Edição 249 | 03 Março 2008

Hugo Assmann (1933-2008)

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

O irmão Antonio Cecchin fala de sua amizade com Hugo Assmann e da herança que o padre deixou para a Igreja latino-americana

O irmão Antonio Cecchin fala de sua amizade com Hugo Assmann e da herança que o padre deixou para a Igreja latino-americana na entrevista que segue, concedida por telefone. Antônio Cecchin é graduado em Letras Clássicas (grego, latim e português) e em Ciências Jurídicas e Sociais. Especialista em Economia e Humanismo no IRFED de Paris, ele já trabalhou como diretor do Colégio Marista São Luís, em São Leopoldo, como Coordenador da Equipe de Catequese Libertadora do Regional Sul-3, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como Secretário particular do Promotor Geral da Fé, no Vaticano, e como assessor do MST, enquanto esse estava ligado às Comunidades Eclesiais de Base (de 1979 a 1984). Cecchin já nos concedeu outras entrevistas. A mais recente, em 11-06-2007, “Os pobres me evangelizaram”, foi publicada na edição 223 da IHU On-Line, intitulada Paulo Freire. Pedagogo da esperança.

Sobre a vida e obra de Assmann, publicamos no sítio do IHU os artigos “Hugo Assmann: teologia com paixão e coragem”, de Jung Mo Sung ; “Hugo Assmann (1933-2007)”, de João Batista Libânio ; e “Da teologia da libertação à educação para a esperança”, de Juan José
Tamayo.

IHU On-Line - Como era a pessoa de Hugo Assmann, sobretudo as características de sua personalidade? O que o senhor mais lembra do convívio com ele?
Antonio Cecchin
– Ele era uma pessoa muito forte, de uma inteligência muito lúcida. Foi muito corajoso sendo um dos precursores da Teologia da Libertação, antes de ela ser consagrada com esse nome, que foi dado depois pelo Gustavo Gutiérrez , no ano de 1971. Já em 1964, 1965, padre Hugo já estava nos dando essa nova visão a partir, inclusive, da CNBB. Lá, eu trabalhava com ele. Eu cuidava do setor de catequese e ele do setor de liturgia. Padre Hugo foi pároco também da Igreja Mont’Serrat, em Porto Alegre, e, por causa da posição teológica dele, acredita-se que os inimigos incendiaram a igrejinha que ele cuidava. Logo depois, ele fez o projeto da nova igreja em que ele era pároco. Como pessoa, ele era muito dado, grande amigo, mas com uma personalidade forte. Tinha uma conversa muito agradável, gostava do chimarrão e de uma caipirinha. Era uma pessoa de muita alegria. No entanto, foi perseguido no “templo e no pretório”, como se costuma dizer. Ele precisou sair de Porto Alegre por causa das suas visões avançadas dentro da Igreja e depois teve que fugir do Brasil na véspera dos anos de chumbo. Eu e minha irmã colaboramos com ele na compra de alguns objetos, como uma eletrola, para ele poder ter um dinheirinho a mais e sair do Brasil.

IHU On-Line – Além de ter sido um dos precursores, qual é a importância de Assmann para a Teologia da Libertação e sua maior contribuição para a Igreja latino-americana? 
Antonio Cecchin
– Hugo Assmann é um dos teólogos mais profundos da Teologia da Libertação. Antes de ela existir com esse nome, ele escreveu sobre teologia do desenvolvimento, ao lado de outro teólogo, José Comblin , que escreveu um livro sobre teologia da revolução , e Rubem Alves , que escreveu sobre a teologia da esperança . Então, eram todos títulos para uma nova teologia que estava sendo “parida” entre os teólogos latino-americanos, quando veio Gustavo Gutiérrez, com sua tese, firmando esse nome: Teologia da Libertação. Mas, para mim, o meu pai na Teologia da Libertação, porque aprendi tudo com ele, foi Hugo Assmann. Eu estive com ele em Medellín  uma semana antes do famoso encontro da Assembléia dos bispos. No mesmo local, fizemos o Congresso Internacional de Catequese, onde estiveram todos os diretores dos grandes institutos catequéticos europeus, norte-americanos, canadenses, latino-americanos. E aí, então, Hugo Assmann se firmou dentro de uma polêmica muito forte com os catequistas europeus. Ele conseguiu dar uma definição do que seria para nós, latino-americanos, a catequese libertadora. Falamos das comunidades eclesiais de base e da evangelização desse povo pobre, simples, latino-americano. As conclusões desse encontro internacional de catequese foram, logo em seguida, aproveitadas no documento oficial dos bispos. Trata-se do documento da catequese da Assembléia de Medellín.

IHU On-Line - Como era a convivência de Assmann, em Porto Alegre, com o então arcebispo Dom Vicente Scherer?
Antonio Cecchin
– A convivência não foi nada fácil. Como sacerdote, padre Hugo Assmann foi para São Paulo, exatamente pelas idéias avançadas que ele tinha. Mesmo como catequista, numa linguagem mais de evangelização, de educação da fé, eu também tive problemas muito sérios com Dom Vicente Scherer . Por isso, Padre Hugo saiu do Rio Grande perseguido pelo templo, ou seja, pela Igreja, e depois pelo pretório, como eu já disse, pelos anos de chumbo, que o obrigaram a sair correndo do Brasil, quando foi para Montevidéu, e depois para a Europa.


Quem foi Hugo Assmann?

Hugo Assmann foi um autor que marcou a vida acadêmica dos anos 1960 a 1980, especialmente os que eram da área de Filosofia e Teologia. Agudo, sempre antenado com as grandes questões destas décadas, os seus livros eram disputados, pois era difícil consegui-los no auge das ditaduras militares. Era preciso consegui-los na Espanha, onde a Editora Sígueme os editava. Sim, Hugo Assmann, viveu grande parte da sua vida exilado. Ele peregrinou, depois do golpe de 1964, por países como Uruguai, Bolívia, Chile e Costa Rica.

Com a sua morte, vai-se um dos grandes formuladores dos inícios da Teologia da Libertação. A sua contribuição não se traduziu apenas numa obra marcante, mas também seu espírito inquieto fazia com que suscitasse o debate, a crítica. Isso explica, talvez, a sua caminhada desde a sua tese de doutorado sobre a dimensão social do pecado, defendida em Roma, ainda antes do Concílio Vaticano II, passando pela Teologia do Desenvolvimento, pela Teologia da Revolução e pela Teologia da Libertação. Na duas últimas décadas do século, juntamente com Franz Hinkelammert, abriu um novo horizonte para a reflexão teológica, em plenas décadas do avanço do neoliberalismo. Ele foi pioneiro no desvelar as ‘falácias religiosas do mercado’.

A sua produção mais recente foi voltada para a educação.

Hugo Assmann esteve, certa vez, na década de 1990, aqui na Unisinos, num evento internacional sobre filosofia da libertação. Ele voltava para a cidade onde fizera o curso de filosofia, na antiga sede da Unisinos. Ele fez questão de visitar o cemitério dos jesuítas para recordar seus antigos mestres. Também visitou a Casa de Saúde para encontrar antigos professores jesuítas que ainda viviam.
A trajetória de vida e de produção teológica de Hugo mereceriam um estudo mais aprofundado.

Últimas edições

  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição
  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição