Edição 322 | 22 Março 2010

Grupos nacionais com projeção internacional: o avanço econômico

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Patrícia Fachin

Para o economista Waldir Quadros, os efeitos sociais positivos do crescimento econômico brasileiro estão diretamente ligados à adoção de medidas redistributivas como o reajuste do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda

“Para avançarmos na industrialização, é necessário que contemos com grupos nacionais de projeção internacional e capazes de realizar maciços investimentos, promovendo o contínuo desenvolvimento tecnológico”, defende o economista Waldir Quadros, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Apensar de ser favorável à atual política economica, ele lembra que existem lacunas na economia nacional. “Desde a abertura comercial sem critério e o predomínio do câmbio e juros desindustrializantes, inúmeras empresas fecharam as portas e se transformaram em distribuidoras de produtos importados ou se transferiram para outros países”.

Quadros acredita que as potencialidades brasileiras capacitam o país na busca dos resultados da terceira revolução industrial, a qual será “complementada com medidas redistributivas efetivas que alcancem a reconstrução dos serviços públicos sociais bastante degradados”.

Waldir Quadros possui graduação em Economia pela Universidade de São Paulo - USP, e mestrado e doutorado em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, onde, atualmente, é professor associado do Instituto de Economia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como avançar num novo patamar econômico e social, tendo em perspectiva o atual cenário econômico, de centralização do capital?

Waldir Quadros - O crescimento da economia brasileira no período 2004-2008 pode fornecer importantes indicações a este respeito. Em primeiro lugar, ao evidenciar os efeitos benéficos do dinamismo econômico sobre a estrutura social. Até 2003, parecia que a sociedade brasileira estava, de certa forma, resignada com taxas medíocres de crescimento. Agora, não mais. Este ciclo de taxas mais expressivas teve um importante efeito pedagógico e, sem dúvida, esta temática está na ordem do dia das análises econômicas e das perspectivas políticas. Em segundo lugar, ao também deixar suficientemente claro que os efeitos sociais positivos do crescimento são bastante potencializados com a adoção de medidas redistributivas. É o que se notou com os simultâneos reajustes reais do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda aos miseráveis.

Com certeza, estas questões assumirão papel relevante nas eleições presidenciais deste ano. Entretanto, em nosso entendimento, também ficou claro os limites estruturais deste dinamismo social, o que nem sempre tem merecido a devida atenção. De fato, verifica-se uma importante mobilidade social nos estratos inferiores da população, notadamente entre os miseráveis e a massa trabalhadora pobre. Porém, esta ascensão mais vigorosa chega apenas até a baixa classe média remediada. Para quem já se encontrava nesta camada, e legitimamente aspira melhorar de situação, as possibilidades foram bem mais restritas, pois, na classe média, as novas oportunidades são bastante reduzidas, e, na alta, predomina a estagnação.

Acreditamos que estas limitações, em grande medida, recorrem das condições macroeconômicas desfavoráveis ao desenvolvimento industrial e tecnológico e seus rebatimentos nos serviços produtivos. Em poucas palavras, este ciclo recente de crescimento teria ocorrido de forma um tanto “espontânea”, num primeiro momento, aproveitando os estímulos favoráveis da economia mundial em relação às exportações de produtos primários. Em seguida, pela reativação do consumo interno propiciado pela elevação nos rendimentos e, sobretudo, pela explosão do crédito a taxas de juros exorbitantes. Mas, sem alterar a estrutura produtiva bastante dilapidada por tantos anos de neoliberalismo.

Ou seja, crescemos apesar da nossa política econômica estagnacionista, particularmente no que se refere ao câmbio que beneficia as importações, e aos juros que punem o investimento produtivo. O que se completa com os fortes atrativos da valorização financeira desenfreada.

Nestas condições, as empresas praticam intensa rotatividade e rebaixam continuamente os salários. Aumentam as exigências de qualificação e engajamento e reduzem os salários. Este procedimento se generaliza no meio empresarial. As empresas em dificuldades diante das condições adversas adotam esta prática por razões defensivas, e as que estão em melhores condições também o fazem para gerar excedentes e aplicá-los na órbita financeira.

IHU On-Line - O senhor diz que o país precisa de uma política de industrialização, que o permita crescer com mobilidade social mais expressiva. As investidas do governo em criar empresas nacionais fortes sinalizam algo nesse sentido, ou pelo contrário, isso retrai o desenvolvimento social?

Waldir Quadros - Sem dúvida, este é um passo decisivo e bastante oportuno. Para avançarmos na industrialização, é necessário que contemos com grupos nacionais de projeção internacional e capazes de realizar maciços investimentos, promovendo o contínuo desenvolvimento tecnológico.

Entretanto, existem outras lacunas igualmente fundamentais que não estão sendo cuidadas. Refiro-me às sérias perdas nas cadeias produtivas provocadas pelas já referidas condições macroeconômicas adversas. De fato, desde a abertura comercial sem critério e o predomínio do câmbio e juros desindustrializantes, inúmeras empresas fecharam as portas e se transformaram em distribuidoras de produtos importados ou se transferiram para outros países.   

E esta atrofia da indústria se irradia de maneira extremamente negativa aos serviços de apoio à produção, sendo que ambos geram empregos, em geral, melhor remunerados que o comércio e os serviços pessoais.

IHU On-Line - É possível vislumbrar uma evolução da estrutura social numa fase em que a base econômica é fomentada por instituições nacionais portadoras de muito capital e competitivas no cenário internacional?

Waldir Quadros - Imagino que sim, e basta olhar para a nossa própria experiência histórica. De fato, de 1930 a 1980 - e notadamente desde o pós 2ª Guerra -, o Brasil cresceu a taxas muito expressivas a partir do esforço de industrialização pesada comandada pelo Estado. E a mobilidade social foi extremamente dinâmica, gerando uma respeitável classe media urbana e um operariado moderno, em que pesem o aumento da desigualdade social e da concentração de renda.

As potencialidades que o Brasil detém na atualidade nos capacita a retomar este caminho em direção aos resultados da terceira revolução industrial, agora o complementando com medidas redistributivas efetivas que alcancem a reconstrução dos serviços públicos sociais bastante degradados.

Nestas condições de desenvolvimento industrial e dos serviços produtivos e de avanço nos serviços públicos sociais, com certeza assistiremos à ampliação da média e alta classe média, abrindo caminho para a ascensão social mais efetiva das camadas inferiores e para a melhoria das condições de vida do conjunto da população.

IHU On-Line - O senhor defende a ideia de que, sem o crescimento da economia, não é possível promover avanços sociais significativos. No que se refere aos investimentos do PAC, por exemplo, percebe-se uma dualidade? O crescimento da economia, sem levar em conta questões ambientais e habitacionais, gera ainda mais desigualdades e vulnerabilidade?

Waldir Quadros - Corretamente, o PAC procura superar os graves estrangulamentos da infraestrutura nacional. Em boa medida, suas limitações decorrem, fundamentalmente, do desaparelhamento do Estado, que foi profundamente desarticulado desde o Governo Collor e só recentemente começou a ser recomposto. Mas, sem dúvida, ainda se faz necessária uma ampla reforma administrativa que assegure a competência e eficiência estatal em níveis comparáveis aos países desenvolvidos.

A própria área ambiental se ressente deste desaparelhamento. De um modo geral, sem recursos suficientes para avaliar adequadamente os impactos e, sobretudo, de monitorá-los em tempo real com poder para interferir com agilidade e efetividade, a tendência é de não aprovar os projetos. Ou seja, apenas prevalece a prudência ambiental, deixando o desenvolvimento sustentável em segundo plano. E esta cultura acaba por impregnar profundamente amplos setores do ministério público.

Agora, é crucial perceber que temos as melhores condições para crescermos em harmonia com o meio ambiente, desde que contemos com adequadas condições de planejamento e execução para efetivar nossas potencialidades, aprimorando nossa tradição de comando e controle pelo estado e incorporando a mais ampla participação da sociedade.

Por fim, não devemos focar nossas atenções apenas na preservação dos recursos naturais “selvagens”, descuidando da realidade urbana. Neste âmbito, entre tantas urgências, é crucial que nos livremos rapidamente do pernicioso predomínio dos automóveis no transporte de massa, que já tornou impraticável a vida civilizada nas cidades brasileiras. E não apenas nas metrópoles.

IHU On-Line - Que conjuntura econômica o senhor vislumbra para 2010? De que maneira ela irá refletir na estrutura social do país?

Waldir Quadros - Formou-se um relativo consenso entre os analistas de que, não ocorrendo algum abalo mais sério na economia mundial, nosso desempenho em 2010 será comparável ao vigente no período anterior à crise de fins de 2008.

Assim sendo, é de se esperar que os retrocessos sociais porventura ocorridos em 2009 (e que só poderão ser mensurados com a divulgação da PNAD de 2009, por volta de outubro) sejam superados ao longo de 2010.

Entretanto, implicações mais profundas e duradouras podem advir da próxima eleição presidencial. Caso ela resulte na escolha de um(a) estadista que encaminhe a economia nacional nos rumos do desenvolvimento esboçados nas perguntas anteriores, poderemos construir uma sociedade próspera, mais justa, menos desigual e ambientalmente sustentável num prazo não muito longo.   

Não é sempre que uma sociedade se defronta com tais possibilidades históricas.

A classe média aponta para o forte predomínio do individualismo e do consumismo. Publicada na edição número 270, intitulada Uma nova classe média brasileira?, de 25-8-2008.

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