Edição 339 | 16 Agosto 2010

Kierkegaard e Dogville: a desumanização do humano

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Márcia Junges

 

IHU On-Line – Qual é o conceito de ser humano em Kierkegaard?

Fransmar Barreira Costa Lima – Em âmbito geral, Kierkegaard dedica maior atenção ao conceito de indivíduo. Talvez o leitor pergunte: Mas você escreveu sobre a “desumanização do humano”? E eu respondo: Sim, mas tal desumanização ocorre em Dogville; é Lars von Trier que propõe esta desumanização ou esta desconstrução do humano.
No capítulo que escrevi em Kierkegaard no nosso tempo, recorro a uma publicação de Reichmann  da década de 50 intitulada A desumanização de Kierkegaard, publicada pelo autor no ano do centenário da morte do pensador dinamarquês.  Reichmann aproxima o conceito de humano do de indivíduo, porém, prefiro ainda assim considerar uma visão etimológica da palavra “humano”.
Humano provém do radical húmus, que em latim significa “terra fértil”, ou seja, ser humano é ser portador de uma fertilidade que se renova constantemente a partir de si mesmo, é ser criativo. Falamos aqui de uma criatividade criadora, um indivíduo fecundo capaz de criar o novo a partir de suas próprias condições. Como o indivíduo kierkegaardiano é um indivíduo singular, único, estas exigências também se aplicam a ele, pois a capacidade que este indivíduo tem de criar sua existência torna-o único perante aos demais indivíduos e ele é assim capaz de reconhecer em todos os outros a mesma potência criativa. Isto fica claro principalmente em As obras do Amor, quando Kierkegaard afirma que é uma obra de amor reconhecer o outro, não como um segundo eu, mas como um primeiro tu.

Um humano autêntico

Este indivíduo humano de Kierkegaard ou, como Jorge Miranda aponta em sua obra Ética e Existência em Kierkegaard e Lévinas, esta pessoa humana dotada de uma pessoalidade ímpar, capaz de reconhecer o outro como verdadeiramente outro, é o que torna o indivíduo kierkegaardiano fecundo a ponto de, por si só, tornar sua existência autêntica; sem a necessidade de recorrer a simulacros ou a padrões culturais e morais que são dados, não por compreensão ou necessidade, mas por imposição social. Lembro-me de uma comunicação de Johannes Møllehave, em um documentário produzido pelo Centro de Estudos de Kierkegaard (Søren Kierkegaard Forskningscenteret), de Copenhague, onde ele cita um dos “Contos de Inverno” de Karen Blixen . Ele recorda uma passagem onde o indivíduo contempla uma raposa perto de um bosque e pensa: – Meu Deus! É uma raposa tão raposa. Nada nela me faz lembrar qualquer outra coisa que não seja uma raposa. Do focinho à cauda, nunca vi uma raposa tão raposa.
Esta talvez seja uma das principais questões que se apresentam no entendimento de Kierkegaard sobre o humano: Porque não podemos ser quem verdadeiramente somos? Por que simulamos ser alguma coisa que não queremos ser? Entendo que este ser, ao qual se refere Møllehave, não é um ser metafísico, mas é um existir autêntico. Uma das exigências para o indivíduo de Kierkegaard e, consequentemente, do humano é existir autenticamente, em verdade, com sinceridade e honestidade principalmente para consigo. Para que seja humano, não é necessário me fantasiar com aquilo que eu não sou.

IHU On-Line – Como o humano desumanizado se apresenta em Dogville? O que caracteriza esse “novo” humano?

Fransmar Barreira Costa Lima – Quando Álvaro Valls  apresenta o capítulo sobre Dogville na introdução de Kierkegaard no nosso tempo, ele afirma que aquela cidade é uma terra de bandido, que destrói a individualidade. Literalmente aquela é uma “cidade do cão”; o único existente ali – no sentido kierkegaardiano – é Moisés, o cachorro, que Lars von Trier  aloca na cena  na forma de uma representação, um desenho traçado sobre o chão. Tudo o que é real em Dogville é meramente representado enquanto todo o simulacro – talvez com exceção de Grace – é animado, vivo.  Isto explica talvez a riqueza de cenário do filme.
Dogville é uma cidade conservadora, pacata, apegada aos seus valores morais de forma tão sistemática que qualquer acontecimento capaz de quebrar sua rotina é motivo para uma reunião com todos os habitantes para se decidir o que fazer; um perfeito exemplo de democracia contemporânea. Tudo passa pelo voto coletivo, todos se tratam como iguais e se respeitam; mas diante de uma adversidade nenhum indivíduo decide sequer sua ação enquanto indivíduo. Não há espaço para o humano criativo em Dogville.
Grace, ao contrário, busca por sua humanidade, pois se encontrava em meio à família de gangsteres em situação semelhante, com a diferença de seu posicionamento em busca do humano, já que ela é capaz de fugir desta realidade e privilegiar sua solidão para ouvir a interioridade no silêncio.

Nas profundezas da humanidade

É extremamente significativo que ela se esconda primeiramente na mina da cidade, lugar de onde se extrai o que há nas profundezas do solo; é como se Grace buscasse escavar as profundezas de sua humanidade. De certa forma é uma postura existencial que visa o absoluto, o divino que há dentro de cada homem – como afirmava Kierkegaard – e este argumento ganha força quando lembramos as palavras do salmista que dizia “Das profundezas clamo a ti, senhor”. É no profundo do humano, no âmago da interioridade que a existência enquanto existência se manifesta, é aí que surge a criatividade do humano no profundo, sua integração com a verdade e com o divino de forma autêntica. Dogville é uma cidade da superfície – desumanizada por sua superficialidade já que não tem mais condições de escavar a verdade na interioridade de seus indivíduos.  É uma cidade que não constrói nenhuma individualidade. Tudo ali é, como escrito na saída da mina, dictum ac factum. A principal característica do humano em Dogville é o resgate da humanidade no sentido de que para reconhecê-la, deve ser percebida como única e singular – como uma verdade autêntica que emerge do profundo do indivíduo, de sua singularidade e de sua existência.

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