Edição 374 | 26 Setembro 2011

Lima Vaz, um trabalhador da filosofia

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Márcia Junges

Avesso a rótulos acadêmicos, o pensador jesuíta poderia ser justamente definido como alguém interessado na “filosofia que se sabe filosofia”, assinala Delmar Cardoso. Grupo de Estudos Vazianos – GEVaz e Memorial Padre Vaz dedicam-se a continuar debates sobre seu pensamento

“Qualquer pessoa que se defrontar com um texto vaziano há de perceber sua indiscutível identidade e profundidade filosófica. Padre Vaz não era só um erudito da filosofia, mas um filósofo conscientemente dedicado ao trabalho filosófico. É assim que gosto de defini-lo: um trabalhador da filosofia. Ele nunca aceitou ser rotulado como platônico, tomista ou hegeliano”. A explicação é de Delmar Cardoso, professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, em Belo Horizonte, Minas Gerais. A unidade do pensamento de Lima Vaz é um dos traços marcantes de sua obra filosófica: “É impressionante como intuições e compreensões que lhe serão características nos últimos 25 anos de sua vida já se encontram, por exemplo, no texto de sua tese de doutoramento”. E completa: “Em linhas gerais, podemos dizer que seu interesse é pela filosofia que se sabe filosofia”. A respeito do Memorial Padre Vaz, Cardoso explica que lá estão todos os documentos ligados à produção filosófica desse pensador. “O objetivo do Memorial está ligado à conservação desses documentos. Uma vez que tudo se encontra em formato digital, outro objetivo é disponibilizar este acervo para pessoas interessadas em pesquisar o pensamento filosófico do Pe. Vaz”.

Coordenador do Grupo de Estudos Vazianos - GEVaz e um dos pesquisadores ligados ao Memorial Padre Vaz, coordenado pelo Pe. João Mac owell, Delmar Cardoso é graduado em Filosofia pelo Instituto Santo Inácio, da Companhia de Jesus, e em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, onde cursou mestrado em Filosofia. Na Pontifícia Universidade San Tommaso D’Aquino realizou doutorado em Filosofia com a tese A alma como centro do filosofar de Platão: uma leitura concêntrica do Fedro à luz da interpretação de Franco Trabattoni. É pós-doutor pela Universidade de Fordham, em Nova Iorque, Estados Unidos, e autor de A alma como centro do filosofar de Platão (Roma: s.d., 2006)

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No que consiste o Memorial Padre Vaz? Poderia recuperar sua formação, objetivos e funcionamento?

Delmar Cardoso – Primeiramente, esclareço que não sou o responsável pelo Memorial Padre Vaz. O primeiro responsável por ele é o Pe. João Mac Dowell. Faço parte do grupo de pesquisadores ligados ao Memorial. O Memorial consiste basicamente no arquivo dos materiais ligados ao pensamento de Lima Vaz. Isso significa que o memorial conserva todos os documentos ligados à produção filosófica de Lima Vaz. Quem o conheceu sabe que ele era alguém muito organizado e que deixou manuscritos preciosos dos cursos e conferências que dava. Além disso, muitos de seus alunos gravaram suas aulas em fitas magnéticas ou em formato VHS. Houve também quem transcreveu cursos seus quase que por inteiro. Após a morte de Lima Vaz, ocorrida a 23 de maio de 2002, o então reitor da FAJE, Pe. João Mac Dowell, se esmerou em reunir os pertences de Lima Vaz e também materiais vindos de seus ex-alunos para a formação do memorial. Todo o material recolhido foi digitalizado por Rubens Godoy Sampaio, ex-aluno de Lima Vaz, que fez seu mestrado e doutorado sobre a filosofia de Lima Vaz. Ele realizou um trabalho minucioso que só poderia ser feito com perfeição por alguém que tivesse afinidade com a filosofia e com o pensamento de Lima Vaz, além da competência técnica.
Fica claro que o objetivo do Memorial está ligado à conservação desses documentos. Uma vez que tudo se encontra em formato digital, outro objetivo é disponibilizar este acervo para pessoas interessadas em pesquisar o pensamento filosófico de Lima Vaz.

As instalações do Memorial se encontram no interior da Biblioteca Padre Vaz – FAJE. Os interessados em pesquisar in loco têm de entrar em contato com o pessoal da biblioteca para agendar sua pesquisa. Por outro lado, toda a base de dados do Memorial se encontra disponível para ser adquirida através da rede mundial de computadores, no portal eletrônico . O contato direto com o administrador do Memorial pode ser feito por correio eletrônico: .

IHU On-Line – Quais são os principais projetos do Memorial que estão em andamento?

Delmar Cardoso – O principal projeto consiste em preparar a publicação dos textos inéditos. Sob a coordenação do professor João Mac Dowell, foi formada uma comissão de professores que conheceram de perto o pensamento de Lima Vaz a fim de preparar tais publicações. Isso, porém, há de levar uns anos. Espera-se que no ano que vem, quando se completam 10 anos da morte de Lima Vaz, tenhamos a publicação de sua tese de doutoramento, escrita em latim. O texto foi traduzido pelo professor Juvenal Savian Filho, da Unifesp.

IHU On-Line – Que facetas estão sendo descobertas na obra vaziana a partir dos trabalhos empreendidos pelo Memorial?

Delmar Cardoso – Não se trata bem de algo novo, mas da confirmação de um dado bem conhecido por quem estuda e conhece os textos de Lima Vaz: a unidade de seu pensamento. É impressionante como intuições e compreensões que lhe serão características nos últimos 25 anos de sua vida já se encontram, por exemplo, no texto de sua tese de doutoramento.

IHU On-Line – Há um florescimento no Brasil nos estudos vazianos. A que atribui essa “descoberta” do pensamento de Lima Vaz?

Delmar Cardoso – Não diria propriamente um florescimento nem uma “descoberta”, mas um fato de honestidade intelectual. Qualquer pessoa que se defrontar com um texto vaziano há de perceber sua indiscutível identidade e profundidade filosófica. Lima Vaz não era só um erudito da filosofia, mas um filósofo conscientemente dedicado ao trabalho filosófico. É assim que gosto de defini-lo: um trabalhador da filosofia. Ele nunca aceitou ser rotulado como platônico, tomista ou hegeliano. Mas creio se o chamássemos de simplesmente filósofo ou de trabalhador da filosofia, ele não se oporia. De modo que, se formos escrever uma biografia de Lima Vaz, creio que um bom título seria: Vida filosófica.

IHU On-Line – Como podemos compreender a trajetória intelectual desse pensador dentro da tradição filosófica jesuíta e no cenário brasileiro?

Delmar Cardoso – Lima Vaz começou seu magistério em 1953, após completar sua formação como jesuíta. Quem o conheceu àquela época diz ter ele conservado ainda um rosto bem jovem. Tinha só 31 anos. Lembremos que ele terminou sua licenciatura canônica em Filosofia em Nova Friburgo em 1945, onde passara três anos. Naquela época seus professores e superiores notaram sua extraordinária capacidade intelectual para estudos filosóficos. Daí que o enviam a Roma para os quatro anos de teologia e o doutorado em filosofia, que ele defendeu no início de 1952. De modo que ficou em Roma entre 1946 e 1952. Podemos dizer que imediatamente após seu retorno ao Brasil, em 1953, mesmo no âmbito pacato e monacal da Faculdade Pontifícia de Filosofia dos jesuítas em Nova Friburgo, Lima Vaz foi notado por sua personalidade filosófica. Seus alunos daquela época testemunham ter ele trazido ventos de renovação e profundidade àquele ambiente. Mas ele não ficou só no interior daqueles muros. Sua atuação como assessor da Juventude Universitária Católica – JUC o colocou em contato com jovens cristãos cujo ideal postulava justamente novos tempos. O trem da história o trouxe, em 1964, para o departamento de filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – FAFICH, da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, onde ele encontrou um ambiente favorável para sua filosofia. Neste ínterim, a faculdade de filosofia dos jesuítas tinha ido para São Paulo e permaneceu lá entre 1966 e 1974, neste período, ou seja, de 1964 a 1974, Lima Vaz esteve fisicamente ausente da formação dos jovens jesuítas. Mas seu nome nunca deixou de ser referência filosófica entre os jesuítas. Em 1975 ele voltou a colaborar com a faculdade dos jesuítas, que funcionou no Rio de Janeiro entre 1975 e 1981. Ele continuou na FAFICH em Belo Horizonte. A vinda para Belo Horizonte da faculdade de filosofia dos jesuítas em 1982 veio a coroar a presença do Lima Vaz na formação filosófica dos jovens jesuítas.
Durante o tempo em que esteve na FAFICH ele cultivou grandes amizades entre seus colegas professores e também entre seus alunos, muitos dos quais se transformaram em professores da FAFICH. Em 2001, ele foi agraciado com o título de professor emérito da UFMG, sinal de como sua vida foi significativa para essa instituição universitária, considerada uma das melhores do Brasil. Outro dado importante é sua atenção e gentileza para com todos. Quem precisou de uma conversa, de uma orientação, de um diálogo no âmbito da filosofia, encontrou em Lima Vaz um interlocutor pronto a responder.

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