as ONGS, rompendo com os monopólios dos políticos, irão trazer mudanças essenciais. Algumas poderão ser traumáticas, porque irão retirar os setores que comandaram o país nos últimos anos, dando espaço para uma democratização. Esses próximos anos serão decisivos para o novo desenho de país moderno que estamos esperando.

IHU On-Line - O resultado das eleições pode representar uma mudança da condução do Estado na política econômica?

Luis Nassif – Independente de quem for eleito, a política monetária será atacada. Lula tem uma estratégia de reduzir conflitos. Ele acha que é preciso alcançar objetivos, reduzindo conflitos porque, do contrário, o país fica ingovernável. Ele tem razão em muitos pontos relevantes. Ele tinha receio de que a mídia e o mercado financeiro poderiam gerar instabilidade política. Então, nesse tempo todo, ele ficou com muito receio de mexer na política monetária cambial. Do lado da imprensa, vejo que acabou aquela influência massacrante que ela tinha. Do lado do mercado, há uma vulnerabilidade com as contas externas brasileiras. Mas resolvendo isso, melhorando o câmbio, o mercado passa a ser de um país estabilizado. Isso vai permitir ao próximo presidente avançar sob esse poder absurdo do Banco Central, e começar a tratar a responsabilidade fiscal sem essa subordinação cega ao Banco Central.

IHU On-Line – E quem conduzirá o Brasil? Dilma, Serra? Marina tem alguma possibilidade?

Luis Nassif – Vou ser abusado: penso que é mais fácil uma competição entre Dilma e Marina. Estou vendo José Serra se desmanchando. Ele não conseguiu, nesse período, definir um perfil político. Tinha um perfil de centro-esquerda, de repente se alia a uma direita raivosa, muito complicada. Nesses anos que passou em São Paulo, ele poderia sair do estado com um cartão de visitas fantástico. Mudar São Paulo é muito mais fácil do que mudar o Brasil. No estado, estão as melhores universidades, institutos de pesquisa, melhor infraestrutura, melhor rede de cidades médias. Ele não conseguiu articular uma política de inovação. Além disso, adotou um comportamento extremamente autoritário em relação à mídia. Seja quem for o presidente, terá que saber articular com todas as forças da sociedade. Lula deu a receita. E Serra mostrou nenhuma capacidade de diálogo com ninguém. Não dialogou com os sindicatos, entrou em conflito com a universidade, e, quando estourou a crise, demorou quatro meses para receber as associações empresariais, porque ele é o tipo de pessoa que, sob tensão, acaba travando. Ele não tem o menor jogo de cintura para administrar o Brasil.

IHU On-Line Os outros candidatos terão jogo de cintura?  
Luis Nassif – Lula definiu um padrão que será difícil de ser alcançado. Na entrevista que ele concedeu ao Estadão, disse que Dilma, para conseguir amarrar o PAC, precisou conversar com todos os governadores e prefeitos. Isso demonstra que ela teve jogo de cintura. Quando observamos algumas experiências dela, como a remodelação do setor elétrico, percebemos que ela chegou com uma proposta inicial que não era factível, passou a ouvir os empresários, discutiu, mas acatou as opiniões razoáveis. Todas as empresas que trabalharam com Dilma, veem nela uma figura racional, cartesiana. Ela mostrou coragem para atuar em áreas delicadas e fazer mudanças, mesmo recebendo críticas, até as pessoas perceberem que o que estava sendo feito era algo que tinha uma racionalidade e eficiência. Ela pegou dois pontos fundamentais na constituição institucional do país, que foram o modelo elétrico e o PAC, e não teve medo de ousar e fazer uma aposta no modelo novo.

IHU On-Line – Então, supondo que Dilma vença as eleições, ela dará continuidade à política de incentivo a fusões de grandes grupos nacionais?

Luis Nassif – Hoje, o responsável por essa política é o governo Lula. O governo não avança nesse sentido. Esperamos que mude com ela, mas essa cobrança terá de ser feita, embora ela não tenha ascendência direta sob o BNDES.

IHU On-Line – Mas sob a Petrobras, sim.

Luis Nassif – Na Petrobras é diferente, porque ela é o grande motor da nova política industrial brasileira. A capacidade de compra dela é fantástica. Todos os fornecedores da Petrobras crescem com ela. Ela está investindo no biodiesel, que é uma área social. Assim, ela desempenha um papel revitalizador muito importante. Esse papel dinâmico na economia dá um retorno mensurável para o Brasil. Embora as outras grandes empresas não tenham o tamanho dela, essa deveria ser a política de toda a grande empresa. Lula já percebeu isso, porque ele faz o discurso. Ele cobrou a Vale pelo fato de ela não estar fazendo investimento. A grande empresa nacional tem compromisso com o país. Mas os formuladores ainda não se deram conta de transformar isso numa política de Estado. Esse é um tema inevitável para a próxima etapa.

IHU On-Line – A Petrobras recebeu muitas críticas no início do ano por comprar, junto com o grupo Odebrecht, a Quattor Petroquímica. Essas fusões mistas fazem sentido?

Luis Nassif - Essa é uma situação complicada porque a Petrobras é a grande fornecedora de matéria-prima, então, as petroquímicas dependem da matéria-prima dela. Como ela é a única fornecedora, se a petroquímica não tiver um relacionamento adequado com ela e um compartilhamento de interesses, acaba sendo inviabilizada. Então, o fato de ela se associar às petroquímicas brasileiras dá uma capacidade de consolidação muito grande do parque petroquímico brasileiro. Mas aí voltamos a uma discussão de qual é o objetivo final: é ter meramente um grande parque petroquímico? Não. É criar condições competitivas para quem for comprar produtos petroquímicos poder produzir produtos competitivos, que possam ser exportados ou que possam desalojar as importações feitas nesse setor. Então, é essa amarração que está faltando. Agora, o fato de se ter uma empresa pública no capital de todas essas outras empresas também é um facilitador para quando o governo resolver definir essas estratégias. Como a Petrobras está metida no centro de todas as políticas industriais, ela pode ser esse fator indutor, mas acima dela tem que ter um plano estratégico de governo.

É possível conciliar os interesses de todos. Nos anos 90, a Fiat fez um pacto com os fornecedores: disse que não iria competir com outras empresas, e assinou contratos com eles por quatro ou cinco anos, garantindo a compra de um número x de peças. Mas, em contrapartida, exigiu qualidade x e preço y. Desse modo, os fornecedores trabalharam muito para reduzir preços, tendo como garantia a venda da produção. Dentro de alguns anos, a Fiat conseguiu ultrapassar o número de vendas da Volkswagen, que parecia imbatível. Esses acordos são possíveis. Mas só o Estado tem condições de juntar todos os atores para negociar.  

Leia Mais...

>> Nassif concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Acesse em nossa página eletrônica (www.ihu.unisinos.br).

• Uma operação para livrar Daniel Dantas do inquérito e do processo. Entrevista publicada em 4-9-2008.

• Lula. “Governo macunaínico como foi o de FHC”. Entrevista publicada em 21-5-2007.

• “O maior ‘cabeça-de-planilha’ hoje é o Lula”. Publicada em 27-4-2007.

• Cobertura das eleições. Um festival de horror. Entrevista publicada em 28-10-2006.

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