Edição 374 | 26 Setembro 2011

A dimensão comunitária de Lima Vaz, Taylor e MacIntyre

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Márcia Junges

Elton Vitoriano Ribeiro pesquisou a filosofia dos três pensadores, considerados comunitaristas e de viés intersubjetivo, e constata que a existência ética é exercício árduo a ser conquistado a cada dia pela humanidade

Um sistema majestoso como uma catedral. Assim é o pensamento de Lima Vaz, na opinião do filósofo Elton Vitoriano Ribeiro, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “Catedral que, numa exposição de grande rigor e beleza formal, à maneira de uma catedral gótica feita de conceitos, armada em articulações simétricas e elegantes, expõe a existência naquilo que ela possui de mais essencial. E se, como vivemos os cristãos, entramos numa catedral para louvar a Deus e saímos para servir aos irmãos, mutatis mutandis, entramos no pensamento de Lima Vaz para contemplar o Absoluto e a existência e saímos para assumir responsavelmente nossa existência com os outros, no mundo”. Para o filósofo, “o pensamento ético de Lima Vaz quer ser um instrumento conceitual que nos permita pensar nossa existência ética com os outros no mundo”. Mas esse mundo ético não será uma conquista fácil da civilização, pelo contrário: trata-se de “uma conquista permanente, sempre recomeçada e sempre ameaçada pela queda”. Em sua tese de doutorado, Ribeiro examina as aproximações entre as filosofias de Charles Taylor, Alasdair MacIntyre e Lima Vaz, todos preocupados com a dimensão comunitária, intersubjetiva “da questão ética na sociedade contemporânea”.

Graduado em Filosofia e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte, é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio com a dissertação A questão da intersubjetividade no pensamento ético filosófico de H. C. Lima Vaz. Na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, cursou doutorado em Filosofia, com a tese Entre Charles Taylor e Alasdair MacIntyre: Reconhecimento ético e virtudes na filosofia de Henrique C. de Lima Vaz (Roma: PUG, 2010). É professor na FAJE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como analisa a importância da obra vaziana no contexto filosófico brasileiro e mundial?

Elton Vitoriano Ribeiro – Para mim, a obra vaziana é um campo ainda a ser explorado. Apesar de vários intelectuais estudarem o pensamento de Lima Vaz, eu penso que ainda falta uma maior e mais abrangente atenção aos problemas apontados por ele e suas pistas de elucidação destes problemas, bem como uma maior aproximação de sua obra a obra de outros filósofos contemporâneos. Apenas com uma pesquisa mais aprofundada e contínua poderemos perceber o valor de Lima Vaz como um mestre que construiu um pensamento de inestimável valor filosófico.

IHU On-Line – O que é a questão da intersubjetividade no pensamento de Lima Vaz?

Elton Vitoriano Ribeiro – Lima Vaz sempre teve uma preocupação de pensar filosoficamente uma ontologia da pessoa humana, ou seja, uma antropologia filosófica. Ora, uma antropologia que se quer filosófica deve refletir e discorrer sobre o ser humano do ponto de vista de sua inteligibilidade radical, isto é, da inteligibilidade que fundamenta a sua afirmação como ser. Assim, para Lima Vaz, todo o trabalho da antropologia filosófica é pensar a oposição fundamental finito/infinito. Quero dizer, pensar a oposição onde o ser em nós, sendo por essência finito, está implicado numa presença do infinito que se manifesta em diferentes formas. Para isso ele pensa um caminho dialético por onde se desenvolve essa questão antropológica que deverá percorrer os momentos estruturais e relacionais através dos quais o Eu sou se constitui na sucessão dialeticamente articulada das formas das expressões que manifestam seu ser subsistente finito (pessoa) como incondicionalmente aberto ao ser infinito. Esse caminho dialético percorrido pelo pensamento de Lima Vaz, ao construir a arquitetônica da antropológica filosófica, é a organização conceitual da experiência fundamental do homem-sujeito como sujeito, e terá como primeiro momento a tematização da subjetividade, o homem dizendo-se a si mesmo enquanto estrutura, e que ele compreende como sendo composto pela estrutura somática (categoria de corpo), estrutura psíquica (categoria de psiquismo) e estrutura noético-pneumática (categoria de espírito).

Após o momento estrutural do ser do homem, Lima Vaz coloca a questão de como nesse dizer-se a si mesmo, o homem diz igualmente o mundo, o Outro e o Absoluto, seja nas dimensões objetivas das coisas, seja nas dimensões intersubjetivas dos sujeitos. Desta forma, mundo, história e Absoluto são os termos das relações constitutivas da abertura do homem à realidade na qual o corpo, o psiquismo e o espírito são, respectivamente, as condições de possibilidade da presença humana à realidade.
Percorrendo este caminho dialético elucidado por Lima Vaz, após passarmos pelas categorias de estrutura, o discurso filosófico avança para o momento das categorias de relação. Num primeiro momento temos a relação de objetividade que se refere ao ser humano ao mundo. Depois, o passo dado será o de apresentar a categoria de intersubjetividade, categoria que constitui o ponto principal desta pergunta. Lima Vaz busca elaborar a categoria de intersubjetividade tentado superar a absolutização da práxis. Absolutização que, baseada apenas na razão instrumental, se traduz em critérios do útil, do eficaz, do produtivo, do consumo; bem como, na tentativa de superação do solipsismo. Para esta grandiosa tarefa, ele encontra elementos fundacionais na filosofia hegeliana do espírito e na dialética do reconhecimento. Por outro lado, Lima Vaz fundamenta a sua reflexão no campo semântico da categoria de transcendência. Para tal tarefa, será preciso colocar-se numa posição que esteja livre do conjunto epistemológico que a tecnociência lança sobre o universo intersubjetivo. Depois, tentar alcançar uma saída mediadora entre as posições extremas da heterologia e da egologia. Assim, a tarefa será então buscar uma solução diversa, uma via média que supere a precariedade do reconhecimento próprio da nossa sociedade individualista de consumo. Inicialmente, ao expor a categoria de intersubjetividade, o nosso autor apresenta o paradoxo do relacionamento dialético entre duas infinitudes intencionais. O próprio Hegel já recorrera ao conceito de infinitude no momento em que a autoconsciência, após a duplicação com a outra de si mesma, passa a lutar pelo seu pleno e efetivo reconhecimento. Para Lima Vaz, a dialética da infinitude acontece no plano intencional e se manifesta primeiramente na linguagem. Assim, a linguagem será compreendida como uma estrutura significante que se diferencia em múltiplas formas, desde a postura corporal e o gesto até a articulação do discurso. Ora, mesmo o aparecimento do outro no horizonte da intencionalidade do eu tem lugar no medium da linguagem, sendo a linguagem definida como medium da interlocução ou como terreno no qual se desdobra a relação recíproca entre os sujeitos. Relação de reciprocidade essa que será o lugar origem da relação dual eu/tu e da relação plural do nós. Portanto, a infinitude intencional e a reciprocidade fazem parte do núcleo semântico do conceito de intersubjetividade proposta por Lima Vaz.

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